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quinta-feira, dezembro 21, 2006

Herói é humano


Quando eu era criança eu passava todo o tempo desenhando super-heróis.
Eu fazia assinatura das revistinhas da Marvel e aguardava ansioso pelos gibis SuperaventurasMarvel, Homem-Aranha, Heróis da TV e Hulk, além de comprar na banca de jornal as séries do Batman e do Super-homem.
Para quem não é formado por esta literatura, é preciso explicar de que se trata. É a arte seqüencial, definição do gênio Will Eisner, que flerta com o infantil e com o adulto ao mesmo tempo.
Esteticamente, as HQs de super-heróis também têm algo de paradoxal. Por um lado, elas se propõem a uma seriedade digna de uma Odisséia, e, por outro, apresentam-se com desenhos cheios de balõezinhos que tornam quase impossível a tarefa de se escapar do kitch. Seus desenhistas trabalham as figuras todas em proporções realistas e, não obstante, não conseguem escapar da sua caricatura de nanquim. Com o advento das graphic novels dos anos 80, criou-se uma legenda de que então as HQs finalmente assumiriam seu posto de arte de boa qualidade. Todavia, não acho que a tal qualidade estética da ditas HQs adultas fossem o maior legado das histórias de super-heróis. O cinema, sim, resgatou delas a sua essência, algo como o kitch-cult.
Toda HQ de super-heróis retrabalha, como evidencia o próprio nome, o mito do herói.
Recorro - mais uma vez - a Joseph Campbell que diferenciava as duas figuras públicas: o herói (figura pública antiga); e a celebridade (a figura pública moderna). Enquanto a celebridade se populariza por viver para si mesma, o herói assim se tornava por viver servindo sua comunidade. Todo super-herói deve atravessar alguma via crucis. Gandhi disse que, quanto maior nosso sacrifício, maior será nossa conquista. Como Hércules, como Batman.
Por trabalharem sob uma narrativa progressiva e cíclica, e serem tecnicamente mais ambiciosas do que as outras modalidades de HQs, as histórias de super-heróis se deslocaram de seu meio de revistas e jornais, aproximando-se muito mais das séries de TV e do cinema, mas sem perder seu mito pop. Talvez por isto as melhores coisas que o cinema comercial produz ultimamente sejam as adaptações das HQs de super-heróis.
O cinema nasceu comercial e, a despeito de uma série de diretores que conseguiram desenvolver o chamado cinema de arte, de Bergman e Fellini a Peter Greenaway e Almodóvar, é disto que se trata, uma imensa indústria de entretenimento. Não acho esta definição algo absolutamente depreciativo. Recordo-me de um gibi em que o Surfista Prateado dizia aos seres humanos: "A vida é imensa e complexa - acontece dentro e à margem dela mesma."
Toda HQ traz em si alguma coisa de industrial e marginal, ao mesmo tempo e sob o mesmo aspecto. Os filmes de super-herói, ainda que transpondo essa cultura para a grande e famigerada indústria, realizam uma outra façanha, que provavelmente sem eles não ocorreria: a formação de novas mitologias reafirmando os mesmos ideais heróicos da antigüidade ao homem moderno. Fellini afirmou uma vez que Stan Lee, o criador da Marvel e de diversos heróis populares, era o Homero do quadrinhos.
Toda boa história de super-herói é uma história de exclusão social. Homem-Aranha é um Nerd, Hulk é um monstro amaldiçoado, Demolidor é um deficiente, os X-Men são indivíduos excepcionais, Batman é um órfão, Super-Homem é um alenígena expatriados. São todos símbolos da solidão, da sobrevivência e da abnegação humana.
Não se ama um herói pelos seus poderes, mas pela sua dor. Nossos olhos podem até se voltar a eles por suas habilidades fantásticas, mas é na humanidade que eles crescem dentro do gosto popular.
(Os super-heróis que não sofrem ou simplesmente trabalham para o sistema vigente tendem a se tornar meio babacas, como o Tocha-Humana ou o Capitão América)
O cinema de Hollywood tem a função de nos mostrar até onde alcança o inconsciente coletivo, o topo do lugar-comum, aquilo que a sociedade espera dela mesma (o que, às vezes, nos traz boas surpresas); e os super-heróis, hoje superstars, são mitos oriundos de experiências feitas em laboratórios do submundo, a velha sub-arte das HQs, a santidade surgida do lixo. Hulk e Homem-Aranha são seres que criticam a inconseqüência da ciência, com sua energia atômica e suas experiências genéticas. Os X-Men nos advertem para a educação inclusiva. Super-homem é aquele que mais se aproxima de Jesus Cristo - e por isto talvez seja o mais popular de todos, mais popular do que os Beatles, que um dia disseram serem mais populares que Ele - em seu sacrifício solitário em defesa dos seres humanos, mas também tem algo de Aquiles, com seu calcanhar que é a kriptonita. Humano e super-herói, como Gandhi.
Não houve nenhuma literatura que tenha me marcado mais do que essas histórias em quadrinhos. Eu raramente as leio hoje em dia, mas quando assisto a bons filmes de super-heróis eu me lembro que todos temos um lado ingênuo e bom, que pode ser capaz de suportar a dor da solidão por um princípio.
Eu sempre me enterneço ao ver os X-Men, o Homem-Aranha ou o Super-Homem. Vejo diversas vezes, sei os diálogos. É verdade que há, entre esses filmes, alguns absolutamente lastimáveis; contudo, os filmes de super-heróis são a prova da sobrevivência deste mito em meio ao glamour e a indústria de "celebridades-miojo". Parafraseando o Surfista Prateado (e Deus queira que seja bem retratado nas telas...), é a negação do sistema, trazido dentro e à margem de sua grande indústria.
Tenho a raiva do Hulk, o mau-humor do Wolverine, a solidão do Super-Homem. Temos a tendência a atribuir nossos erros e defeitos à humanidade que nos comporta.
No entanto, vejo esses filmes e lembro-me que, ainda hoje, herói é humano.

