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sábado, março 03, 2007
As Caixas
O artista não cabe em uma caixa.
Mas como saber onde ele se encaixa
se é dentro de caixas que ele é vendido?
Reluta, transgride, por fim concorda
(seu coração sempre transborda).
O artista se esforça a caber na caixa,
pois há no planeta uma legenda:
"Quem mora aqui e não está à venda
não tira a venda de si".
E faz do diabo um retrato belo.
E faz-se refúgio ou fugitivo.
E faz, na ferida do mundo,
um mágico lenitivo.
E nesse momento de desilusão,
ele reencontra o seu lugar.
Mas o mundo é o mundo
porque dá voltas.
Se ultrapassa e se reinventa.
Que ironia, o artista
que antes não se encaixotava
por um princípio, um ideal,
agora não entra mais nessa feira
pois lhe comprar já não há quem queira.
O mesmo artista retorna agora
ao posto antigo, marginal,
arquitetando suas novas caixas
pra se vender essencial.
O infeliz não está à venda,
mas se desdobra a ser comprado.
E nesse momento de extravio,
ele reencontra o seu lugar.
Produz agora porque precisa.
Produz da lógica a revelia.
Produz, à noite, um outro dia.
E se expõe novamente a revoluções.
Vive a sonhar-se em muitas caixas
bem bonitas, aos borbotões.
No ar, na madeira, no aço
ou no cyberespaço
Lança as caixas ao vão
feito bumerangue.
Quer distribuir,
autógrafos em cada uma delas,
com seu próprio sangue.
E nesse momento de ilusão,
ele reencontra o seu lugar.
(Ilustração de "Indecifraveu" de Chuí - work in progress)
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15 comentários:
Lindo Chuí!
A sua arte vem pelo vento!;)
Abraços,
Lara
Querido Chuí,
Suas belas reflexões transcendem seu objetivo. Quando fala da pressão sofrida pelo artista nesse poema, me faz refletir o quanto todos vivemos pressionados nesse mundo atual, globalizado, quase insano.
É bom começar a semana assim, pensando. Grande beijo
Yone
Gostei dessa reflexao. Um abraço. Liev.
Verdade, Yone; acho que isto não são agruras particulares de quem lida com a arte, mas do mundo todo de hoje...
Beijos!
adorei isso. vou guardar pra "pensar fora da caixa" e pra, depois, voltar a "penar dentro dela" ....
Faernado
Nas asas murchas do anjo, nas linhas e entrelinhas do poema-prosa, há uma duríssima compreensão do des-lugar do artista. isso já foi tristemente percebido, há mais tempo, por Walter Benjamin e depois por Hanna Arendt, mas dito por um artista tem um sabor atual, amargo-vida...
Para falar de sabores melhores, aproveito para dizer que foi um grande privilégio ouvir a canja que você deu, no sábado. Acho que mais gente mereceria ter ouvido...
Bjos.
Menezes
Amigo Fer,
li que Louise Bourgeois sustentava: "A arte é uma garantia de sanidade."
Nessa caixa, o lugar onde o artista (ou não) se mantém (ou se 'camufla'), deve haver uma janela, uma abertura, uma 'Fresta'... e é por essa última que vejo: evasivo, porém verdadeiro, o artista q tu és! Aquele q muito revela sem se revelar...
Parabéns! Adorei!
beijos!
Adorei o poema e todos estes comentários!.
Amarilis.
Adorei o poema e todos estes comentários!.
Amarilis.
Ei Chuí!
Adorei o poema!;)
Bjos,
Luiza
Fernando querido,
lindíssimo poema!
Não consigo nos ver "encaixotados".
bjs
Lourdes
MARAVILHOSO, FÊ!!! Mais uma vez, parabéns. Agora faço um convite pra você conhecer o meu humilde blog também: http://quer-namorar-comigo.blogspot.com
Beijo
Babi
[i]Oiii Fernando!!!
Td bom??
Eu lhe enviei um e-mail com o titulö "A musica Tubaina" ....
espero que vc me responda =]
axei seu blog e adoreii =D
vi muitas coisas legais aquiii
parabens
bjusss
Nanda, eu recebi, obrigado!
Já lhe respondo, beijos!
O melhor é não abir a caixa, adivinhar seu conteúdo. bjs
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