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sexta-feira, março 30, 2007

Mandacaru no SESC Pinheiros


Dia 11 é a estréia do show Nunca Vi Mandacaru no SESC!
Além da banda preciosa, formada por Guima (guitarra), Igor Pimenta(contrabaixo) e Humberto Zigler(Bateria), também haverá uma prévia do SAMBLUES, show de releitura de sambas antigos em versão Blues com a participação especialíssima de Guappo na gaita encantada e Bruno Sciuto na percussão de ouro.
Mais detalhes no convite em anexo ou no site www.fernandochui.com.br/.
Será uma data muito especial para o caminho do Mandacaru de Pedra. Adorarei vê-los por lá!
Mil beijos e abraços,
Fernando Chuí

segunda-feira, março 26, 2007

A Ave


No lugar onde eu entrei
havia uma belíssima ave.
Seus olhos eram duros e brilhantes como cobalto.
Era negra, sem plumas, sem penas,
Sem bico, sem vértebras.
Tinha asas transparentes, mas estava parada.
Era pequena e sua casca fosca
se fundia ao tronco
curvada em meio às suas dobras.
Quem olhasse a paisagem veria as folhas das árvores
prateadas pela luz da lua.
Perderia esta visão, de longe, muito mais majestosa.

Alguns talvez quisessem dar a ela outro nome, gênero ou classificação,
dada a taxionomia patológica que nos assola as idéias e os nervos.
Talvez a chamassem de inseto, quiçá bichinho ou coisa do gênero.

Mas o que eu vi,
sem sombra de dúvidas,
era uma magnífica ave.


(desenho extraído de "Indecifrável" de Chuí - work in progress)

segunda-feira, março 19, 2007

O Sol Negro


Diante dos boatos,
uma sombra avançou pela comunidade.
..
Camadas e camadas de sombra,
penetrando em nossas veias e signos,
entintando o céu e os outdoors
com a força de uma estrela vingativa.
Cartas cheias de tristezas
se aproximavam na velocidade do medo.
Cada cenário era promessa de um crime hediondo.
O fim era uma carta promissória extraviada e inegável.
Sob a peste ou a religião do breu,
cultivávamos o pavor
como se observássemos atentos
aos nossos filhos assassinos
a crescer sob os semáforos.
Eu me lembro de ter corrido o mais rápido que pude.
Lembro-me das minhas lágrimas de nanquim
logo pisadas pelos pés descalços de meus irmãos em fuga,
depois também pisados por outros irmãos em fuga.
Celebridades iam a público revelar suas moléstias graves.
Astrólogos faziam maus presságios na TV.
Escolas de samba mudavam de ramo.
Intelectuais pediam sangue nos jornais.
Cada segundo tornava-se lâmina.
Cada silêncio tornava-se espelho.
Toda mão era punho.
Todo metal era espada.
Todo pensamento, tóxico.
...
E quando todos esperavam a hecatombe negra,
Foi sob a forma da luz
.......................somente a luz
...................................como sempre a luz
..
.........................................................a nos lançar à escuridão.
...
...........
(imagem: desenho de Chuí)

quarta-feira, março 14, 2007

Cinema


Eu....sempre ...quis
....
..........f......a....z...e..r .............c..i...n....e......m.......a
...
....
....M..a..s .........j..á......... s..o..u.........f..e..l..i..z

........
....

S..............e ..............P..............o.............e.............m.............a

....

....

(Imagem: ¥ conversa com Dr. Hamgster em Indecifraveu de Chuí - work in progress)

sábado, março 03, 2007

As Caixas


O artista não cabe em uma caixa.

Mas como saber onde ele se encaixa
se é dentro de caixas que ele é vendido?
Reluta, transgride, por fim concorda
(seu coração sempre transborda).
O artista se esforça a caber na caixa,
pois há no planeta uma legenda:
"Quem mora aqui e não está à venda
não tira a venda de si".
E faz do diabo um retrato belo.
E faz-se refúgio ou fugitivo.
E faz, na ferida do mundo,
um mágico lenitivo.

E nesse momento de desilusão,
ele reencontra o seu lugar.

Mas o mundo é o mundo
porque dá voltas.
Se ultrapassa e se reinventa.
Que ironia, o artista
que antes não se encaixotava
por um princípio, um ideal,
agora não entra mais nessa feira
pois lhe comprar já não há quem queira.
O mesmo artista retorna agora
ao posto antigo, marginal,
arquitetando suas novas caixas
pra se vender essencial.
O infeliz não está à venda,
mas se desdobra a ser comprado.

