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quarta-feira, dezembro 13, 2006

Assassinato e Proteção: Um conto

Esta noite eu matei alguém.
Não era alguém que deliberadamente me fazia mal. Nem era sequer uma pessoa má. Tampouco era alguém concretamente, mas uma forma mal sintonizada no universo que se refletia em minha mente sob a imagem de uma pessoa. Esta forma agora se foi como fumaça se dissipando no ar, desenhando imagens que valem menos pelo que se revela e mais pelo que dela desaparece.
É preciso aprender a matar as pessoas. No terreno simbólico, é claro, não quero evidentemente incitar ninguém a qualquer ato de insanidade criminosa.
Mas sei que matar alguém sempre soa como algo terrível; e realmente o é.
Todavia, é como eu vi noutro dia em um filme em que o protagonista explicava sua serenidade ao outro personagem após um assassinato: “a coisa mais interessante de se fazer algo realmente terrível é que, depois de pouco tempo, você não se lembra de absolutamente nada”. Muitas vezes, é preciso fazê-lo - ser o agente de nossa própria leveza.
Praticamente todas as mágoas que guardamos de nossa história assumem alguma personificação, e o problema de não matar estas pessoas é que assim não conseguimos evitar o passado correndo nas veias a sua substância venenosa. Esta, sim, é uma condição horrível. Amigos de infância, professores, colegas de trabalho, namoradas, maridos, pais. Até mesmo com pessoas já mortas é recomendável o assassinato; nesses casos o cuidado com a precisão deve ser redobrado. Muitas destas figuras tornam-se, por vezes sem que a gente sequer desconfie, os nossos fantasmas pessoais; nos perseguem em todas as camadas do inconsciente, nos afetam em todos os setores da vida cotidiana.
(Há que se constatar que com certas pessoas torna-se inviável esta medida. Casos extremos como estupradores, pais suicidas e outras maldições; pessoas que, por terem outrora nos ferido tão gravemente, tornam-se proprietárias de certas regiões de nosso afeto, impossíveis de serem mortas por já nos terem matado. Já são nossos sócios constituintes, é fato, vêm pra todas as reuniões, têm influência em todas as decisões)
Falo de causar a morte de malditos menores, mas não menos letais. Eu poderia evitar palavras associadas à morte, usar de eufemismos como esquecimento, perdão, passagem a outro nível, mas qualquer uma delas soaria somente como paliativos diante do grande mal que seria deixá-los viver em nosso mundo. O ato consciente de agir e decretar a morte de alguém é indispensável em muitos momentos da vida.
O tempo é uma entidade que não abriga dois níveis desarmonizados, ou seja, uma pessoa do passado que teima em ocupar o mesmo espaço do presente. Gera uma espécie de curto-circuito afetivo, nos confunde os sentimentos. Para elas, só o cadafalso.
Quando eu digo que é preciso aprender a matar alguém é porque matar alguém é realmente um ato que deve ser realizado com toda a perícia e propriedade. Senão, acontece como nos filmes onde os vilões deixam os heróis para morrerem em situações hipoteticamente impossíveis de se sobreviver, mas eis que hipoteticamente não é efetivamente, e eles escapam sãos a salvos. Não se pode esquecer que nesse filme nós precisamos exercer o papel de um competente carrasco. A pior coisa de não se saber matar alguém é que esta pessoa permanece viva da pior maneira possível: como um morto-vivo.
Assombrando nossas casas, arrastando correntes em nosso inconsciente. Como quando se ataca diretamente aquele em quem se acredita estar nosso inimigo real. Ledo engano atacar a carne, eles são espíritos; nos castigam dentro da alma, cenário desta operação. Os fantasmas nos habitam sob muitos disfarces; a culpa é um deles, muito comum. A culpa não é comum nas pessoas que sabem assassinar seus carrascos, mas é muito presente naqueles que não souberam dar fim a seus corpos. Esses fantasmas também costumam surgir sob o capuz da vergonha, outro instrumento da fantasmagoria. O bom matador não tem vergonha, pois acredita na sina; a vergonha é sinal de crime imperfeito.
Dirão alguns que todo morto merece ser enterrado, uma pedra em cima e uma epígrafe para que não mais se levantem de lá após o ritual. Discordo, acho que não se deve enterrar um morto, pois isto seria uma boa maneira de se criar um cenário de terror; eles se levantam das tumbas cheios de terra no meio da noite. Enterrar significa deixar espaço para mágoas, rituais funebres, ossos, vermes, raiva, ódio reincidido, além da sensação de incompetência, de não ter feito a coisa direito. Fogo neles: queima-se o espírito, se possível com um fósforo de hotel barato, para nunca mais se lembrar de seu nome nem de nada. Com o espírito devem ser consumidas as cartas, destruídas as mensagens de e-mail, reduzido a cinzas o número no telefone celular. O bom assassino não deixa vestígios, muito menos para si próprio. O melhor da morte da pessoa é fazê-la não ter existido jamais.
Esta noite eu matei alguém. Fiz isto por uma única razão: eu decidi fazê-lo. Por vezes, a única etapa que nos separa desta alforria é a simples decisão. Mas para isso é preciso estar atento ao timing, o momento de maturação dos elementos que se manifestam à nossa volta. Há a hora certa. Pois quando se mata alguém, não há retorno.
Este você não volta jamais a maldizer, a repelir, a desejar o mal - mesmo frágil, à sua frente, você sequer o verá. Matá-lo é uma forma de altruísmo.
Extirpar a vida daquele que nos assombra é protegê-lo de nós mesmos.

