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sexta-feira, outubro 03, 2008

2 poemas para 1 desenho


I

É um mistério que você seja
motivo e remédio do meu sofrer.
Quando da minha festa, some.
Quando da minha perda, lá está.
Nenhuma paixão duraria
Sem uma promessa descumprida.

Você procura outra vida
nos dias em que eu transbordo.
Nenhum amor sobrevive
sem uma ponta de calúnia.
Você que é tão mais egoísta,
tão mais generosa.

Almas gêmeas o escambau,
torres gêmeas etcetra e tal.

Chame neurose, dialética, estupidez.
Mas me desequilibre, amor.
É preciso evitar a queda.

II

No hay tormento, ni espanto.
Eres solamente una estrada
Sin nubes, sin cielos,
Solamente una estrada.
Sin miedos, sin poderes,
Una estrada.

Sin carros, sin freos o velocidad.
Una estrada lilas.
O no. Cualquier color que te guste.

Sin memoria, sin destino.
Una estrada pronta. Basta olvida-la.

No sé que se pasa en su distancia.
Pero presumo, invento.
Su desnudez me cala, su suelo sin cactus,
charcos o lluvias.
Descubro que tengo pies
En el día en que estoy
prohibido de pisarte.

Y la luz.
Esta es de un silencio mortal.


(Desenho de Chuí realizado ao vivo
na Apresentação DOM DO CIÚME - SESC Sorocaba)

quarta-feira, setembro 24, 2008

DOM DO CIÚME no SESC POMPÉIA


Amigos,

Depois de duas apresentações deliciosas no SESC Pinheiros e no SESC Sorocaba, o DOM DO CIÚME mostra sua cara no SESC Pompéia.
Desta vez, além de muita música e cantoria, eu e Mona Gadelha assumiremos a leitura de trechos de Dom Casmurro de Machado de Assis, alternando-as com novas canções relacionadas ao ciúme Casmurrento. E em meio a tudo, um desenho a nanquim se fará projetar ao telão...
Será às 18 hs e a entrada é franca, na choperia.
Venham todos à celebração musical do amor paranóico. Estou certo que Machado não negaria que "por trás de um homem triste há sempre uma mulher feliz..."

Beijos a todos,

Chuí

Outubro de SAMBLUES!


Pessoal,
SAMBLUES! em outubro na área:

Dia 1 - no New Jazz Bar
Dia 9 - no Syndikat Jazz Club
Horário: 21:30hs

Eu, Guapponi e a guitarra fervente de Danny Vincent fazemos a JAM mais mestiça da cidade nos dias 1 e 9 de outubro, em duas das melhores casas de jazz de São Paulo.
Muito samba ao acento blues/jazz, músicas minhas, improvisações livres, etc...

Venham!

Beijos do Chuí

Oficina de Canção na Academia Internacional de Cinema



Amigos,
Não costumo divulgar meus cursos neste blog, mas farei aqui uma exceção, dada a natureza desta nova empreitada...
Em novembro, ministrarei uma oficina de canção na Academia Internacional de Cinema (AIC)- em Higienópolis -, a belíssima escola profissionalizante em cinema, e que também traz cursos de criação literária, área onde se abrirá este curso.
Serão 4 encontros onde pretendo abordar a canção ao longo da história, teorias referentes a esta e, sobretudo, propiciar a criação de canções entre os participantes.
Não é necessário que seja músico ou ter formação na área.
Convido a todos para participarem desta experiência musico-literária comigo.
Peço também ajuda na divulgação desta oficina - aos amigos, amigos de amigos, etc.
Estou certo de que será muito legal.
As informações vão no flyer acima (basta clicar sobre a imagem que ela se ampliará).
Beijos a todos,
Chuí

segunda-feira, setembro 15, 2008

Fresta! na UERJ - Herói é Humano


Amigos,
Fiquei sabendo por intermédio de três gentis estudantes - Thales, Rafael e Pâmela - que um dos textos deste blog (postado em 21 de dezembro de 2006) foi publicado na prova do vestibular da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ), realizada por eles há alguns dias.
Pelo que entendi, o texto não estava na íntegra, por isso resolvi postá-lo novamente aqui para os leitores novos e aos antigos que, por ventura, não o tenham lido.
Acima, um desenho de 1993 de uma história que eu fazia com o Beto, um amigo da faculdade.
Thales, Rafael e Pâmela, obrigado pelo toque.
(e mandem-me e-mails para retorno, ok?)
Beijos a todos,
Chuí