E nesse momento de extravio,
ele reencontra o seu lugar.

Produz agora porque precisa.
Produz da lógica a revelia.
Produz, à noite, um outro dia.
E se expõe novamente a revoluções.
Vive a sonhar-se em muitas caixas
bem bonitas, aos borbotões.
No ar, na madeira, no aço
ou no cyberespaço
Lança as caixas ao vão
feito bumerangue.
Quer distribuir,
autógrafos em cada uma delas,
com seu próprio sangue.

E nesse momento de ilusão,
ele reencontra o seu lugar.


(Ilustração de "Indecifraveu" de Chuí - work in progress)

domingo, fevereiro 25, 2007

Enigma


Quem és tu
.........que por mim ainda não te apaixonaste?
Que mistérios escondes
.............................da tua própria loucura?
Não vês que o abismo
é menos aterrador
...........................quando olhas de dentro dele?
...
Quem sabe te traio contigo mesmo
......................................................todos os dias.
No entanto, onde estão teus ferrões
...............................que não me apontam verdades?
Não sabes o que és?
.................................Finge o que não és, então.
...
Decifra-te agora
...
.......................ou Devoro-me


(imagem: desenho extraído da novela gráfica "Indecifraveu" de Chuí - work in progress)

segunda-feira, fevereiro 19, 2007

Fauna V


Não há bons aparelhos para distinguir
a máquina que age
da máquina que sente
HiperespaçoImatériaPusSaliva
BactériaTelaDiscoLinguaDente
...
Que peça de ilusão é um robô?
...
RenovaçãoProgramadaMatemática
EmoçãoFervilhaQualMecatrônica
CabeçaTroncoMembranaCoração
WinchesterPóDisfunçãoBiônica
...
Que peça de ilusão é um robô?
...
OPassadoÉUmaMiragem
FreqüênciaRuídoSinfonia
EternoSomInconstante
Arma de fogoPalavra d'água
PulsãoDe1SóInstante
...
Que peça de ilusão é um robô?
...
ProgramaDesenhoPlanoDelírioLuz
PigmentoMetálicoCor da pele
Interface do InvisívelFoco
Lente de aumentoHTML
...
Que peça de ilusão é um robô?
....
CybermulticelularSangueOsso
GeometriaVeiaArtériaImãMola
Não há bons aparelhos para distinguir
a máquina que corta
da máquina que cola
...
Que peça de ilusão é um robô?
...
...
(ilustração de Fernando Chuí & Marcia Tiburi)

quinta-feira, fevereiro 15, 2007

Fauna IV


Noite de mim, espelho d'água
Algo cintila o oco entre as cores

..................... Espreita-se como uma pichação que andasse

Por cada muro da cidade
Só quer se sentir
......................................compartilhado

Caminha mirando a lua
como se andasse a lambê-la
......................................tina de leite

De dentro do labirinto
Mira o olho o horizonte
Apenas sente
.......................................aquilo que mente

Inveja a morte que é minha
Porque nem morte se chama
Como ela também é negro
........................................também é silêncio
........................................também tem charme
........................................também chama


O que me olha de dentro do

rio

.........................................é um gato


(ilustração: Fernando Chuí & Marcia Tiburi)

sábado, fevereiro 10, 2007

Fauna III


...........Apesar da neblina espessa
......................................aumentou a velocidade
Ainda que totalmente cego
..........................não recuou um só segundo
...........Desacreditado
...........................motivo do riso alheio

.......................................sorriu de volta ao mundo


Nu como o fogo
...............Cercado de toda casta de riscos

............................... .......tremeu os lábios

..............................................................não as pernas


...........Sem nenhum medo da morte
...........................aterrorizado apenas pelo fim
.......................................................................................jogou-se


..........Mesmo sabendo-se tragédia

............................................ele se escreveu

....................................fundo
............................................na carne do tempo

.................Foi dessa forma

................................... .........que o amor

............................................ ......................tornou-se mítico




(ilustração de Fernando Chuí & Marcia Tiburi)

quarta-feira, fevereiro 07, 2007

Fauna II


Numcarécimioiáassimcunmêdu,não,fio.
...
Entriazúnheunãoguárdusujêrinemrancôr.
Minhacúcamórdiquinemcóbrapeçonhenta,
maipreférisêorganizadôdidéia.
Eusôtodugrândi
sóquimuuuuuitchomenórquiumeuispíritu,sabis?
...
Intonciécumeudíssi,minínu:
Numcarécimioiáassimcunmêdu,não.
.
Maissiquisé
tamémnumtempobrêma.
...
Umêdu
..
édusmális
...
umió.
..
.
(ilustração de Fernando Chuí e Marcia Tiburi)

sexta-feira, fevereiro 02, 2007

Fauna I


Que espécie de anjo vence o jogo?
Qual demônio habita meus troféus?
Que veneno corre em minhas veias?
Que remédio dele eu fabriquei?

