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quarta-feira, outubro 11, 2006

Canção sobre um Diálogo III - Ensaio para uma Canção


Caríssimo Danilo,
A demora na sua resposta e a própria em si confirmam a sua preguiça de serpente. Sobre a preguiça, tenho cá algumas considerações.
Recentemente, a Marcia Tiburi, em sua palestra sobre literatura e escrita, foi indagada sobre a relação entre a poesia e a filosofia, com o que ela disse, após breve pausa: o filósofo é um poeta cansado. Em outro momento, você então nos questionou se não seria por sua vez o poeta um filósofo preguiçoso.
Destas duas "elucidatórias" perguntas elaboro outras. Se pensarmos no compositor formal, que encontra suas bases em tradições clássicas, na escrita musical, na condução de vozes, no contraponto, etc, etc, poderíamos pensarmos este compositor como uma espécie de cancionista cansado?
Não obstante, o que viria a ser afinal o cancionista, um compositor preguiçoso? E qual seria a função ou a disfunção fundamental desta classe de artistas no mundo de hoje? E de que cancionista estaremos falando? Dos herdeiros assépticos da bossa nova? Das órfãs cantoras técnicas de Elis Regina? Dos pseudo-rebeldes da ala Rock? Dos seguidores dos seguidores da tropicália? E esta canção, se descolaria da música popular instrumental?
Gosto da idéia de uma música-síntese. Mas não tenho certeza de que tenhamos que chamar de canção apenas aquilo que formalmente recebe este nome.
O crítico Tinhorão define o início da música popular brasileira a partir do surgimento dos primeiros nomes, ou seja, com o advento da autoria, da obra composta de compositores nomeados pela história, em contraposição com a obra de domínio público, a música folclórica.
Eu não gosto da idéia da morte da canção.
Prefiro que morra a autoria. O que nos levaria, quem sabe, a uma nova etapa da canção popular. Estaríamos preparados para desafiar a lógica e compor sobre um não-nome, o cancioneiro de ninguém?
(Talvez a geração do Hip-hop, cujos cantores MCs anunciam sempre seus nomes a cada letra que fazem, estejam dando um primeiro passo para isso, sendo que, em termos de canção, não há autoria quando há explícita autoria. Quer dizer, como eu posso ser gravado por vários cantores com uma música em que eu digo "Escuta aqui/meu nome é Fernando Chuí")
Reitero: que morra a autoria pra que rejuvenesça a canção. E essa coisa de um monte de nomes prontos para serem reconhecidos é mesmo um tanto cafona.
Bom, camará, espero que não demore a dar o bote desta vez.
Abraços reverberados,
Chuí

(imagem: desenho de Chuí)

5 comentários:

marcia disse...

Vc toca em várias questões seríssimas. Sou obrigada a perguntar:
1. Como poderemos viver sem a autoria se há em nossa sociedade quem nem chegou nela? Seria preciso chegar nela ou devemos assumir de vez que cada um é "ninguém" e que isso nos iguala?
2. Vc acha que o copyleft vai nos levar aonde? Será que o bacana do copy left não é justamente tencionar a autoria? Acho isso porque vejo que mesmo o copyleft tem um limite: a obra não pode ser desmantelada. No final da autora não seria bacana tb acabar com a obra?
3.Vc e Danilo sabem como eu gosto de Hakim bay e essa onda de anarquistas das mídias, mas fico hiper desconfiada com editoras (e olhe que eu compro tudo) que publicam estes livros e os vendem. Se ainda podem ser vendidos (a preços iguais a qq livro) será que são mesm otextos anarquistas?
4. Sugiro que leia (leiam) o Ensaio como Forma de Theodor Adorno, no qual ele fala sobre a lei do ensaio: a do despropósito.
beijos
Marcia

Lourdes disse...

querido Fernando,
Além de um tremendo compositor,poeta,instrumentista,arranjador,artista plástico, você vem se revelando também ,através de suas reflexões teóricas e metodológicas que surgem das relações entre história,música.canção popular,música urbana,Hip-hop - um musicólogo.Confesso que não tenho o conhecimento necessário para participar dessas reflexões tão interessantes no seu blog.Mas estarei sempre passando por lá e lendo você,o que certamente irá me acrescentar muito e me estimular,quem sabe, a ler mais os autores que escreveram e que escrevem sobre a nossa música.
Beijos
Lourdes

André disse...

os mitos nasceram de mentes anônimas. toda a filosofia veio em seguida, com suas escolas, nomes, mestres. Que tal recriarmos a mitologia?

Fernando Chuí disse...

Hum, precisarei de uns dias pra pensar nesses tópicos da Marcia e do Mamé; mas vou esperar a resposta do Mr. D. De qualquer maneira, o fim da obra em função de uma nova mitologia pode ser interessante...

Thiago disse...

Fernando.. bem q vc poderia colocar no youtube, a sua participação no festival da globo..
foi ótimo.. coloca lá..