Herói é humano

Quando eu era criança eu passava todo o tempo desenhando super-heróis.
Eu fazia assinatura das revistinhas da Marvel e aguardava ansioso pelos gibis SuperaventurasMarvel, Homem-Aranha, Heróis da TV e Hulk, além de comprar na banca de jornal as séries do Batman e do Super-homem.
Para quem não é formado por esta literatura, é preciso explicar de que se trata. É a arte seqüencial, definição do gênio Will Eisner, que flerta com o infantil e com o adulto ao mesmo tempo.
Esteticamente, as HQs de super-heróis também têm algo de paradoxal. Por um lado, elas se propõem a uma seriedade digna de uma Odisséia, e, por outro, apresentam-se com desenhos cheios de balõezinhos que tornam quase impossível a tarefa de se escapar do kitch. Seus desenhistas trabalham as figuras todas em proporções realistas e, não obstante, não conseguem escapar da sua caricatura de nanquim. Com o advento das graphic novels dos anos 80, criou-se uma legenda de que então as HQs finalmente assumiriam seu posto de arte de boa qualidade. Todavia, não acho que a tal qualidade estética das ditas HQs adultas seja o maior legado das histórias de super-heróis. O cinema, sim, resgatou delas a sua essência, algo como o kitch-cult.
Toda HQ de super-heróis retrabalha, como evidencia o próprio nome, o mito do herói.
Recorro - mais uma vez - a Joseph Campbell que diferenciava as duas figuras públicas: o herói (figura pública antiga); e a celebridade (a figura pública moderna). Enquanto a celebridade se populariza por viver para si mesma, o herói assim se tornava por viver servindo sua comunidade. Todo super-herói deve atravessar alguma via crucis. Gandhi disse que, quanto maior nosso sacrifício, maior será nossa conquista. Como Hércules, como Batman.
Por trabalharem sob uma narrativa progressiva e cíclica, e serem tecnicamente mais ambiciosas do que as outras modalidades de HQs, as histórias de super-heróis se deslocaram de seu meio de revistas e jornais, aproximando-se muito mais das séries de TV e do cinema, mas sem perder seu mito pop. Talvez por isto as melhores coisas que o cinema comercial produz ultimamente sejam as adaptações das HQs de super-heróis.
O cinema nasceu comercial e, a despeito de uma série de diretores que conseguiram desenvolver o chamado cinema de arte, de Bergman e Fellini a Peter Greenaway e Almodóvar, é disto que se trata, uma imensa indústria de entretenimento. Não acho esta definição algo absolutamente depreciativo. Recordo-me de um gibi em que o Surfista Prateado dizia aos seres humanos: "A vida é imensa e complexa - acontece dentro e à margem dela mesma."
Toda HQ traz em si alguma coisa de industrial e marginal, ao mesmo tempo e sob o mesmo aspecto. Os filmes de super-herói, ainda que transpondo essa cultura para a grande e famigerada indústria, realizam uma outra façanha, que provavelmente sem eles não ocorreria: a formação de novas mitologias reafirmando os mesmos ideais heróicos da antigüidade ao homem moderno. Fellini afirmou uma vez que Stan Lee, o criador da Marvel e de diversos heróis populares, era o Homero do quadrinhos.
Toda boa história de super-herói é uma história de exclusão social. Homem-Aranha é um Nerd, Hulk é um monstro amaldiçoado, Demolidor é um deficiente, os X-Men são indivíduos excepcionais, Batman é um órfão, Super-Homem é um alenígena expatriado. São todos símbolos da solidão, da sobrevivência e da abnegação humana.
Não se ama um herói pelos seus poderes, mas pela sua dor. Nossos olhos podem até se voltar a eles por suas habilidades fantásticas, mas é na humanidade que eles crescem dentro do gosto popular.
(Os super-heróis que não sofrem ou simplesmente trabalham para o sistema vigente tendem a se tornar meio babacas, como o Tocha-Humana ou o Capitão América)
O cinema de Hollywood tem a função de nos mostrar até onde alcança o inconsciente coletivo, o topo do lugar-comum, aquilo que a sociedade espera dela mesma (o que, às vezes, nos traz boas surpresas); e os super-heróis, hoje superstars, são mitos oriundos de experiências feitas em laboratórios do submundo, a velha sub-arte das HQs, a santidade surgida do lixo. Hulk e Homem-Aranha são seres que criticam a inconseqüência da ciência, com sua energia atômica e suas experiências genéticas. Os X-Men nos advertem para a educação inclusiva. Super-homem é aquele que mais se aproxima de Jesus Cristo - e por isto talvez seja o mais popular de todos, mais popular do que os Beatles, que um dia disseram serem mais populares que Ele - em seu sacrifício solitário em defesa dos seres humanos, mas também tem algo de Aquiles, com seu calcanhar que é a kriptonita. Humano e super-herói, como Gandhi.
Não houve nenhuma literatura que tenha me marcado mais do que essas histórias em quadrinhos. Eu raramente as leio hoje em dia, mas quando assisto a bons filmes de super-heróis eu me lembro que todos temos um lado ingênuo e bom, que pode ser capaz de suportar a dor da solidão por um princípio.
Eu sempre me enterneço ao ver os X-Men, o Homem-Aranha ou o Super-Homem. Vejo diversas vezes, sei os diálogos. É verdade que há, entre esses filmes, alguns absolutamente lastimáveis; contudo, os filmes de super-heróis são a prova da sobrevivência deste mito em meio ao glamour e a indústria de "celebridades-miojo". Parafraseando o Surfista Prateado (e Deus queira que seja bem retratado nas telas...), é a negação do sistema, trazido dentro e à margem de sua grande indústria.
Tenho a raiva do Hulk, o mau-humor do Wolverine, a solidão do Super-Homem. Temos a tendência a atribuir nossos erros e defeitos à humanidade que nos comporta.
No entanto, vejo esses filmes e lembro-me que, ainda hoje, herói é humano.