Que caminho eu mesmo que tracei?
Quais escolhas tenho diante dele?
Que veneno corre em minhas veias?
Que remédio dele eu fabriquei?

Quantas torções, quedas, convulsões?
Quantas se assemelham a uma dança?
Que veneno corre em minhas veias?
Que remédio dele eu fabriquei?

Quais segredos tristes eu exibo?
Quantas asas, rabos, guampas, presas?
Que veneno corre em minhas veias?
Que remédio dele eu fabriquei?

Quantos degraus subo por conquista?
Que rostos adornam meu fracasso?
Que veneno corre em minhas veias?
Que remédio dele eu fabriquei?

Que indústria me dá mais prazer?
Que vil solidão eu compartilho?
Que veneno corre em minhas veias?
Que remédio dele eu fabriquei?

Que ancião se ampara no menino?
Que dor nos revela ao destino?
Que veneno corre em minhas veias?
Que remédio dele eu fabriquei?

Qual festa coroou o escravo?
Que poder escravizou o rei?
Que veneno corre em minhas veias?
Que remédio dele eu fabriquei?

Quais visões, desenhos, canções, versos?
Quais vão diferir abismo e cura?
Que veneno corre em minhas veias?
Que remédio dele eu fabriquei?

Que espécie de anjo me seduz?
Qual demônio vem me resgatar?
Que veneno corre em minhas veias?
Que remédio dele eu fabriquei?


(Fauna I - ilustração de Fernando Chuí e Márcia Tiburi)

quarta-feira, janeiro 31, 2007

Wow, The Dirty Darling! - Crônica de uma Banda de Garagem V


O Amor nos tempos do DD
Epígrafe de Batatinha
..
Amor
Não é questão de rima
É questão de sina
Acabar em dor
..
Bigatto
(hoje casado e feliz
com suas 7 filhas, aos 43 anos )


Naqueles tempos de colégio, não me lembro de ouvir a palavra amor nenhuma vez entre os integrantes do DD.
...
Parecia pra nós coisa do Phil Collins ou dos trocadilhos dos Engenheiros do Havaí.
Fizemos a canção-homenagem "A Metáfora Mortífera" a eles cujo refrão era "Nem tudo que reluz é ouro/ mas tudo que seduz é louro".
...
Depois de um cover dos Beatles que dizia "I´m so glad that she´s my little girl", Mamel disse, com seu forte sotaque de Mamel, que não tinha vontade de tocar aquilo novamente:
- Eu não estou tão feliz e muito menos tenho nenhuma little girl.
...
Amor era nosso tema fantasma ou fantasmagórico.
Tínhamos tanto pavor do amor que só falávamos de sexo.
Infantes selvagens pensando que pérolas eram pra jogar bolinha de gude.
...
Fazíamos canções em inglês sobre a dor de corno.
The fool era uma canção sobre o homem traído.
Girl era a canção de um homem com raiva de ter sido traído.
If you were mine era sobre um homem traído por uma mulher morta.
Pensávamos que ser um chifrudo rock'n'roll era mais bacana. Sofre, mas parece rir com o diabo.
...
Fazíamos canções em inglês sobre a dor de corno.
Tudo a ver, ninguém entendia mesmo o que era isso naquela época.
...
A frase do Bigatto é verídica.
- Meu epitáfio: Aqui jaz um homem que mais fez rir do que fez amor.
...
Ok, antes de sairmos do colégio, o Bigatto arranjou uma namorada.
Eu, por minha vez, fui a Tropical city. Mamel também foi.
Dissemos a todos que visitaríamos um museu.
...
No colégio, não me lembro de ouvir a palavra amor nenhuma vez entre os integrantes do DD. Ainda me pergunto onde o amor andaria nesta época.
Talvez estivesse escondido dentro de nossas acnes, pronto pra explodir e ser um rabisco no espelho.
...