(imagem: desenho-texto de Chuí)

9 comentários:

Rafaela disse...

Ai, fiquei curiosa por saber quem vc matou! rsrs
E gostei da lição! Tentarei pô-la em prática (que é o mais difícil). Pois há, ainda, alguns fantasmas vivos em mim...
Adorei o tom do texto! Imperativo, mas solícito.
Nossa, como eu aprendo, viu?!

beijos!

Yone disse...

CHUÍ,

Gostei particularmente desse conto. Você é muito sensível para escrever. Concordo plenamente com você. Bom luto. Beijo

Yone

marcia disse...

Fer,
quando li pela primeira vez, nem lembrei de Crime e Castigo, mas de Memórias do Subsolo.
Este seu texto toca em agonias muito primitivas. Me fez certo mal. Se não der para concordar que a literatura é a realização do mal como dizia Bataille, é certo que literatura é coragem.
Parabéns.

marcia disse...

ah, antes que não fique claro: me fez mal no melhor sentido niilista e russo!!!

Fernando Chuí disse...

Heh, "fazer mal" é curioso em seus sentidos. Me lembrou daquela coisa que se falava antigamente - "não vá fazer mal àquela moça...senão tem de casar!"
Será que Dostoiévski fez mal a muita gente?...

Urânia disse...

Fernando,
Depois de ler teus escritos, nem sei como me atrevo a te escrever. Mas preciso dizer como foi bom ler. Algumas coisas me fizeram lembrar de uma frase do Quintana, algo como "se te agrada o que lês, toma porque é teu". Porque escreves algumas coisas do que sinto.
Bueno, o que quero dizer é que acho que sentir coisas parecidas com o que os outros sentem não é difícil. Botar no papel é talento.
Abraços,
Urânia

Marcos disse...

Muito bom !

E li tbém o post do hiper-pop. Uma beleza tbém !

Abraço

Fernando Chuí disse...

Que lindas palavras , Urânia! E Marcos, obrigadão, deixe seu e-mail pra resposta! Beijos do Chuí

Mariana Rotili disse...

Sobra-me medo e falta-me coragem.
Penso não ser uma boa matadora.

Bons mesmo são teus escritos.


Beijo.