sábado, setembro 06, 2008

Escravo-Rei


Na Babilônia,
um dia na vida
o escravo era rei.

No dia seguinte era morto.

Na Babilônia,
um dia na vida
o escravo cuspia na corte.

No dia seguinte era morto.

Na Babilônia,
um dia na vida
o escravo comia a rainha.

No dia seguinte era morto.

E o antigo rei, humilhado.
E os escravos ali, libertados.
E o povo de Babel, purificado.

Na Babilônia,
um dia na vida,
o escravo era dito BaalZebub.

No dia seguinte era morto.

No dia seguinte era morto.

No dia seguinte era morto.



(texto/desenho: Chuí)

domingo, agosto 31, 2008

DOM DO CIÚME - SESC Sorocaba & SESC Pompéia


Amigos,
Convido a todos para o show híbrido DOM DO CIÚME que fará duas novas apresentações neste mês de setembro. Dia 4 de setembro, próxima quinta às 20hs, iremos ao SESC Sorocaba. Mais precisamente, será no Teatro Municipal de Votorantim (Av. Newton Vieira Soares, s/n Votorantim - Capacidade: 272 lugares / *Os convites serão distribuídos gratuitamente no local uma hora antes do espetáculo).
E no dia 28, estaremos aqui em sampa, no SESC Pompéia.
Eu, Mona Gadelha, Luiz Ruffato, Anderson Toledo & VJ MRs manteremos a festa de música, literatura e desenho à luz de Machado de Assis.
Espero vê-los por lá para que sue se repita a maravilha que foi o primeiro.
Beijos a todos,
Chuí

domingo, agosto 17, 2008

O Astronauta


(escrita inside/outside)
,.

O mal do mundo
– 0 ast – são dois:
a malandragem e a dissimulação.
Os meninos aprendem a jogar bola
- uma casca dura e mole
ia colada à pele do astr -
e cada drible
dado e recebido
é uma aula de malandragem.

Meninos crescem malandros
- abriu os olhos maldizendo o mundo, o astro -
e sem tempo de contemplação.

