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domingo, março 15, 2009

Sobre isso (que vem)


Às vezes vem na forma de um sonho.
Noutras, é somente um calafrio.

Não chega a ser mediado por algum recurso verbal.
Não tem sintática nem pragmática.
Só serve pra confundir a semântica.
Pode nem ser uma imagem clara na mente. Mas você sabe.
No fundo você sabe quando vem.

A medicina chamaria de dor.
Exotéricos diriam que é presságio.
Céticos, que é gastrite, intuição no máximo.

Se fosse impulso, seria elétrico.
Se fosse música, seria dodecafônica.
Se fosse um objeto, seria sirene.

O fato é que vem de diversas formas,
e é sinal de que algo fatalmente
vai virar a sua vida pelo avesso.
Ou pior: que você não vai mais poder virá-la do avesso
(como secretamente você deseja há tantos anos ).

Quando vem, o melhor é olhar de frente.
No olho, engolir as vírgulas.

Senão depois não vai adiantar reparar, refletir, calcular os danos.
Foi-se(ou foice): É o tal leite derramado.

Você pode até fingir que não vê,
que não ouve e nem sente nada.
Você pode ter aprendido a não dar bola pra essas coisas.

Mas é certo, meu caro: não vem à toa.


(Texto e desenho de Chuí - clique na imagem para ampliá-la)

15 comentários:

vivi disse...

Texto incrível, ilustração maravilhosa!
Bjs Vivian

Ana Nejar disse...

Nossa, Fernando, caiu como uma luva. Precisava ler isso e agora! Parabéns, lindo, lindo, adorei a estratégia da foice e o desenho, ora, maravilhoso.
Beijo grande.
Ana

Rozy disse...

Fezino,
Que lindo!
O desenho e o poema.
Amei.
Com carinho

Lara disse...

To no momento desse calafrio aí (mas q se fosse impulso seria um terremoto!rs)
bjos Fer,

Enio de Freitas disse...

désin marveilleu !!!

Luiza disse...

poema, preciso, claro, direto,tanto quanto seu talento,expresso em sua arte no desenho e na palavra. Parabéns, querido, adorei !!!!!!!!

Lila disse...

Adorei!! Muito bom! Beijos

Anônimo disse...

Melancolia compartilhada! hehehe

Anônimo disse...

Fer,
és inspirado e comovente. Por isso te imito e te beijos, Au.
________

Calafrio ou sonho
a sensação se instala no corpo
constrói uma coisa maior
na alma
alarga o espaço para o que vem
asas para os grandes vôos
mote da poesia

essa coisa que vem traz o sentido
para o que ainda está oculto
na espera do movimento perfeito
som
palavra
gesto
ambivalência

encarar a coisa e sua força
não deixá-la fugir
transformá-la no que possa ser
simplesmente
um jeito de olhar
e ver.

(mar. 16)

Rafaela Figueiredo disse...

Fer! :)
Acho que - tal qual o ISSO - não hei de classificar teu texto.
Mas digo: AMEI! Que expressividade, que exploração linguística..!

Besos
Matou saudade!

Menezes disse...

Isso que vem, pra mim já veio.

Não é presságio, é “ságio”.



Quando dói muito, recalco fundo.

Mas é coisa sabida:

Se nego o fato, gero um sintoma.



Neurose é isso...

Fernando Chuí disse...

Que bom, Lila! Depois deixe seu contato pra retorno, tá?
Anônimo, acho que melancolia compartilhada já não fica tão melancólica...
Bjs,
Chuí

Clarita disse...

Feeeeeeeeeeeeeeeeeeeee
A Lila é a Lili, minha irma.
Adorei o post, cê ta bem??
mil beijos
Lu

Denise H. disse...

É neurose. É ansiedade.
É relutar contra o óbvio.
É conflito.
É humano.

Natalix disse...

Quando o sentimento expira, já somos outros.

O destino do homem criar e através de sua criação, deixar de existir?