Segunda-feira, Julho 06, 2009

Michael Jackson Dança Desenho*





Parece música, mas é mais dança. Desenho.
Você pensa que é uma voz,
mas é só respiração.
Um lance de dúvidas. Um contrário de mágoa.

Mágica.

E pessoas ainda acreditam
que poderão acessar a mágica
consumindo mágica.
Nas TVs, nas revistas, no cinema.
Por isso as pessoas se entorpecem imitam
compram rezam vendem fumam trepam.
Por isso se vestem de formas diferentes,
se despem de padrões, se vestem de padrões.
Por causa da mágica.

Só que mágica não pode ser consumida.
Precisa ser reinventada.

Por isso se inventa um gesto.
E maior do que o dono do gesto é o gesto.
O traço, a voz, o passo, meu Deus que passo mais doido,
um desenho ou um milhão deles, pra onde eles vão agora?
Mágica que não é truque. Mas é.
Não é técnica. Mas talvez seja.

Por isso inventa-se a pessoa capaz de se inventar a si própria.
E uma criança disléxica se torna poeta.
E um feio se torna lindo.
E um cigano sem dedos se torna mestre da guitarra.
E um publicitário vira escritor maldito.
E uma verdade recebe o nome de milagre.

Por isso uma pessoa tinge a própria pele de outra cor.

E quando desejo engole destino, não é melhor nem pior,
se você não souber ver o que é mágica.
Porque até hoje nada que fez sentido neste mundo
se fez sem mágica.

Por isso um corpo se nega a si próprio
e se oferece ao resto do mundo.
Por isso se nega política dívida idade.

Nada mais figurativo e nada mais abstrato.

Michael Jackson

Dança

Desenho

Pois inventa-se um corpo maior, muito maior,
imensamente maior do que a vida e a morte
do dono do corpo.



*título em referência ao livro de Paul Valéry "Degas Dança Desenho".
(texto e 4 estudos de Michael Jackson de Chuí - clique nas imagens para ampliar)

Quinta-feira, Junho 25, 2009

Amanhã no Syndikat - The Mambo Django III


Amigos,
Eu sei, eu sei, super em cima da hora e tudo, mas não deixo de convidá-los para mais uma noite de raízes do jazz no bar Syndikat.
Eu, Guapponi e o requinte de Guima Maximiano, em um trio de violões e gaita em homenagem ao energético e acústico jazz cigano. O convite está acima, é só clicar sobre a imagem onde se pode ver as informações.
O desenho eu fiz agora, ao som de nosso mestre absoluto, D. R.
Venham!
Beijos a todos,
Chuí

Segunda-feira, Junho 15, 2009

Domingo no SESC POMPÉIA - Chuí & Mona Gadelha interpretando Rimbaud e Serge Gainsbourg


Amigos,
Neste Domingo, para o ciclo de comemorações do ano Brasil-França do SESC Pompéia, eu e a cantora Mona Gadelha faremos o espetáculo "Les Enfants Terribles" - produção da BrazilBizz -, interpretando poemas de Rimbaud e canções de Serge Gainsbourg.
Idealizado por Mona, este projeto une dois grandes símbolos da cultura francesa.
Arthur Rimbaud foi o poeta simbolista do século XIX que escreveu sua obra iconoclasta até os 19 anos, influenciando toda a poesia do século XX, além de grandes escritores como Charles Baudelaire e Henry Miller. Recebeu a alcunha de Le Enfant Terrible.
Serge Gainsbourg foi provavelmente a maior estrela da música pop francesa. Compositor boêmio, irreverente e eclético, Gainsburg também foi ator e cineasta. Sua canção mais famosa "Je T'aime Mois Non Plus" se tornou a maior referência da canção erótica internacional, porém sua obra tem também muita influência do rock e do rhythym and blues.
O poeta Paulo Leminski escreveu certa vez que, se fosse vivo hoje, Rimbaud seria músico de rock. Se vivos, Gainsbourge e Rimbaud seriam provavelmente amigos, quiçá parceiros de canções.
Mona Gadelha e eu faremos, através de nossas vozes, a experiência deste encontro de linguagens no próximo dia 21 de junho, na Choperia do SESC Pompéia (veja endereço no convite acima - clique na imagem para ampliar). Estarei no violão e conosco, Guappo na gaita e violão, e VJ Mrs. nas projeções de imagens.
Venham!
Beijos a todos,
Chuí