Este tempo é
– parecia febre, mas era admiração
o que sentia o astron -

dado às meninas desde que recebem a primeira boneca
e observam os meninos jogando bola agressivamente,
enquanto brincam mansamente de
boneca e casinha e fogão e roupinha e
–saí da nave ou entrei na nave?, disse o astrona -
tudo aquilo que tem silêncio o suficiente
para aprenderem a vida interna da enganação.

A malandragem é somente
– ele entende seus movimentos,
não suas palavras, o astronau -

a vida externa da enganação,
porém são as meninas que desenvolvem dissimulação
por meio de bonecas e olhos de silêncio.

- ele vem do céu para nos redimir,
o astronaut –


Contudo, até uma mesma etapa da
existência, meninos e meninas têm
os olhos sequëstrados pelo mesmo casulo:
- O astronauta!
(Este ser que vive anos-luz
distante dos jogos e dos bonecos
em sua longevidade sem sexo)


(texto e desenho: Chuí)

domingo, agosto 10, 2008

Hasta el Fin


(Amigos, faço o retorno ao meu estimado espaço virtual com um desenho, uma história e uma canção)

Dias atrás, após uma canja danada de boa - como diriam os mineiros - com The Caviars e o bluesmaster Danny Vincent, ele me contou que afinal se redescobria na guitarra, atravessando madrugadas em sua verve; e que tocava agora mais intensamente do que jamais em sua vida. Na conversa a seguir com ele e Dr. Hamer, lembrei-me de uma frase que não soube dizer a autoria, mas que devo ter ouvido em algum filme ou devo ter inventado esse filme em minha memória para poder dizer essa frase.

- Só tem um jeito bom na vida de fazer
não importa a coisa que você queira: Até o fim.

Dannito entendeu, seus olhos entenderam. Resolvemos que começaríamos a pensar um show que unisse nossas origens e nosso blues. No dia seguinte, uma canção saltou diante de mim.
E, ineditamente, em espanhol. Será uma série de canções em espanhol, ligando minha canção às origens de Danny ao blues e à canção latina.
Abaixo vai a letra (aos que, por ventura, não puderem compreender, posso enviar-lhes uma tradução):

Hasta el fin

No creo, tú sabes, en nombres y cifras
Si estos no habitan las calles del sueño
La vida decide el destino a los ojos
Pero solo tú mirarás su diseño

Miré tus ojitos de espasmo, miré
tus manos de augurio y lo comprendí
Despiertas ahora di tantas palabras
Calumnias de caos disfrazadas de ti

Despierta ahora, mi niño
Despierta de tanta civilización
Aunque me descubras triste
Aunque me sepas ficción
Solo hay una manera buena en la vida
de hacer no importa la cosa que quieras
Hasta el fin, mi hermano
Hasta el fin, mi amor, Hasta el fin


No creo, tú sabes, en armas de fuego
Mi arma es el arte, es nuestra aventura
La guerra decide el destino a los ojos
Pero solo tú mirarás la pintura

Quizás caminando sin dueño y sin patria
Cual perro ofertando cariños al viento
Crecer tan leve como un pajarito
Despuntar tan alto como un pensamiento

Despierta ahora, mi niño
Despierta de tanta civilización
Aunque me descubras triste
Aunque me sepas ficción
Solo hay una manera buena en la vida
de hacer no importa la cosa que quieras
Hasta el fin, mi hermano
Hasta el fin, mi amor, Hasta el fin



Obs: gracias a Marianita pela correção do espanhol
(desenho e texto: Chuí)

segunda-feira, julho 21, 2008

DOM DO CIÚME - Show no SESC Pinheiros nesta sexta!



Amigos,
Nesta quinta, dia 24 de julho, convido a todos para celebrarmos Machado de Assis em novos meios. É às 20hs no Sesc Pinheiros, que fica na rua Paes Leme, 195.
Concepção da cantora Mona Gadelha, o show é uma interpretação musical de Dom Casmurro de Machado de Assis. O poeta Fabrício Carpinejar fará declamações e eu e Mona Gadelha - acompanhados do pianista Anderson Toledo - cantaremos músicas minhas, de Lupiscínio Rodrigues, Roberto Carlos, Chico Buarque entre outros que leram, em forma de canção, o tema ciúme.
Após a música, haverá um debate sobre o tema com Carpinejar e o escritor Luiz Ruffato. Durante a conversa, realizarei desenhos em nanquim projetados ao vivo em um telão.
Venham! Aposto que os que não vierem vão ficar com ciúmes...
Beijos a todos,
Chuí
(Sesc Pinheiros: rua Paes Leme, 195 - Pinheiros - São Paulo - SP
telefone: 11 3095-9400 - Dia 24 de julho de 2008 - 20h)