domingo, janeiro 28, 2007

Genealogia de um Sorriso


Existe um gesto raro em mim: o sorriso.
Meu sorriso é realmente difícil. Não aprendi a sorrir como "oi", nem mesmo como um simples "boa tarde". Sinto meus músculos faciais desacostumados ou mesmo atrofiados ante a tal esforço. Nada pessoal ou blasé, sorrio pouco até para minha família, meus amigos próximos, meus colegas. E não é uma carranca ou problema algum com o riso. Muito pelo contrário, no exagero sou bom, rio das piadas mais infâmes, leio as cenas à minha volta buscando o lúdico, dou risadinhas, desperdiço gargalhadas.
Mas o sorriso, o que nos traz simpatia e graça, este eu não desenvolvi.
Talvez seja reflexo de um histórico de timidez. Possivelmente, influência de minha ascendência oriental. Contudo, retrocedendo na genealogia da minha moral, creio que, inconscientemente, acabei me condicionando desde a adolescência a pensar que sorrir é coisa de gente falsa, manipuladora ou superficial. Quiçá tenha aprendido com os filmes dos"tough guys" interpretados por Clint Eastwood e Marlon Brando que o sorriso deve ser apenas um instrumento da ironia.
Certo dia, assistindo a um outro gênero, vi um comerciante árabe interpretado por Omar Shariff dizendo a um garoto judeu que este deveria aprender a sorrir, com o que o guri respondeu "eu não sorrio porque não sou feliz, você sempre tem dinheiro na caixa, por isto sorri". O árabe citou o Torá e retrucou que seu lucro ali era pífio, e que as pessoas não sorriam por estarem felizes, mas era o sorriso em si que produzia a felicidade. Pensei que gostaria de ter visto esse filme há quinze anos, quando ainda havia salvação para minhas bochechas.
Hoje em dia eu me esforço (dentro do possível) nesta ação e admiro as pessoas sorridentes, invejo-as, sou um grande fã de sorrisos. Acompanho-os nos filmes, passo em slow motion no DVD. Percebo suas nuances, suas modalidades, estilos, níveis e as próprias variações pessoais de cada sorriso (umas cinco ou seis em cada pessoa, aproximadamente), bebo dos detalhes (infinitos), fixo meu olhar nas covinhas, nas rugas, nas dobras mais intimamente sutis de cada rosto alegre que se me apresenta.
Percebo o sorriso da boca quieta, degusto especialmente daquele que vem sob a forma de um brilho no olhar. Desta forma, aprendi com os tempos a identificar o meu próprio sorriso malocado no canto da boca e nos olhos; o pior é que eu descobri, tolo, que ele chega a ser evidente pra quem me vê.
Sou fácil de conquistar, basta sorrir para mim - talvez eu não saiba retribuir, mas certamente já estou ganho. Continuo repudiando o cinismo, a superficialidade e a falsidade da faces dos imbecis, mas agora virei um expert em matéria de sorrisos. Separo o joio do trigo.
E sigo, macambúzio.


(desenho: estudo para Graphic Novel de Chuí)

quarta-feira, janeiro 24, 2007

O que existe


Não existe a justiça. O que existe é a flor.
Não existe a justiça. O que existe é a raiva.
Não existe a justiça. O que existe é o sorriso da criança.
Não existe a justiça. O que existe é o corpo no chão.
Não existe a justiça. O que existe é o planeta em rotação.
Não existe a justiça. O que existe é o rastro de sangue.
Não existe a justiça. O que existe é a dor.
Não existe a justiça. O que existe é a literatura.
Não existe a justiça. O que existe é o sexo.
Não existe a justiça. O que existe é a solidão.
Não existe a justiça. O que existe é a morte.
Não existe a justiça. O que existe é o compromisso.
Não existe a justiça. O que existe é a fome.
Não existe a justiça. O que existe é o mato crescendo.
Não existe a justiça. O que existe é o mato queimando.
Não existe a justiça. O que existe é a bolsa de valores.
Não existe a justiça. O que existe é a depressão.
Não existe a justiça. O que existe é a casa grande.
Não existe a justiça. O que existe é a senzala.
Não existe a justiça. O que existe é o céu.
Não existe a justiça. O que existe é o fosso.
Não existe a justiça. O que existe é o rio.
Não existe a justiça. O que existe é o afogado.
Não existe a justiça. O que existe é o coma profundo.
Não existe a justiça. O que existe é o parto sem fim.
Não existe a justiça. O que existe é o desejo.
Não existe a justiça. O que existe é a revolução.
Não existe a justiça. O que existe é a história engavetada.
Não existe a justiça. O que existe é o conceito inacabado.
Não existe a justiça.
O que existe, dentro e fora da ficção,
é a luta pela justiça.

