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quarta-feira, novembro 11, 2009

G. e a democracia Zepelim


Em 1978, Chico Buarque discutiu a moralidade urbana
na canção "Geni e o Zepelim".
A G. da canção, mesmo repudiada por toda a cidade,
salva a todos ao transar com um ditador
oriundo de um imenso zepelim.
Após a salvação, segue sendo ali odiada.
Quem seria a G. da vez, mais de trinta anos após a canção?

...

Desta vez, a massa quis ter G. assada com uma maçã na boca.
Clamou aos professores que deixassem G. com eles.
Os professores, que não se dizem da massa,
dizem que G. havia provocado tudo aquilo.
Por se exibir demais - em trajes até então permitidos pela escola.

...

A massa gritava uma palavra: Pu-ta! Pu-ta! Pu-ta!
Puta é, teoricamente, a mulher
que oferece seu corpo secretamente
por uma pequena quantia.
(Lembremos que puta é personagem aceita por toda sociedade.
A não ser que saia da cova. Puta pode – mas só no breu.)
Insuportável é que não seja realmente uma puta,
só uma sereia desgovernada.
Esta sim, putíssima.

...

A escola diz não ter podido fazer nada
Com aquela massa de setecentos alunos hostis.
Uma escola fruto de dois fracassos:
Das revoluções democráticas, primeiro.
Das ditaduras depois.
Com isto temos uma escola sem ideais
E ao mesmo tempo sem autoridade alguma.
Resta o caos público
e um sistema que obedece apenas
ao dinheiro dos pais dos estudantes
E à opinião popular.

...

A G. de hoje é Geisy. Não é a Geni da canção.
Aquela que é feita pra apanhar,
boa de cuspir e e dá pra qualquer um.

A G. de hoje não é uma coitada. Reivindica seus direitos.
Decotada, vai a programas de auditório.

...

Não houve Zepelim pra assediar a G. de hoje.
Mas a revista Playboy , sim.
Igualmente à G. da canção A G. de agora vai topar.
Afinal, puta não é aquela que oferece seu corpo
por destaque na mídia e um dinheiro generoso.

Assim como a massa sem nome
e a escola sem autoridade
G. não pensa no significado das coisas.

...

Uma coisa me chama a atenção:
Não houve líderes neste episódio fascista
da história da educação brasileira.
Manada, alcatéia, súcia -
a massa se liderou a si própria
Clamando pela crucificação de G.
- Joga pedra na G.!
- Joga bosta na G.!

...

A faculdade expulsou G. e voltou atrás.
Com a outra G. não houve mídia
ou propostas de grana e fama,
ela não pôde deixar de ser puta.
Seguiu sua trilha de pedra e bosta.

A Universidade - que deveria discutir a sociedade –
somente segue a dança do agora.
Se nesta mesma faculdade todas as meninas
pudessem e resolvessem ser assim, putas,
a regra ali seria este novo figurino.

...

Esta é a tal ditadura da democracia.
Funciona como a burocracia.
Ninguém manda. Mas todos têm de obedecer.

...

Uma capa de Playboy espelharia nossa política:
G.,
exuberante,
com suas partes pudendas
cobertas de pedra e bosta.
E as páginas de dentro: todas em branco.

Edição esgotada.
Consumida em segundos
por uma massa que segue a regra
criada por ninguém.


(texto e ilustração de Chuí)

16 comentários:

Dinaura disse...

Perfeito, Fernando !



Abs

Dinaura

Anônimo disse...

"Ninguém manda. Mas todos têm de obedecer".
Falou tudo!
J.

Anônimo disse...

ARRASOU! Todos os que escrevem na midia deveriam se manifestar com esta veemência.Bjs,
Au

Yone disse...

Que mundo é esse atual? Seria uma longa discussão entre as putas, universidades, políticos, nós e todos que se interessam pela vida, não acha? Beijo

Yone

TO disse...

fe, uma universidade daqui do sul ofereceu uma bolsa integral para a moça, ela deveria aceitar

Newton disse...

Fernando, continua sempre muito bom o seu blog.
E aproveitando o assunto, veja aí como o poeta popular tratou da questão do dia.

Newton Sodre

UMA BURCA PARA GEISY
por Miguezim de Princesa




Quando Geisy apareceu

Balançando o mucumbu

Na Faculdade Uniban,

Foi o maior sururu:

Teve reza e ladainha;

Não sabia que uma calcinha

Causava tanto rebu.



II

Trajava um mini-vestido,

Arrochado e cor de rosa;

Perfumada de extrato,

Toda ancha e toda prosa,

Pensou que estava abafando

E ia ter rapaz gritando:

"Arrocha a tampa, gostosa!"