sexta-feira, julho 04, 2008

SAMBLUES! - Quarta, 9 de julho


Amigos,

O Blog está pouco ativo, dadas as mil coisas da vida ( retomarei-o muito em breve), mas o Samblues é aquele que tarda mas não vaia. Eu e Guapponi com novas e velhas versões de sambas regados ao nosso acento de blues paulistano. Como sempre Guimets na guitarra quebrando tudo, menos a poesia.
É nesta quarta-feira, dia 9 de julho de 2008 no bom e velho SYNDIKAT Jazzclub & Bar. Fica ainda na Rua Moacir Piza, 64 - Cerq. Cesar/Jardins.
Para reservas, é preciso ligar no telefone 3086-3037 (www.syndikat.com.br/html/reserva.html)
Espero muito tê-los por perto em mais esta celebração.

Beijos a todos,

Chuí

domingo, maio 25, 2008

Perfeição

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Há, na história humana,
quem já tenha almejado um mundo perfeito.
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Outros tantos têm menos ambição:
desejam apenas um corpo perfeito,
um emprego perfeito
ou um amor perfeito.
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Mas há uma triste distorção desta idéia: a perfeição.
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Costumamos tratá-la como algo a se perseguir e se conquistar -
algo como uma ilha que, se alcançada por nossas caravelas,
nos redimiria de nossa miséria e de nosso tédio.
Algo a se copiar de capas de revistas
e de propagandas de TV, como se o vazio
de uma imagem manipulada pudesse preencher
o vazio de nossas almas neuróticas.
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Mas a perfeição não se aponta aos olhos de alguém:
revela-se no convívio. Porque perfeição
pertence ao terreno da ética - não da ótica.
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Jamais segrega: une.
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É que a perfeição jamais se doutrina: é uma descoberta
de nossos corpos no espaço. Porque perfeição
pertence ao terreno da estética - jamais da estática.
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Jamais corrige: ilumina.
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Mais próximo da luz do fogo e do desenho da água
do que da fusão de uma liga metálica, a perfeição
é mais a dança que nos revela
do que a engenharia que nos constrói -
não é nunca um círculo perfeito, senão uma forma
que se nos encaixa por um segundo.
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Porque a perfeição é do campo do instante.
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Filmes e livros e preces em lugares de aconchego.
Jantares regados de risos com bons amigos.
Uma velha canção no rádio invadindo a madrugada.
Sexo com quem se ama.
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A visão do sorriso de um bebê.
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Perfeição é a alegria que não ignora a dor.
Bem mais próxima do prazer
do que da felicidade -
esse sonho de consumo.
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A perfeição não é um ponto de vista,
é um ponto de partida. Sem ela, só há cinismo.
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Porque utopia não deveria ser um desejo,
mas um princípio.
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(texto e desenho: Chuí)

sábado, maio 10, 2008

Pocket Show no Clube Caiubi

Amigos,

Segunda agora, às 21:30, farei um pocket show no Clube Caiubi, que acontece agora no novo Villagio Café - na Rua Teodoro Sampaio, 1229.
O ClubeCaiubi existe já há alguns anos com mostras de diversos cancionistas novos e veteranos que encontram ali espaço para diálogo e arte em celebrações de amizade e admiração.
Apresentarei-me ao lado do Guapponi, fiel guardião, e tocarei músicas novas que pretendo gravar no CD novo. Logo após, vários compositores se alternarão no palco cantando suas próprias composições.
Será muito bom tê-los por lá!
Um grande abraço,

Chuí

domingo, abril 27, 2008

Lapidarium

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É na contra-luz que uma faca vem nos cortar.
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São gestos afiados, rápidos
como a visão do nosso reflexo na lâmina.
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Não lhe mostram de imediato a dor, tampouco o sangue.
E um oceano lhe invade a conta-gotas.
Parece violência.
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Mas é escultura.
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(texto e desenho: Chuí)

SAMBLUES! - SEXTA, DIA 02



Amigos,

Cá estamos outra vez, eu e meus guardiões Guapponi e Guimmets, em mais um ritual do Samblues.