Quarta-feira, Maio 13, 2009

Nervos de Aço! - Chuí & Carpinejar no SESC Pompéia


Amigos,
Eu e meu querido parceiro de invenções, o poeta gaúcho Fabrício Carpinejar, faremos neste domingo mais um encontro de linguagens.
Mesclando de maneira bem humorada a canção e a poesia, trataremos da delicada questão dos encontros e desencontros do homem moderno no campo do amor.
Crônicas e poesias Carpinejar, canções minhas e versões improváveis de músicas de Lupiscínio Rodrigues, Péricles Cavalcante e Amado Batista rechearão a apresentação.
Estarei ali munido de voz e violão. Carpinejar virá com sua imprevisibilidade inadiável.
Será às 18hs no SESC Pompéia, que fica na Rua Clélia, 93.
Espero que possam vir para presenciar esta nossa confissão.
Beijos a todos,
Chuí

Segunda-feira, Maio 04, 2009

Nesta quarta: The Mambo Django - Vol. II



Convido a todos novamente ao Mambo Django. Nesta quarta-feira, eu e Guapponi - violões, vozes e gaita -seguimos em nosso novo projeto de interpretação de temas de Jazz dos anos 30 e 40 homenageando o jazz cigano. Teremos a participação guitarrística de Guima Maximiano, músico experiente e amigo de longa data, do jovem talentoso George Willian e do meu mestre do blues Danny Vincent.
Ou seja, vai ser bom esse trem...
Beijos a todos,
Chuí
(endereço no convite acima - clique para ampliar)

Segunda-feira, Abril 20, 2009

Nesta Quinta: The Mambo Django



Olá!
Nesta quinta, dia 23 de abril às 22hs, o projeto Samblues apresenta uma versão mais jazzística, em resgate ao estilo criado pelo guitarrista cigano Django Reinhardt na frança dos anos 40.
Menos compositor e mais cantor/guitarrista, apresentarei - ao lado do Guapponi na gaita e violão - temas de jazz dos anos quarenta, alguns blues antigos e ainda, sob a mesma roupagem "djangueira", canções mais recentes.
Apresentando também o jovem guitarrista George William, meu amigo e aluno que há anos se formou comigo na Universidade Livre de Música, nos acompanhando semi-acusticamente.
É lá no Syndikat, Moacir Pisa, 64, Jardins (vejam aqui acima, no convite digital). Venham! Será muito legal revê-los nesta nova mestiçagem musical!
Beijos a todos,
Chuí