(texto e desenho de Chuí)

segunda-feira, janeiro 22, 2007

O Homem e a Luz


Você está vendo aquela cidade tão bela?
Sua vista iluminada e deslumbrante
esconde uma história cruel.
Será que você já foi até a ponte e viu a lua inacreditável
que submerge pintura impressionista
sobre o rio poluído?
Sobrevoa nesse instante um crime hediondo.
Quem sabe você foi a um monumento ou mirante
e pôde constatar a perfeição da sua arquitetura
em cores brilhantes
do ocre ao verde azulado?
O que se vê é uma mulher sem alma.
Note que, bem à sua frente,
a feiúra desmente os olhos e,
no esgoto que vaza
pelos poros abertos da avenida,
a fome, a solidão, o descaso, a sujeira
e toda a sorte de dores urbanas
diluem em poucos segundos
uma fragrância de lírios orientais.
Ninguém saberá dela.
Todavia, ela é a mágica contra bruxaria.
O mundo se move
e os vinte e cinco milhões de células olfativas que você possui
só percebem esse único odor,
movendo-se no espaço ao redor de si
como uma nave espacial.

(Fiz este desenho hoje. Goya, Miró, Frank Miller, Picasso, Escher, Gaudi e Will Eisner me convenceram que neste ano preciso fazer uma "graphic novel". Desejo um ano pleno de alegria, saúde, serenidade e coragem a todos que embarcaram nesta nave ou nau chamada 2007...)

quarta-feira, dezembro 27, 2006

Meus votos para 2007


Na fome
Degustação
No desejo
Carícia

Que seja devorar
o exercício da língua

É preciso saber beber
daquilo que mais nos revele
O maior órgão do corpo
é a pele

(Este é o último post do ano.
Viajo e retomarei aqui no final de janeiro.
Desejo a todos que vierem a visitar este espaço neste intervalo
muitas flores e frutos no ano de 2007 )

(imagem: Bitcho desenhado por Fernando Chuí e Marcia Tiburi)