(foto: desenho feito sobre quadro negro na sala do Menezes, meu pai; à frente, nós- 1987)

14 comentários:

Yone disse...

Caro Chuí,
Nada melhor que esta sua mensagem para terminar o ano. Este é você: herói humano herói. Sua doçura e delicadeza pela alma poeta nesse mundo quase desumano te faz tão especial.
Neste ano, você está entre as lembranças mais queridas que encontrei. Agradeço-lhe muito a amizade e o carinho, é uma honra e uma enorme alegria poder ser sua amiga.
Obrigada pelo CD enviado pelo Hamer (ele lembrou de entregar), adorei, vou chorar muito ouvindo minha segunda música predileta do seu repertório: Assassinato ao cair da tarde.
Que em 2007 possamos nos ver e "cantar" muito mais vezes. Grande beijo para você, Márcia, Lulu, André, seu pai e toda sua família.
Obrigada por tudo.

ROBERTA MARTINS disse...

Oi Chú!!!beleza de recorte! Ó só, manda um CD para mim?...rs... Adoraria conhecer sua música e repassar para meus amigos no nosso próximo sarau. Um abraço grande e boas festas.

Harumi disse...

Adorei a foto!!!

Cibele disse...

Fernando,
Fui apresentada ao seu trabalho a pouco tempo,mas já me considero fã de suas músicas, desenhos e textos.
Gostei muito desse último em especial, pois me fez ver que todos nós temos um pouco desses heróis, no contexto de que herói seja "homem admirável por feitos e qualidades nobres".Claro que com super-poderes humanizados,porém com a coragem de viver e enfrentar o caos que nos cerca dia-a-dia.
Beijos!

Fernando Chuí disse...

Que bacana, Cibele, obrigadão. Depóis deixe seu e-mail pra retorno, heim?
Beijos!

rafa disse...

Essa é a Ci! rs

Eu nunca consegui me 'ver' em nenhum super-herói... talvez seja por isso (ou não) q eu não goste. Acho tão... Paulo Coelho. Quase uma seringa de conteúdo tóxico, em mãos comerciais, sendo forçada a se injetar e infiltrar o conteúdo em nossas veias...
Tenho horror ao comum!

rafa disse...

Mas o mais legal é q sempre me identifico com teus textos! =)

beijo!

Fernando Chuí disse...

Rafaela, entendo a resistência com os enlatados de Hollywood, mas acho que, às vezes, aquilo que parece tão vulgar dentro do mercado oculta uma verdade espantosa...
Beijos!

Anônimo disse...

Quem entende o funcionamento das mitologias que têm uma forte carga de antropomorfismo, como a grega que mais conhecemos,entende o papel e a função de um herói.Um herói não é jamais apenas uma invenção da dominação e do poder (claro que Zeus, Hermes, Apolo, Dyonisos, e outros eram personificações que serviam aos poderes estabelecidos, como hj Superman, Batman, e tantos mais), mas é fato que o herói carrega, sobretudo, a intenção e o anseio de um ser humano que, em seu tempo, gostaria de ser melhor do que é. Gosto dos heróis modernos, eles são cheios da dor de existir que conhecemos tão bem nestes tempos sombrios.
Quando eu era menina me chamavam de Sansão, mas eu queria mesmo era ser o Ultraman...

Menezes disse...

Li e gostei, mas sempre atento para a casca de banana no chão, já que herói é humano.
Aliás, eu que não sou herói (faltou a visão do infravermelho) tropecei ontem no escuro da madrugada e caí com a mão sobre um copo...
Manhã nascendo e eu levando pontos no PS!

Bjos do Pá

Patricia disse...

Muito legal a foto! Um ótimo 2007 pra vocês!!!!!
Patricia (não sei preencher o email)

Hamer disse...

Belo texto!!! Só não precisava colocar o Superman acima dos Beatles,né? Afinal o próprio Joseph Campbell definiu o John Lennon como herói, lembra? Hehehe...
Abraços do brou,

Hamer

Anônimo disse...

Pois é FÊ, ninguém nos avisou da solidão do herói, de seu silêncio triste...bjos
LArissa

Anônimo disse...

Bela fotografia heim...vc era um rapazinho bem jeitosinho...
...ainda é...rs. Uma verdadeira aula o seu texto.Parabéns!
Ao seu Pai parabéns por ter um filho tão lindo, sensível e que desenha e escreve tão bem...encantada com este blog.Me identifico muito com os seus textos...Ao invés de ir a terapia leio o blog do chui...vou continuar lendo. ABS!