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segunda-feira, setembro 15, 2008

Fresta! na UERJ - Herói é Humano


Amigos,
Fiquei sabendo por intermédio de três gentis estudantes - Thales, Rafael e Pâmela - que um dos textos deste blog (postado em 21 de dezembro de 2006) foi publicado na prova do vestibular da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ), realizada por eles há alguns dias.
Pelo que entendi, o texto não estava na íntegra, por isso resolvi postá-lo novamente aqui para os leitores novos e aos antigos que, por ventura, não o tenham lido.
Acima, um desenho de 1993 de uma história que eu fazia com o Beto, um amigo da faculdade.
Thales, Rafael e Pâmela, obrigado pelo toque.
(e mandem-me e-mails para retorno, ok?)
Beijos a todos,
Chuí

Herói é humano

Quando eu era criança eu passava todo o tempo desenhando super-heróis.
Eu fazia assinatura das revistinhas da Marvel e aguardava ansioso pelos gibis SuperaventurasMarvel, Homem-Aranha, Heróis da TV e Hulk, além de comprar na banca de jornal as séries do Batman e do Super-homem.
Para quem não é formado por esta literatura, é preciso explicar de que se trata. É a arte seqüencial, definição do gênio Will Eisner, que flerta com o infantil e com o adulto ao mesmo tempo.
Esteticamente, as HQs de super-heróis também têm algo de paradoxal. Por um lado, elas se propõem a uma seriedade digna de uma Odisséia, e, por outro, apresentam-se com desenhos cheios de balõezinhos que tornam quase impossível a tarefa de se escapar do kitch. Seus desenhistas trabalham as figuras todas em proporções realistas e, não obstante, não conseguem escapar da sua caricatura de nanquim. Com o advento das graphic novels dos anos 80, criou-se uma legenda de que então as HQs finalmente assumiriam seu posto de arte de boa qualidade. Todavia, não acho que a tal qualidade estética das ditas HQs adultas seja o maior legado das histórias de super-heróis. O cinema, sim, resgatou delas a sua essência, algo como o kitch-cult.
Toda HQ de super-heróis retrabalha, como evidencia o próprio nome, o mito do herói.
Recorro - mais uma vez - a Joseph Campbell que diferenciava as duas figuras públicas: o herói (figura pública antiga); e a celebridade (a figura pública moderna). Enquanto a celebridade se populariza por viver para si mesma, o herói assim se tornava por viver servindo sua comunidade. Todo super-herói deve atravessar alguma via crucis. Gandhi disse que, quanto maior nosso sacrifício, maior será nossa conquista. Como Hércules, como Batman.
Por trabalharem sob uma narrativa progressiva e cíclica, e serem tecnicamente mais ambiciosas do que as outras modalidades de HQs, as histórias de super-heróis se deslocaram de seu meio de revistas e jornais, aproximando-se muito mais das séries de TV e do cinema, mas sem perder seu mito pop. Talvez por isto as melhores coisas que o cinema comercial produz ultimamente sejam as adaptações das HQs de super-heróis.
O cinema nasceu comercial e, a despeito de uma série de diretores que conseguiram desenvolver o chamado cinema de arte, de Bergman e Fellini a Peter Greenaway e Almodóvar, é disto que se trata, uma imensa indústria de entretenimento. Não acho esta definição algo absolutamente depreciativo. Recordo-me de um gibi em que o Surfista Prateado dizia aos seres humanos: "A vida é imensa e complexa - acontece dentro e à margem dela mesma."