quinta-feira, dezembro 21, 2006

Herói é humano


Quando eu era criança eu passava todo o tempo desenhando super-heróis.
Eu fazia assinatura das revistinhas da Marvel e aguardava ansioso pelos gibis SuperaventurasMarvel, Homem-Aranha, Heróis da TV e Hulk, além de comprar na banca de jornal as séries do Batman e do Super-homem.
Para quem não é formado por esta literatura, é preciso explicar de que se trata. É a arte seqüencial, definição do gênio Will Eisner, que flerta com o infantil e com o adulto ao mesmo tempo.
Esteticamente, as HQs de super-heróis também têm algo de paradoxal. Por um lado, elas se propõem a uma seriedade digna de uma Odisséia, e, por outro, apresentam-se com desenhos cheios de balõezinhos que tornam quase impossível a tarefa de se escapar do kitch. Seus desenhistas trabalham as figuras todas em proporções realistas e, não obstante, não conseguem escapar da sua caricatura de nanquim. Com o advento das graphic novels dos anos 80, criou-se uma legenda de que então as HQs finalmente assumiriam seu posto de arte de boa qualidade. Todavia, não acho que a tal qualidade estética da ditas HQs adultas fossem o maior legado das histórias de super-heróis. O cinema, sim, resgatou delas a sua essência, algo como o kitch-cult.
Toda HQ de super-heróis retrabalha, como evidencia o próprio nome, o mito do herói.
Recorro - mais uma vez - a Joseph Campbell que diferenciava as duas figuras públicas: o herói (figura pública antiga); e a celebridade (a figura pública moderna). Enquanto a celebridade se populariza por viver para si mesma, o herói assim se tornava por viver servindo sua comunidade. Todo super-herói deve atravessar alguma via crucis. Gandhi disse que, quanto maior nosso sacrifício, maior será nossa conquista. Como Hércules, como Batman.
Por trabalharem sob uma narrativa progressiva e cíclica, e serem tecnicamente mais ambiciosas do que as outras modalidades de HQs, as histórias de super-heróis se deslocaram de seu meio de revistas e jornais, aproximando-se muito mais das séries de TV e do cinema, mas sem perder seu mito pop. Talvez por isto as melhores coisas que o cinema comercial produz ultimamente sejam as adaptações das HQs de super-heróis.
O cinema nasceu comercial e, a despeito de uma série de diretores que conseguiram desenvolver o chamado cinema de arte, de Bergman e Fellini a Peter Greenaway e Almodóvar, é disto que se trata, uma imensa indústria de entretenimento. Não acho esta definição algo absolutamente depreciativo. Recordo-me de um gibi em que o Surfista Prateado dizia aos seres humanos: "A vida é imensa e complexa - acontece dentro e à margem dela mesma."
Toda HQ traz em si alguma coisa de industrial e marginal, ao mesmo tempo e sob o mesmo aspecto. Os filmes de super-herói, ainda que transpondo essa cultura para a grande e famigerada indústria, realizam uma outra façanha, que provavelmente sem eles não ocorreria: a formação de novas mitologias reafirmando os mesmos ideais heróicos da antigüidade ao homem moderno. Fellini afirmou uma vez que Stan Lee, o criador da Marvel e de diversos heróis populares, era o Homero do quadrinhos.
Toda boa história de super-herói é uma história de exclusão social. Homem-Aranha é um Nerd, Hulk é um monstro amaldiçoado, Demolidor é um deficiente, os X-Men são indivíduos excepcionais, Batman é um órfão, Super-Homem é um alenígena expatriados. São todos símbolos da solidão, da sobrevivência e da abnegação humana.
Não se ama um herói pelos seus poderes, mas pela sua dor. Nossos olhos podem até se voltar a eles por suas habilidades fantásticas, mas é na humanidade que eles crescem dentro do gosto popular.
(Os super-heróis que não sofrem ou simplesmente trabalham para o sistema vigente tendem a se tornar meio babacas, como o Tocha-Humana ou o Capitão América)
O cinema de Hollywood tem a função de nos mostrar até onde alcança o inconsciente coletivo, o topo do lugar-comum, aquilo que a sociedade espera dela mesma (o que, às vezes, nos traz boas surpresas); e os super-heróis, hoje superstars, são mitos oriundos de experiências feitas em laboratórios do submundo, a velha sub-arte das HQs, a santidade surgida do lixo. Hulk e Homem-Aranha são seres que criticam a inconseqüência da ciência, com sua energia atômica e suas experiências genéticas. Os X-Men nos advertem para a educação inclusiva. Super-homem é aquele que mais se aproxima de Jesus Cristo - e por isto talvez seja o mais popular de todos, mais popular do que os Beatles, que um dia disseram serem mais populares que Ele - em seu sacrifício solitário em defesa dos seres humanos, mas também tem algo de Aquiles, com seu calcanhar que é a kriptonita. Humano e super-herói, como Gandhi.
Não houve nenhuma literatura que tenha me marcado mais do que essas histórias em quadrinhos. Eu raramente as leio hoje em dia, mas quando assisto a bons filmes de super-heróis eu me lembro que todos temos um lado ingênuo e bom, que pode ser capaz de suportar a dor da solidão por um princípio.
Eu sempre me enterneço ao ver os X-Men, o Homem-Aranha ou o Super-Homem. Vejo diversas vezes, sei os diálogos. É verdade que há, entre esses filmes, alguns absolutamente lastimáveis; contudo, os filmes de super-heróis são a prova da sobrevivência deste mito em meio ao glamour e a indústria de "celebridades-miojo". Parafraseando o Surfista Prateado (e Deus queira que seja bem retratado nas telas...), é a negação do sistema, trazido dentro e à margem de sua grande indústria.
Tenho a raiva do Hulk, o mau-humor do Wolverine, a solidão do Super-Homem. Temos a tendência a atribuir nossos erros e defeitos à humanidade que nos comporta.
No entanto, vejo esses filmes e lembro-me que, ainda hoje, herói é humano.

(foto: desenho feito sobre quadro negro na sala do Menezes, meu pai; à frente, nós- 1987)

sexta-feira, dezembro 15, 2006

Auto-retrato

Quem quiser me conhecer
Que venha como um turbilhão
Metralhadora, bala de canhão
Sonho, tempestade, vulcão
Epidemia, lambida de cão

Só não estranhe
os meus olhos de assombro
Só não recue
quando eu me esconder num manto

Eu terei a vida inteira
para lhe retribuir o espanto


(imagem: auto-retrato de Chuí, 1997)