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domingo, julho 22, 2007

A Invenção da Alma


Certa vez, um amontoado de átomos
adquiriu inexplicavelmente o desejo
de ser mais do que matéria em movimento.
.
O criador, curioso ao perceber tal rebeldia
submergindo da luz e do caos,
decidiu, quase em um tom lúdico,
enviar àquela manifestação sete fadas
para lhe presentearem com dotes que o auxiliassem
na engenharia daquele novo e improvável universo.
.
Voz, a primeira fada,
voou por entre os orifícios da cabeça
e soprou-lhe o dom de inventar sentidos próprios
nos sons que era capaz de emitir.
.
Mãos, a segunda fada,
atravessou seus poros até atingir seus ossos,
seguindo os braços até as suas extremidades
e lá deixou a habilidade de transformar as formas à sua volta
apenas pelo contato com seus dedos.
.
Paixão, a terceira fada,
rasgou-lhe o peito para lhe enfiar sua adaga
que continha o poder de se entorpecer e se entregar à cegueira
diante de um outro ser.
.
Conhecimento, a quarta fada,
nadou por toda a sua carne
espalhando por todo o corpo
a capacidade de salvar a sua história
por meio de escritos, imagens e objetos.
.
Política, a quinta fada,
mergulhou em seu sangue
e lhe inoculou a aptidão de se organizar socialmente
em sistemas, classes e disciplinas.
.
Karma, a sexta fada
(que também respondia pelo nome de Neurose),
escorregou pelo couro cabeludo para lhe derramar
a capacidade de lutar contra a própria felicidade.
.
Dor, a sétima e última fada,
beijou seus olhos
e lhe ofertou a capacidade de chorar.
.
Feliz com seu feito, o criador agradeceu
e despediu-se das fadas.
Porém, temeroso de ser alcançado
pelos poderes concedidos àquela nova criatura,
o criador lançou àquele ser um feitiço:
Não teria jamais a certeza de coisa alguma.
.
Feito isto, pôs-se a dormir, invisível.
.
E aquele ser que acordava
e já não aceitava mais a sua pureza atômica,
passava seus dias a inventar, tal qual vício ou peste,
novas estruturas lingüísticas, estéticas, políticas e tecnológicas
para a dominação de seu povo e da natureza à sua volta.
Estas que, via de regra,
sempre geravam indefectíveis desastres
faziam-no passar todo o tempo buscando novas invenções
para consertar os próprios erros de outrora.
.
E mesmo se multiplicando em ritmo absurdamente acelerado,
o ser inventou a solidão.
Sentia-se agora tão só
que inventou em si um novo talento,
o dom de inventar deuses.
.
Da voz, compôs uma reza.
Das mãos, moldou o altar.
Da paixão, lançou-se ao culto.
Do conhecimento e da política, teceu a religião.
Da neurose, fez a culpa, a vergonha e o castigo.
.
O ser derramou assim
sobre a terra azul e seca,
de alegria e melancolia,
a primeira e doída lágrima,
junto à primeira prece.
.
.
Elas, que aí estão;
Elas, que não têm mais fim.
.
.
.
(texto e desenho: Chuí)

11 comentários:

Anônimo disse...

Fernando,
este poema é um baque em nossa mediocridade,
um arroubo de sensibilidade,
uma maravilha!
Indescritivelmenet belo!
Aurora.

Luiza disse...

Fernando Chui...apenas as palavra silêncio...comoção e agradecimento.
Luiza

Anônimo disse...

O poema é belíssimo e, numa época como esta, ainda mais triste...

Pati disse...

parabéns pelo blog; os poemas merecem ser logo publicados em livro. e aqueles contos também!
Pati

menezes disse...

Seu mito reinventa um mito:

A complexidade, que conduz a evolução, gerou um nó existencial ao promover a consciência, que é conhecimento e culpa. Isso é o que eu penso ser a invenção da alma, e não seria o que os escritores da bíblia chamaram de pecado original?

rafaela disse...

"a complexidade(...) gerou um nó existencial ao promover a consciência."

disse tudo!
belíssimo! sem mais...

beijos!

Fernando Chuí disse...

É verdade, o pecado original deve ser o nascimento da alma...

Anônimo disse...

putz, que loco, meu..

hamer nastasy disse...

Vixe Maria! Arretado que só!

Anônimo disse...

Oi Fernando,
De que planeta você veio?
Que delícia a sua poesia!
Me tocou profundamente.
Tu tens algo publicado?
Parabéns!

Fernando Chuí disse...

Anônimo,
Obrigado pelas palavras tão boas.
Publiquei apenas aqui meus escritos, mas quem sabe um dia...
Deixe depois seu nome e e-mail para retorno, tá?
Beijos,
Chuí