III

Mas Geisy se enganou,

O paulista é acanhado:

Quando vê lance de perna,

Fica logo indignado.

Os motivos eu não sei,

Mas pra passeata gay

Vai todo mundo animado!



IV

Ainda na escadaria,

Só se ouvia a estudantada

Dando urros, dando gritos,

Colérica e indignada

Como quem vai para a luta,

Chamando-a de prostituta

E de mulherzinha safada.



V

Geisy ficou acuada,

Num canto, triste a chorar,

Procurou um agasalho

Para cobrir o lugar,

Quando um rapaz inocente

Disse: "oh troço mais indecente,

Acho que vou desmaiar!"



VI

A Faculdade Uniban,

Que está em último lugar

Nas provas que o MEC faz,

Quis logo se destacar:

Decidiu no mesmo instante

Expulsar a estudante

Do seu quadro regular.



VII

Totalmente escorraçada,

Sem ter mais onde estudar,

Geisy precisa de ajuda

Para a vida retomar,

Mas na novela das oito

É um tal de molhar biscoito

E ninguém pra reclamar.



VIII

O fato repercutiu

De Paris até Omã.

Soube que Ahmadinejad

Festejou lá no Irã,

Foi uma festa de arromba

Com direito a carro-bomba

Da milícia Talibã.



IX

E o rico Osama Bin Laden,

Agradecendo a Alá,

Nas montanhas cazaquistãs

Onde foi se homiziar

Com uma cigana turca,

Mandou fazer uma burca

Para a brasileira usar.



X

Fica pra Geisy a lição

Desse poeta matuto:

Proteja seu bom guardado

Da cólera dos impolutos,

Guarde bem o tacacá

E só resolva mostrar

A quem gosta do produto.

Ana Luiza Daltro disse...

Perfeito, Nando! Adorei... Beijos!

Teresa disse...

Uma vergonha estes boçais da uniban!
bjs

Lúcia disse...

Poesia, cronica, denuncia, disse tudo.

Rafaela Figueiredo disse...

não é preciso ser mto inteligente para saber q, neste auê, ninguém tá com razão:
a bonita da moça, lá, não teve mto senso nem discernimento, para notar q ambiente escolar/universitário - como outros - não é lugar de desfile de pernas/bundas/afins [embora vejamos bastantes por aí!].
mas, obviamente, o povo esteve ainda mais nonsense do q ela! afinal, o papel de ridícula deveria lhe competir e tão somente; podendo passar despercebido... mas o q fizeram? vandalismo puro! ratificando a falta de noção/democracia/ética em q se encontra, não só o povo da uni(tali)ban [achei isso o máximo!], sabe-se bem, mas todo o país... o mundo! - o qual podia parar um instante pr'uma boa galera descer.

literalmente: tudo mto chato!

Psique ativa disse...

É este foi um fato e tanto, triste, mas revela a fatídica posição que os jovens assumem em relação a si mesmos...
Parabens pelo blog! Abrs

Fy disse...

Fernando, excelente; perfeito mesmo.

Quando agente pensa que certos padrões e convenções estão há mto atrofiados, um “espanto” deste vem deixar uma marca tão, sei lá se revoltante, chocante ou mesmo inacreditável.

Excelente o comentário da Rafaela.

E como disse o Caio,- posição fatídica. – pois é. coisa séria.

.....o mundo! – podia – mesmo – Rafaela, parar um instante pr'uma boa galera descer.- é isso.

Eu li por aí: Theres so many different worlds, so many differents suns and we... have just one world but we live: in different ones - Dire Straits

Meus parabéns tb, Fernando

Fy

Luiza disse...

Absurdo, indigno e falso o "pudor"
dessa moçada, que ficou lambuzada
com seu próprio comportamento, maldosado, mal colocado, out of order . . . fizeram papel de palhaços, sem lona e sem circo, do circo da sociedade sem lona a que pertencem . . . Ah! Ah! ah! Que idiotas . . .excelente seu verso,
crítico. . . e perfeito ! parabéns, como sempre digo sobre vc. Talento é talento e nunca se discute !!!!!!!!!

mastabi disse...

acho que agora a geisy ficou gostosa.

circulospsicodelicos disse...

Texto Fantástico. Você conseguiu unir a musica ao fot acontecido com perfeita descrição dos fatos. A Geni de ontem é a Geise de hoje e talvez a Gilmara de amanhã.
Todos criticaram pelo vestido curtinho, mas ela sendo capa da Playboy, a mesma massa arrogante será os primeiros a esvaziarem as bancas de jornais.

Anônimo disse...

Fernando se todos fossem iguais a vc. que maravlha! já dizia o poeta; mas feliz são os gratificados pela rara inteligência e sensibilidade! Que maravilha! Iso são para poucos...