Quinta-feira, Março 26, 2009

Pornografia, Identidade, Intimidade


Décadas atrás, o compositor e biólogo Paulo Vanzolini escreveu a canção Praça Clóvis contando a historia de alguém que teve sua carteira roubada junto à foto de uma ex-namorada. “Na Praça Clóvis minha carteira foi batida/ Tinha 25 cruzeiros e o seu retrato/ 25 eu francamente achei barato/ pra me livrar daquele atraso de vida (...)” disse a letra, se eternizando no cancioneiro do samba paulista.
Nesta terça-feira, padeci do mesmo mal em frente a uma praça aqui na Lapa. Um motoqueiro levou meu celular e minha carteira. Tinha tudo dentro dela: RG, CPF, carteira de habilitação, etc.
Neste movimento de reaver minhas documentações, precisei fazer uma busca pela internet para descobrir a melhor maneira de fazer coisas como boletim de ocorrência, pedidos de segunda via, cancelamento de cartões e tudo mais.
Ao abrir uma página pelo Google, havia a notícia de que um vídeo de sexo com uma participante de um reality show havia sido espalhado pela internet. O vídeo estava na memória de uma celular roubado meses antes da notoriedade precária da moça.
Todo este panorama me fez pensar sobre coisas como memória, identidade, intimidade e pornografia.
Meu celular portava fotos da cidade apenas. Pedirei hoje a segunda via de minha identidade. O ladrão ficou com todo meu registro oficial, do dia em que eu nasci até o lugar onde eu voto. Mas o que ele levou não importa realmente, vão-se os anéis. O que importa é o que ele deixou em mim, algo entre raiva, dúvida e medo.
Eu não poderia agora narrar o que eu senti na coisa toda. Aí eu teria que falar do lugar de minha intimidade, e intimidade é tudo aquilo que não pode ser acessado por narrativas, fotografias ou vídeos pessoais.
Intimidade tem a ver com a memória de sentimentos que temos ou que pudemos outrora compartilhar com pessoas. Uma dor, um olhar, um gemido, coisas que só podem ser compreendidas interiormente. A narrativa destes eventos “pornografiza” as experiências. Como homens que traduzem suas aventuras sexuais em detalhes sórdidos aos amigos, para mostrar sua potência masculina de garanhão metropolitano (atire a primeira pedra quem nunca fez estas tolices). No momento em que se transpõe uma experiência a uma narrativa ou a um artefato de consumo, têm-se a pornografia.
Mas a intimidade, esta não será jamais tocada por tais recursos. A intimidade é o que fica em nós.
Não está em um corpo nu, mas no arrepio da pele.
A intimidade não é o fato, mas aquilo que dele me fere.
A intimidade não é o que eu escrevo, mas o que você é capaz de compreender.
A intimidade é o contrário da pornografia.
Não se pode pedir a segunda via de nossa intimidade.
Na Praça Marcelino Bressiani, minha carteira foi batida. Não tinha nenhum dinheiro, nenhum retrato.

(texto e desenho: Chuí)

Domingo, Março 15, 2009

Sobre isso (que vem)


Às vezes vem na forma de um sonho.
Noutras, é somente um calafrio.

Não chega a ser mediado por algum recurso verbal.
Não tem sintática nem pragmática.
Só serve pra confundir a semântica.
Pode nem ser uma imagem clara na mente. Mas você sabe.
No fundo você sabe quando vem.

A medicina chamaria de dor.
Exotéricos diriam que é presságio.
Céticos, que é gastrite, intuição no máximo.

Se fosse impulso, seria elétrico.
Se fosse música, seria dodecafônica.
Se fosse um objeto, seria sirene.

O fato é que vem de diversas formas,
e é sinal de que algo fatalmente
vai virar a sua vida pelo avesso.
Ou pior: que você não vai mais poder virá-la do avesso
(como secretamente você deseja há tantos anos ).

Quando vem, o melhor é olhar de frente.
No olho, engolir as vírgulas.

Senão depois não vai adiantar reparar, refletir, calcular os danos.
Foi-se(ou foice): É o tal leite derramado.

Você pode até fingir que não vê,
que não ouve e nem sente nada.
Você pode ter aprendido a não dar bola pra essas coisas.

Mas é certo, meu caro: não vem à toa.