Aos que ficam na cidade feriada, será nesta sexta, dia 02 de maio, às 22:oohs.

Novamente no charmoso Syndikat, nos jardins, Rua Moacir Pisa, 64 (vejam o convite acima).

Novas e velhas versões novas para clássicos do samba traduzidos ao idioma do blues e do jazz.

Será muito bom vê-los por lá novamente ou pela primeira vez!

Beijos a todos,



Chuí

sábado, abril 19, 2008

Mulher de Costas

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Que mentira seria descrever seus ombros.
Seus mapas, omoplatas, dobras de cócegas -
Paz e rubor.
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Que perda de tempo seria narrar o desenho doido
que trazem as tortuosidades da sua coluna cervical
às minhas digitais encabuladas.
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Tamanha falsidade seria então
traduzir suas margens
em teses de estética e anatomia.
Nada mais distante de você
do que uma tese.
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Meias verdades, talvez,
não nego uma porção considerável delas,
mas todas justificadas:
um plano para seduzi-la
onde tudo em volta se resume
àquilo que não foi dito.
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É como poesia e carne.
Um verso
pedindo que me mostre o outro.
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(texto e desenho: Chuí)

domingo, abril 06, 2008

Entrevista no site Ritmo Melodia



Amigos,

RitmoMelodia é um site que discute e divulga a música independente no país.

Nesta entrevista, conversamos sobre meu processo e sobre minhas percepções sobre a música popular contemporânea.

Convido a todos para entrarem e lerem:
http://www.ritmomelodia.mus.br/

beijos a todos,

Chuí
(foto: Vinícius Fênix)

Rufus e a caveira Luciel


- Já é noite, meu caro - murmura Rufus, o velho fauno gordo, a Luciel, sua caveira e amiga imaginária - Não há mais como negar: a vida me foi ingrata.
- Mas a vida não existe fora de você, Rufus. Porque personificas teu próprio fracasso?
- Cala-te, Luciel, Não me importa tua filosofia barata! - exalta-se o fauno - sabes bem que, da vida, eu tive apenas a ingratidão!!!
- Não posso deixar de dizer que isto é uma baixeza da tua parte, caro amigo.
- Como ousas dizer isso, tu que não passas de uma caveira rachada de novilho?
- Sim, é exatamente o que sou, mas isto não te redime da verdade que trago agora à tua vista.
- Do que falas, ó ignóbil ossada?
- Percebe, Rufus, que enquanto o sentimento de gratidão revela humildade, o sentimento de ingratidão revela vaidade. Gratidão se refere a nós quando aprendemos a viver. E ingratidão se refere ao outro que nos deveria a vida.
- Não tens compaixão? Dizes que sou vaidoso no momento em que sofro?
- Sim, pois a gratidão faz o desejo da homenagem. E a ingratidão faz o rabisco da dívida.
Enquanto sentir gratidão é estar vivo, sentir ingratidão é morrer em pílulas.
- Tu me entornas a traição em forma de retórica, Luciel...Tu és quem não possui gratidão! Tu és quem deveria morrer!
- Amo-te, Rufus. E é disto que se trata a gratidão, uma carta de amor. Ingratidão, por outro lado, é uma via bancária. Enquanto sentir gratidão é uma forma de coragem, sentir a ingratidão é covardia.
- Tomas-me por covarde? Covarde? A mim, a quem tu deves a existência?
- Rufus, é exatamente o que quero dizer. Ninguém deve nada a ninguém. Pois é certo sentir-se grato. Mas não é errado não sentir-se.
Rufus esmaga o crânio do novilho com toda sua força até que seus pedaços de osso se esmigalham e escapam por entre seus dedos na forma de areia e minúsculas pedrinhas caindo e afundando sobre o pântano lodoso.
Antes de deixar o palco, Rufus se dirige ao público pagante nas primeiras fileiras e proclama, quase em um sussurro irônico:
- Quem diz a verdade deve estar disposto a pagar seu preço. E, verdade ou não, ela não passava de uma caveira.
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(texto e desenho: Chuí)