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segunda-feira, agosto 20, 2007

O Nome do Rei

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- Eu sou o Rei da cidade! - bradou o homem,
ao acordar em meio a notícias de anteontem
de seu sono profundo às cinco e meia da tarde
em plena avenida Paulista.
Chamava-se Rei, mas
- Mãe, aquele homem parece um macaco!
Carla segurava forte a mão da mãe com os olhos vidrados
naquela curiosa aparição.
Chamava-se Macaco, mas
- Não olha não, minha filha,
vai que esse homem vem falar com a gente.
Meu Deus, ele deve dormir com os ratos...
A mulher obesa de cabelos vermelhos nomeada Ruth
apertou o passo, machucando o braço da menina
com a boneca de baixo do braço direito.
Afastou-se em instantes da visão insólita
sem olhar para o rosto do mendigo.
Chamava-se Rato, mas
- Velho, olha aquele figura ali de pé...
- Nooossa, meu, parece o Napoleão.
Marco e Rafael, vindos do cursinho,
riam e brindavam com seus copos de cerveja
a vagabundagem personificada por aquele que
chamava-se Napoleão, mas
- Sai da frente, ô velho idiota!!!
De terno fino, Augusto cortava a fala tensa ao celular
para aquele justo xingamento, dado o inconveniente
daquela presença no meio da calçada
bloqueando seu andar apressado
do executivo em apuros.
Chamava-se Velho Idiota, mas
.
- Eu sou o sono dos bons! Sou o sonho dos cães!
.
Eram cinco e trinta e sete da tarde
quando delírios em preto e branco
salvaram a espécie humana
da extinção.
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.
(texto e desenho de Chuí)

7 comentários:

marcia disse...

Fer,
quando Foucualt fala da "invenção do homem" ele só diz a expressão de uma vontade antiga e irrealizada, tanto ontem, como hoje. O anti-humano, desumano, pós-humano é o futuro.
Obrigada por levar a sério seu ofício de ser "antena" da sociedade como dizia Ezra Pound.
beijos
Marcia

Yone disse...

Pois é, nem sempre se quer ver o que já está visto. Beijos

menezes disse...

Desta vez o que me "mordeu" na relação entre o desenho e o texto, foi a semelhança com uma estátua feita por Rodin. Ela poderia ser de Beethoven ou de Napoleão, mas tem ao mesmo tempo algo de imperial, pela introspecção soberana, e algo de simiesco, pela grande cabeça que enterra o pescoço. Imperador, macaco, músico...

Noubar Sarkissian Junior disse...

Sempre tenho o receio de entender menos que sua arte quer transmitir. As reações diversas que você retratou são dignas dos que interpretam a sociedade para nós, observadores confusos com ela.

Que privilégio tê-lo como professor, Fernando.

Um abraço!

Enio disse...

Putz, deu até pra ver a cena, muito legal...

rafaela disse...

Fer...
Sempre nos levando à reflexão!
"(...)quando delírios em preto e branco salvaram a espécie humana
da extinção."

Homem/macaco/Napoleão/rato - teriamos nós, que somos tbm meros animais, a insensatez de 'julgar' o outro? (indagou Platão algo assim...)

Coitado. Salve o (este) Rei!

beijos!

menezes disse...

Há uma fina percepção que seu texto explora, na inversão da palavra e na inversão do conceito, e que eu sintetizaria como: Roma é o símbolo do querer conquistar, amoR o do deixar-se conquistar.