(Texto e desenho de Chuí - clique na imagem para ampliá-la)

Terça-feira, Março 03, 2009

Nesta Quinta: A Volta do Blues do Samba


Amigos,
Na correria e meio atrasado, aqui vai um convite especial:
O Samblues está de volta nesta quinta no Centro Lírico Literário IX de Novembro. Será a partir das 21:00hs, na Alameda Tietê, 90. É um bar genial que mais parece uma linda casa ou uma casa genial que mais parece um lindo bar. Só por conhecer o lugar já vale a pena...
Eu - Chuí- junto com a gaita mágica de Guappo e a guitarra bluesmaster de Danny Vincent. O blues se une novamente ao samba - legítimos filhos da dor e pais do prazer, como naquela canção sobre a solidão -, revivendo Cartola, Louis Armstrong, Noel, Rufus Thomas, Nelson Cavaquinho, Ray Charles, Adoniran, etc, etc, todos em roupagens novas e sempre diferentes.
Eu confesso que andava com saudades dessas dores lindas.
Espero muito poder tê-los por lá!
Beijos a todos,
Chuí

(ilustração: Chuí - sobre desenho realizado ao vivo no espetáculo Dom do Ciúme)

Local: Centro Lírico Literário IX de Novembro
Alameda Tietê 90 - casa 03
Tel. 3085-8715
centroliricoeliterario@yahoogrupos.com.br

Terça-feira, Fevereiro 03, 2009

O Universo


Lá vem essa gente de bem
inventando poder e lógica
do próprio equívoco.
E o universo conspira somente
a seu próprio favor.
E o que sobra do pensamento,
além do vento?

Academias, carreiras, igrejas,
ali é onde se acolhem;
aos milhares, bilhões, se esgotam.
Depois se movem aos poucos -
ocres, amarelos, verdes
de tanta voz que não têm -
não miram mais sua meta;
olham agora de lado,
qual assassino assustado.
E o que restou ao cinismo,
além do abismo?

E seus mitos, pesquisas e crimes
se realizam, se esquecem.
E como em Jack ou Descartes,
é como se dá:
em partes.
E o que se espera de tanta escrita,
além da tinta?

Os cientistas concordam
que o universo não respeita governos,
nem livros ou religiões.
Ele vem, explode, estaciona -
mesmo quando não se vê uma vaga.
Aqui se faz
- diz o tempo -,
e aqui mesmo se apaga.


(texto e desenho de Chuí - clique na imagem para ampliar)

Terça-feira, Janeiro 27, 2009

O Trem (o ano que veio)


De manhã,
vem um trem
e nos reinaugura
o óbvio.

Ou não será o óbvio
a nos reinaugurar -
logo de manhã -
um trem?


(texto e desenho de Chuí - clique na imagem para ampliar)

Quarta-feira, Dezembro 24, 2008

Beijoculto


Amigos,

Este é o último post deste ano de 2008. E que ano bom.
O CD está concluído, os shows foram ótimos e minha pesquisa sobre o desenho tem me feito crescer muito. E os novos projetos, tantos. Agradeço muito aos amigos que compartilharam deste espaço comigo, e já anseio por novos diálogos e criações.
A vida segue tão bonita quanto terrível. Deixo aqui meus votos de muita coragem, serenidade e saúde para que, neste ano que pousa, possamos mudar algo importante nessa coisa toda sem deixar que essa coisa toda mude algo importante em nós.
Que o novo ano chegue novo como um sorriso e velho como um compadre.
Abaixo um poema de esperança.
Bons rituais a todos!
Fernando Chuí


Beijoculto

Não está dentro.
Nem fora.
É um deslize
nas esquinas do projeto.

Não está além.
Não está implícito.
É um erro lindo
nas entrelinhas do desejo.

Não está visível.
Nem invisível.
É um desvio ritual
por entre as dobras do metal.

Só nós dois sabemos.
Só nós dois podemos.
Estamos salvos.

Pois ali jaz um beijo.



(texto e desenho de Chuí/clique na imagem para ampliá-la)

Segunda-feira, Dezembro 08, 2008

Memória de Desenho


"- Pai, o demônio existe de verdade?
- Não, fio, não se ´ocê não olhar pra ele. E segue andan´u que em u´a hora a gente tá em casa.
- Tá bom, pai. Ma´ é que eu tô c´uma fome danada..."

Memória de Desenho

Fiz este desenho de memória ontem à tarde.