Toda HQ traz em si alguma coisa de industrial e marginal, ao mesmo tempo e sob o mesmo aspecto. Os filmes de super-herói, ainda que transpondo essa cultura para a grande e famigerada indústria, realizam uma outra façanha, que provavelmente sem eles não ocorreria: a formação de novas mitologias reafirmando os mesmos ideais heróicos da antigüidade ao homem moderno. Fellini afirmou uma vez que Stan Lee, o criador da Marvel e de diversos heróis populares, era o Homero do quadrinhos.
Toda boa história de super-herói é uma história de exclusão social. Homem-Aranha é um Nerd, Hulk é um monstro amaldiçoado, Demolidor é um deficiente, os X-Men são indivíduos excepcionais, Batman é um órfão, Super-Homem é um alenígena expatriado. São todos símbolos da solidão, da sobrevivência e da abnegação humana.
Não se ama um herói pelos seus poderes, mas pela sua dor. Nossos olhos podem até se voltar a eles por suas habilidades fantásticas, mas é na humanidade que eles crescem dentro do gosto popular.
(Os super-heróis que não sofrem ou simplesmente trabalham para o sistema vigente tendem a se tornar meio babacas, como o Tocha-Humana ou o Capitão América)
O cinema de Hollywood tem a função de nos mostrar até onde alcança o inconsciente coletivo, o topo do lugar-comum, aquilo que a sociedade espera dela mesma (o que, às vezes, nos traz boas surpresas); e os super-heróis, hoje superstars, são mitos oriundos de experiências feitas em laboratórios do submundo, a velha sub-arte das HQs, a santidade surgida do lixo. Hulk e Homem-Aranha são seres que criticam a inconseqüência da ciência, com sua energia atômica e suas experiências genéticas. Os X-Men nos advertem para a educação inclusiva. Super-homem é aquele que mais se aproxima de Jesus Cristo - e por isto talvez seja o mais popular de todos, mais popular do que os Beatles, que um dia disseram serem mais populares que Ele - em seu sacrifício solitário em defesa dos seres humanos, mas também tem algo de Aquiles, com seu calcanhar que é a kriptonita. Humano e super-herói, como Gandhi.
Não houve nenhuma literatura que tenha me marcado mais do que essas histórias em quadrinhos. Eu raramente as leio hoje em dia, mas quando assisto a bons filmes de super-heróis eu me lembro que todos temos um lado ingênuo e bom, que pode ser capaz de suportar a dor da solidão por um princípio.
Eu sempre me enterneço ao ver os X-Men, o Homem-Aranha ou o Super-Homem. Vejo diversas vezes, sei os diálogos. É verdade que há, entre esses filmes, alguns absolutamente lastimáveis; contudo, os filmes de super-heróis são a prova da sobrevivência deste mito em meio ao glamour e a indústria de "celebridades-miojo". Parafraseando o Surfista Prateado (e Deus queira que seja bem retratado nas telas...), é a negação do sistema, trazido dentro e à margem de sua grande indústria.
Tenho a raiva do Hulk, o mau-humor do Wolverine, a solidão do Super-Homem. Temos a tendência a atribuir nossos erros e defeitos à humanidade que nos comporta.
No entanto, vejo esses filmes e lembro-me que, ainda hoje, herói é humano.

