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domingo, setembro 23, 2007

Mila - Cordel Urbano IV


Vou lhes contar uma história agora
(ao menos é assim como eu me lembro)
de um avião que colide num prédio.
E olha, não é 11 de setembro.
.
E a cidade põe-se em alvoroço
diante da catástrofe terrível,
pois que ninguém é capaz de aceitar
evento assim tão incompreensível.
.
O corpo de bombeiros chega logo,
mas sequer acham um sobrevivente.
O edifício em chamas vira agora
o espetáculo mais comovente.
.
Mas num espanto, grita um dos bombeiros:
"Meu Deus do céu, que coisa mais estranha!"
Os outros vêm e dele se aproximam
pra ver aquela loucura tamanha.
.
Deitada ao colo de uma das vítimas
há uma boneca qual assombração -
feita de pano e louça ela não tem
queimados, nem sequer um arranhão.
.
Em sites, revistas, TV, jornais
torna-se logo assunto comovente.
No Youtube há mil declarações
sobre a boneca azul sobrevivente.
.
Eu sei que pode parecer mentira
mas é verdade sim, peço que escute,
em poucas horas já tem cem mil fãs
e cem comunidades no orkut.
.
Já pedem sua guarda em Brasília,
mas a população indignada,
como em um show, faz fila em frente às ruínas
e exige que ela seja ali deixada.
.
E toda vez que alguém se aproxima
as coisas mais incríveis acontecem.
As dores curam e os cegos vêem.
Tumores, mágoas já desaparecem.
.
E dos milagres que aqui se dão
na Casa Branca, um assessor já fala
ao presidente americano que
lhe dá a carta branca pra buscá-la.
.
Mas antes que isso possa acontecer
o Vaticano pede a sua guarda.
Diz que a boneca deve ir a Roma
para em dias ser canonizada.
.
E o povo se revolta com a disputa.
Sai pelas ruas e agora canta
um coro de protesto e proteção:
"Jamais nos tirarão a nossa santa!"
.
E eis que, quase guerra declarada,
a bonequinha então desaparece.
Caos e revolta generalizada.
E ninguém viu nem sabe o que acontece.
.
O mundo agora reclama sua volta.
Um deputado faz greve de fome.
Mas já não há sequer algum sinal
daquela santa que nem tem um nome.
.
E o prefeito decreta feriado.
Envia até a polícia militar
pra descobrir o paradeiro dela.
O povo todo põe-se a procurar.
.
Após uma semana de procura,
a bonequinha azul é encontrada
numa menina agarrada em si
dormindo só, à beira da calçada.
.
Chorando de tristeza ela segura
aquela linda boneca de louça,
gritando "Mila! Mila, não me deixe!"
mas já não há ninguém ali que a ouça.
.
E a boneca que agora tem nome
lhe é tirada à força pelo povo
que a carrega numa passeata
e já celebra a salvação de novo.
.
Mas um agora tenta lhe beijar
e o povo nas ruas se acotovela.
Há gritaria e pisoteamento
para tentarem chegar perto dela.
.
E vejam só, já não há mais milagres.
Há cada vez mais cegos, não há mágica.
E a população, que antes cantava,
se envergonha com a cena trágica:
.
É que ao tirarem da menina a santa,
ela acabou também pisoteada.
Um vira-lata lambe então seu sangue,
ao lado da sarjeta, desmaiada.
.
E o povo então, com dor na consciência,
devolve a ela a boneca divina.
De mão em mão a boneca é passada
até chegar ao colo da menina.
.
Assim que ela é tocada pela santa,
seus olhos se abrem de felicidade:
"Oh, minha Mila, que bom que você
voltou pra mim, pra nossa amizade!"
.
E a cidade volta ao caos normal
como se esta fosse a sua sina.
Mas toda noite Mila é protegida
pelo calor do corpo da menina.
.
.
(Texto e desenho de Chuí)

8 comentários:

guappo disse...

mila...
muito bom!

Luiza disse...

Chui, você é um inventeiro mesmo e não um inventador e nem um invencionista. Inventeiro é aquele que fabrica invenção assim, como quem faz pão.
A imagem da boneca é atraente, mas a leitura da história traz um medo dela...
adorei!
luiza

Dinaura disse...

Olá, querido Fernando,

Suas mensagens são "Milas" milagrosas que nos salvam da mesmice cotidiana.

Obrigada !

Dinaura

Yone disse...

É muito bom começar o dia lendo e refletindo com tão bela poesia onde vejo e sinto sua alma de poeta. Beijo

Yone

Menezes disse...

Assisti a um milagre assim, nos anos de 1950. Num desatre junto de Congonhas, morreram todos, do avião e da casa sobre a qual caiu.
Sobrou uma imagem de Nsa.Sra. Aparecida, de pé, intocada, sobre uma cômoda num canto da sala destruída. Milagre mais besta!

hamer nastasy disse...

Que pancada!!! Tô satisfeito que pararam um pouco de falar desse desastre. Fico p... com tantas tentativas de explicação: não podemos apenas ficar estupefatos? A poesia alcança isto e traduz melhor que os noticiários. Gosto da sua cobertura jornalística (como a Visita do Diabo). Informa menos mas fala mais. Abç.

Anônimo disse...

Muito legal o poema e o desenho também, parabvéns!
Sérgio

rafaela disse...

Meu Deus!!! Muito bom o poema!
E, infelizmente, a cegueira permanece...

Que estranho é o humano
Melhor seria ser de pano.

beijos!