É curioso que, em desenho, chama-se "de memória", aquele que não parte da observação direta de um objeto. Qualquer forma de invenção figurativa no desenho leva o nome de memória. Estimulado pelo trabalho de um aluno de desenho que tive recentemente, um rapaz talentosíssimo - que trabalha como vigia noturno - criador de incríveis paisagens de memória em caneta BIC, fiz esta cena rural. Memória de um lugar que eu nunca fui, diga-se.

Só depois de finalizar o desenho, lembrei-me que eu passava por uma estradinha parecida com esta no Embu quando criança. Ao irmos para a chácara que tínhamos lá, meu pai sempre dava carona em nosso fusca para famílias como esse pai e esse filho da imagem. Confesso que eu, garoto, detestava. Ficava incomodado com pessoas estranhas ao meu lado, com cheiro de lama. Mas meu pai continuava levando essa gente pra cidade. À época, ele tinha ainda esperança em um país solidário.
Mas memórias nos levam a ver a mudança das coisas à nossa volta. Um dia, ao descrever já adulto o caminho para o Embu a uma amiga que viria à chácara, disse que era uma estrada de terra. Ao passarmos por lá, vimos que não havia nem sinal dessas estradinhas. Elas foram todas asfaltadas. E meu pai já não cogita dar caronas pelas estradas estatisticamente perigosas do Embu.

Junto com a lembrança da estradinha surgiu este mini-conto que postei acima. Pensei que memória, como no desenho, é sempre invenção.

Por isso, não vejo nada mais honesto do que lembrar bem das coisas. Com isso, quero dizer, lembrar as coisas para o bem - seja lá o que isso queira dizer. Quiçá pinçar as minúcias poéticas de cada experiência guardada na mente neurótica pra compor um cenário - senão justo, senão limpo, senão puro - ainda belo. E beleza, segundo o escritor francês Stendhal, é uma promessa de felicidade.

Pois se memória é invenção, o passado é uma ficção; e mais do que justos, creio que podemos ser bons escritores, bons desenhistas nesta vida. Para mim, estradas de terra continuam a ser percorridas a pé somente por famílias justas, belas e fortes. É o que o desenho me faz lembrar.

É a felicidade que eu inventei.


(textos e desenho de Chuí - clique na imagem para ampliar)

Segunda-feira, Novembro 24, 2008

Work in progress: Título / Capa do Disco Novo




Amigos,
O disco novo está quase pronto.
Devo confessar que o rock desta vez é a estética preponderante, em guitarras e baterias que agora me aproximam mais deste estilo de música cantada oriundo da língua inglesa (a canção é sempre o produto de uma língua).
Também percebi - a posteriori - que, das 13 canções gravadas, praticamente todas elas tocam em um tema comum: o mito; e como ele nos une ou nos separa dentro da metrópole.
Desta junção de rock, mito e nós mesmos, veio a idéia do nome: "Me & Tu".
Me(leia-se "mi" - mim em inglês) & Tu (você). O som ao se falar soaria como Mi-tu, ou seja, com a contração natural do "ó" em "u", soaria "Mito" - e também "eu e você". Gosto da idéia de uma palavra que ganha seu sentido somente no momento em que se pronuncia. Bom, é estranho de toda forma explicar um título, mas enfim, cá estou.
Deixo aberto aqui para opiniões sobre o título, gostaria de saber a impressão de todos sobre ele e sobre a capa que vem sendo feita aos poucos.
Acima o processo da capa até então: um auto-retrato, uma primeira idéia e o atual momento gráfico para chegar a ela.
O que vocês acham?
Beijos a todos,
Chuí

Terça-feira, Novembro 18, 2008

DOM DO CIÚME - SESC CAMPINAS


Amigos,
Não tive tempo de divulgar, mas aqui está o convite para a última apresentação do ano do espetáculo DOM DO CIÚME. Nesta edição que será realizada no teatro do SESC Campinas, receberemos à festa da música e da literatura o escritor Luiz Roberto Guedes.
Beijos a todos,
Chuí