15 comentários:

Pâmela disse...

O que me chamou mais atenção foi o fato dos blogueiros ganharem espaço nas provas de vestibular, antes reservado aos escritores tradicionais como Machado, Guimarães, Lispector, entre outros grandes. Algo que dá uma cara nova às provas, mas que, principalmente, divulga e valoriza o talento espanhado pela rede.

Mas e você, Chuí, já tentou se interpretar lá?
A prova foi divulgada no site da UERJ ( Linguagem, códigos e suas tecnologias) constando as cinco questões referentes ao seu texto.

pamelaacsantos@hotmail.com

Noubar Sarkissian Junior disse...

Que bacana, Fernando! Texto base pra vestibular! Eu ainda consigo me surpreender cada vez um pouquinho mais com seus talentos.
E esse seu texto me é bem oportuno, pois, apesar de não ter vivido essa literatura de quadrinhos, fui seduzido pelo recente filme do Batman e acho que um universo novo (e bom!) está pintando pra mim.
te vejo no sesc!
Abraços

Yone disse...

Parabéns amigo, você é no mínimo, o máximo. Beijo

Yone

Anônimo disse...

Bravo!
É apenas o começo da glória de um grande literato.

Beijos
Regina

Hamer disse...

Caro amigo,

Fico muito feliz pelo reconhecimento que seu trabalho vem, grão a grão, alcançando.
Parabéns, parabéns, parabéns!
E torço para que os vestibulandos pesquem a isca e comecem a visitar seu blog.
Grande abraços,

Hamer

Dinaura disse...

Beleza, Fernando !

Bem-merecido reconhecimento acadêmico.

Abs
Dinaura

Anônimo disse...

Fernando,
isso é bacana! faz jus ao seu talento e criatividade.Parabéns! beijo,
Au

Rafaela Figueiredo disse...

apesar de tudo, pensei que soubesses!
não entendo dessas coisas, mas e os direitos autorais?

besos

Sandro Parente disse...

Caro Fernando,
comecei a apreciar o seu trabalho, por ironia, fazendo o vestibular da uerj...já dizia o grande poetinha vinícius de moraes que a vida é a arte do encontro, embora haja tanto desencontro pela vida...
Fiquei tocado com essa idéia do texto porque realmente A figura dos super-heróis sempre trouxeram filosofias, valores morais e espirituais incutidos nas entrelinhas. Comecei meu vício em ler com as HQ's, mas levou tempo (o necessário para crescer) perceber o que não era explícito além das figuras e cores. Siegel e Schuster (dois rapazes judeus americanos) criaram o Super-homem, e dentro dele todo um inconsciente coletivo inerente aos judeus. Sem perceberem, criaram um personagem que era na verdade o tão esperado messias... Kal-El, Jor-El (a terminação "El" significa "Senhor" em hebraico antigo.) e Zara (que é uma corruptela de "Sara" a mãe de todos nós judeus) são nomes que derivam, ou lembram os nomes israelitas. Kal-El foi mandado ao espaço dentro de uma pequena nave, mas poderíamos associar a "pequena nave" ao "pequeno cesto" que o bebê Moshe (Moisés) foi colocado e lançado ao rio numa tentativa de sobrevivência... Até Hitler reconheceu no Super-homem, sua axiologia judaica, acusando o EUA de propaganda semita na figura do homem de aço. Houve também uma grande confusão nazista entre o "Ubermensch" de Nietzsche, ao kriptoriano, mas essa é uma outra história...
Forte abraço e parabéns!

Fernando Chuí disse...

Caro Sandro,
Obrigado pelas palavras e pelas referências, bem legais.
E que bom que há encontro, mesmo em circunstâncias tão inusitadas - eu acredito que esses são os bons...
Deixe e-mail para contato, ok?
Abração,
Chuí

Anônimo disse...

Fernando,

Guarde essa sensibilidade maior como uma coisa preciosa.Cuide dela todos os dias mesmo que algumas vezes possa se sentir solitário como um super-heroi.
Ela é resistência neste "mundo dos objetos"
Seus textos são capazes de emocionar. Você é muito muito muito bom

Fernando Chuí disse...

Anônimo,
Obrigado por suas palavras tão belas e generosas. Acho que a solidão nos salva muitas vezes. Mas deixe seu e-mail para retorno depois, tá?
Beijo,
Chuí

Sandro Parente disse...

O meu e-mail é
sandrosacp@gmail.com

Ficarei muito grato em mantermos contato.

Abraços,
Sandro Parente

Jeff disse...

Legal, nunca tinha pensado nessa coisa do super-heroi e suas fraquezas... interessante. Ah, vcs virao a Campinas... vou ver se consigo ir no sesc ver vcs... fiquei bem interessado! Abraços, jeff (era vidrado no campbell, nao perdia um programa das suas memoráveis entrevistas quando passou na TV cultura)

Fernando Chuí disse...

Olá, Jeff,
Obrigado pela visita ao blog. ando sem tempo pra escrever/desenhar, mas retorno aqui suas palavras boas.
Um grande abraço,
Fernando