Sábado, Novembro 15, 2008

Eu e a Bola


Juro: mais do que desenhar o Popeye e a Graúna, mais do que fazer dobraduras, mais do que comer azeitonas verdes, quando eu era garoto nada me dava mais prazer do que jogar bola.
Nada original neste país, admito. Mas deixemos claro que jogar bola é muito diferente de futebol. Futebol requer regras claras e pessoas em busca de um resultado coletivo. Jogar bola não, faz parte do campo das fantasias individuais. Eu, como tantos brasileirinhos, jogava bola todo o tempo.
Uma diferença, talvez. Como eu passava muito tempo sozinho em casa e não podia estar no campo com gente de verdade, eu jogava sozinho no meio da sala, com bola invisível, gramado, traves e imensas torcidas imaginárias. A sala era a folha de papel para meus desenhos das jogadas.
A minha bola parecia-se muito com aquela que seguia as legendas daqueles desenhos animados cantantes. Algo entre branca e incolor, como um fantasminha camarada.
Quando eu estava no carro, minha bola imaginária saía do meu pé, rebatia nos postes das ruas e voltava. Ninguém percebia as minhas embaixadinhas constantes por baixo do banco. As regras se refaziam a cada instante.
Somente uma era permanente e irrevogável: todo dia, eu deveria driblar o time inteiro e fazer um gol incrível seguido de uma comemoração como o da quebra de mil anos de abstinência de títulos.
Juro: eu pulava nas almofadas da sala, rolava pelo tapete da entrada, ralava o joelho nos tacos de madeira. Ninguém nunca viu, só meus amigos animados.
As paredes eram os zagueiros e a trave era a porta de vidro que dava para o quintal.
Meu jogo nunca acontecia no quintal, meu estádio era a sala e minha platéia era a tela da TV ligada em desenhos animados de Hanna Barbera como Chuvisco, Plic&Ploc e os Jetsons. Eu jogava pra galera - da Barbera.
Quando eu comecei a jogar de verdade com meu irmão e os caras da rua, eu era o menor de todos e sempre ficava restrito à defesa. Todo mundo fazia gols e eu recebia aquele tapinha nas costas e frases de consolo como “foi bem hoje, Fê” ou “o Fê marca direitinho”. E minha artilharia seguia crescente no campeonato estadual da sala de TV.
Mas aconteceu de eu ir crescendo e o pessoal da rua foi me dando mais espaço na linha.
Deixei a defesa e fui pro ataque. Nunca fui bom de estratégias. Meu universo particular não me desenvolvera táticas. Minha miopia atrapalhava a visão de jogo. Estraguei muitas jogadas por conta de meu não-futebol. Mas percebi que eu tinha um arranque bom e o sonho de dançar a la Garrincha. Fiquei bom de drible. E aprendi a chutar com as duas pernas. Fazia mais gols até com a canhota.
E um dia, juro: eis que aconteceu. Eu jogava contra um time de “maloqueiros” – era como o pessoal chamava os garotos pobres que jogavam com a gente no parque –, saí da pequena área com a pelota, driblei todo o time adversário e fiz o gol. Inacreditável, mas eu juro que foi assim.
“Aê, Fê!”, “Boa, Fê!”, “Golaço, Fê!”. Descobri aos treze anos que eu podia fazer aquilo mais vezes. Durante um tempo, fiz vários desses gols.
Apenas uma coisa não se repetia. A comemoração.
Alguma coisa não me deixava celebrar de forma efusiva. Sei lá.
Lembro-me bem de um garoto na minha classe do colégio, o Giuliano. Ele nem era craque, mas fazia muitos gols. Enquanto ele era o pecado da preguiça, o conhecido "banheira", eu era justo, dava "assistência" e voltava pra defesa depois do nosso ataque; e enquanto ele era o pecado da gula no meio da quadra, o famoso “fominha”, eu sempre passava a bola, era solidário.
Só uma coisa destruiria por completo minhas pretensões de atingir o meu ideal de nobreza humana. A cada gol que Giuliano fazia, ele comemorava loucamente, dando voltas pela quadra; seu rosto inchava, vermelho sanguíneo de satisfação e todos os garotos corriam atrás dele pulando sobre suas costas. Eu, quando fazia gols, corria lenta e sobriamente para o lado da quadra, como um soldado raso ao cumprir sua tarefa.
Giuliano era ira e soberba nas comemorações ao redor da quadra do Colégio. E eu, que almejava a estética humilde, cristã e límpida, por dentro era a inveja e a avareza olhando seus pulos de luxúria com o grupo.
Em algum momento de minha formação, devo ter incorporado uma idéia de que comemorar era algo pouco nobre. E isto se seguiu por muito tempo.
Vejo agora que os momentos vitoriosos são diamantes montados em relâmpagos; e celebrá-los é parte essencial dos partos de nossas experiências. Aos poucos perdi meu arranque, minha miopia aumentou. E com os anos, até mesmo o campeonato estadual da minha sala foi aos poucos perdendo a torcida animada que deu lugar a outras cores e melodias em minha vida.
Todavia nada disso importa agora, já que hoje em dia eu raramente jogo uma bola. Nunca mais vi o menino Giuliano dentro ou fora de campo. Nem sequer vejo mais futebol. Nem desenhos animados. Nem TV.
Acho que afinal eu nunca joguei futebol. Porém preservo a memória da bola invisível. Sei que ela está ainda aqui. Nem acredito que as memórias da nossa infância existam para que aprendamos lições com elas; acho que elas são como sonhos que a gente interpreta cada vez de uma forma e jamais se lembra de tudo.
Mas juro: a cada dia eu venho aprendendo a comemorar melhor os gols e pecados que hoje faço.


(texto e desenho de Chuí)

Terça-feira, Novembro 11, 2008

Entrevista a AIC - Sobre a Canção


Amigos, a vida, o trabalho e a pesquisa não têm me deixado tempo para o prazer da escrita/desenho/diálogo neste blog, mas divulgo aqui esta breve entrevista a respeito da oficina de canção que dei a Marcia Mattos, a assistente de comunicação da Academia Internacional de Cinema, onde serão realizados os encontros.
E em breve retomo o blog com a devida constância...
Beijos a todos,
Chuí

AIC: Olá, Fernando
boa tarde! Obrigada por sua colaboração, viu?

Chuí: Marcia, eu que agradeço.

AIC: Por quê uma Oficina de Canção?

Chuí: A canção é um dos elementos culturais mais presentes na memória e no cotidiano das pessoas nos últimos 100 anos e, ao mesmo tempo, é uma linguagem em si um tanto quanto mal compreendida. Não se encaixa realmente no terreno da música nem no da poesia e, no entanto, quando nos referimos a ela, falamos de música e poesia, sem nos darmos conta a respeito de que se trata.
A idéia de uma oficina de canção não é definir um conceito como quem definisse uma resposta fechada, mas reavivar a canção como uma experiência viva e social, refletindo sobre sua história, abordando teorias que respaldem a compreensão e fruição do tema para a realização de criações musico-literárias.

AIC: O que devem esperar os alunos desta oficina?

Chuí: O meu desejo é que os participantes façam comigo uma reflexão coletiva sobre o lugar e o sentido da canção nos dias de hoje e, sobretudo, que juntos inventemos novas canções a serem apresentadas ao final dos encontros. O curso pode até estimular novos compositores, mas a idéia principal é trazer a criação de canções como uma experiência coletiva de criatividade e de fruição do enorme legado de nossos cancionistas. Para tanto, precisamos às vezes recorrer à história e à teoria. É claro que sem jamais nos desvencilharmos da canção viva, algo a ser cantado, alegrado, rememorado.

AIC: Existe fórmula para escrever uma boa canção?

Chuí: Certamente que não. Assim como não há fórmula para uma suposta boa arte em nenhum campo de sua criação. Não há equação que nos levasse a Adoniran Barbosa ou a Bob Dylan, assim como a Drummond ou a Van Gogh.
Mas há maneiras de compreendermos/apreciarmos mais as suas cores, e há dinâmicas possíveis para vivenciarmos a canção por novos processos, para quem sabe reconstruirmos ali o sentido de se cantar versos.

AIC: De que tipo de experiência se extrai inspiração para criar uma melodia original?

Chuí: Em canção, a melodia é apenas um dos vários elementos que lhe conferem expressividade.
Existe a letra - que traz uma forma poética ligada à fala -, o arranjo - que é aberto -, o acento do cantor, etc. A combinação de todos estes fatores é que nos faz gostar de uma música mais do que de outra. No cancioneiro popular - em sua maior parte - há pouco que pudéssemos definir como definitivamente original em termos de melodia.
A música popular é, em si, uma arte de redundâncias onde a originalidade se dá por meio de sutilezas e escolhas pessoais. Mesmo em obras de compositores melodicamente geniais como Tom Jobim, é difícil definir originalidade. Ele mesmo foi processado por algumas vezes - nunca perdeu, diga-se - por plágio por conta da forte semelhança de algumas de suas melodias com as de determinadas canções do jazz.
E inspiração, para mim, é fruto do trabalho contínuo e do diálogo com o mundo.

AIC: Qual a liga necessária para o casamento entre a letra e a canção?

Chuí: Também não vejo uma resposta simples para essa questão. Mas de um forma geral, esta é uma preocupação com a prosódia, que diz respeito à combinação das melodias com o acento e a entoação presentes na letras - que tem ligação direta com a fala.
Em geral, é bom evitar choques entre a melodia(música) e o acento natural da fala(letra). Também é legal evitar letras cujas sílabas poéticas não se encaixem numericamente nas notas da melodia. Mas há diversos casos de grandes canções com erros de prosódia e tantas outras que a melodia se prolonga depois da sílaba final. Acho que não há regras, o mistério da beleza das coisas se dá à revelia da técnica.
Mas toda essa conversa só faz sentido se pudermos sair do terreno da lógica e adentrarmos o campo da experiência, esta, que é afinal a proposta desta oficina.

AIC: Um abraço e muito obrigada!

Sexta-feira, Outubro 03, 2008

2 poemas para 1 desenho


I

É um mistério que você seja
motivo e remédio do meu sofrer.
Quando da minha festa, some.
Quando da minha perda, lá está.
Nenhuma paixão duraria
Sem uma promessa descumprida.

Você procura outra vida
nos dias em que eu transbordo.
Nenhum amor sobrevive
sem uma ponta de calúnia.
Você que é tão mais egoísta,
tão mais generosa.

Almas gêmeas o escambau,
torres gêmeas etcetra e tal.

Chame neurose, dialética, estupidez.
Mas me desequilibre, amor.
É preciso evitar a queda.

II

No hay tormento, ni espanto.
Eres solamente una estrada
Sin nubes, sin cielos,
Solamente una estrada.
Sin miedos, sin poderes,
Una estrada.

Sin carros, sin freos o velocidad.
Una estrada lilas.
O no. Cualquier color que te guste.

Sin memoria, sin destino.
Una estrada pronta. Basta olvida-la.

No sé que se pasa en su distancia.
Pero presumo, invento.
Su desnudez me cala, su suelo sin cactus,
charcos o lluvias.
Descubro que tengo pies
En el día en que estoy
prohibido de pisarte.

Y la luz.
Esta es de un silencio mortal.


(Desenho de Chuí realizado ao vivo
na Apresentação DOM DO CIÚME - SESC Sorocaba)