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sexta-feira, setembro 14, 2007

6 E MEIA


Quem jamais houvesse habitado, ou mesmo visto a metrópole (este estranho organismo repleto de seres correndo contra o tempo - como se o tempo fosse um poderoso vilão), por certo estranharia esses enigmáticos buracos nas laterais das calçadas.
Ao ouvir a alcunha de “boca-de-lobo”, talvez imaginasse um ser humano sendo engolido pela fera, agonizando com os braços e a cabeça ainda para fora. Quem sabe no instante seguinte vislumbrasse naquela boca outro dono, quiçá um rato a comer um pedaço de queijo.
Esse rato agora voa, é um morcego exibindo suas presas com sangue (sem dúvida sangue humano; pois que não ainda não se tem notícia do sangue da cidade). Fidel e Che, lado a lado, aguardam firmemente a próxima enchente para se entorpecerem com os nossos detritos tóxicos. Um pirata que não está só. Com apenas um olho nos vê e tem ao lado o papagaio que lhe conta piadas sobre nosso patético cotidiano. E ainda outra face que vem tragar, não o cigarro em sua mão, mas nosso próprio espírito citadino encarnado (ou empedrado?) e mau-encarado, nos baforando de volta a nossa própria poluição.
Surpreendam-se!
Estas imagens não surgiram de mentes fantasiosas de outra era ou de outro planeta, mas de jovens artistas oriundos da própria cena metropolitana.
O Projeto 6 E MEIA, dos artistas urbanos Anderson Augusto e Leonardo Delafuente, desafia a estética caótica da urbis com uma estética urbana do caos, e renova - ao trocar o suporte dos muros pelos bueiros – a própria escola do Grafite da qual fazem parte, atribuindo, com estilos próprios para além dos cânones do movimento, vida e graça a essas bocas famintas da metrópole.
Como no contundente trabalho feito sobre a tampa de concreto arrebentada onde a pintura nos mostra dentes humanos arrancados por sabe-se lá qual surra ou catástrofe urbana sofrida. 6 E MEIA nos mostra que são nossos os órgãos fraturados quando a cidade se espatifa em si.
Há nessas obras algo para além de cômico. Para além de belo. Crítico e, ao mesmo tempo, leve.
Parem tudo e olhem pra Ela! A boca do lixo não cala, faz-nos rir de nós mesmos: Refletirmo-nos - qual espelho a nos ironizar e salvar. Em plena hora do rush, o vilão agora se assombra. O relógio urbano bate 6 E MEIA em qualquer parte.
É hora de matar o tempo – com o veneno da arte.
http://www.6emeia.com/

(Texto de Chuí para a exposição de fotos do projeto 6EMEIA de Leonardo Delafuente e Anderson Augusto/ foto: intervenção do grupo 6EMEIA)

9 comentários:

hamer nastasy disse...

Oba! Fiz o primeiro comentário!
Belo texto!
A arte também pode ser pensada como um modo de assimilarmos de modo mais doce o que há de árido em nós mesmos, nossas bocas de lobo.
Abraços,

Hamer

rafaela disse...

Que criatividade, putz!!!

Bom seria, também, se os fumantes fossem todos assim: 'desenhos' - ainda que não fossem arte!
(Menos CFC's seriam liberados para a contribuição do aumento do - outro - grande buraco, né?!)

Beso, Fer!
Adorei!

Urânia disse...

Fernando,

Fico constrangida de perguntar, porque já sei do que és capaz, mas quero saber se desses shows tem CD. Ou DVD. Ou se o Sul está nos planos de vocês.

Adorei o trabalho do 6EMEIA.

Grande abraço,

Urânia

Yone disse...

Oi Chuí, mais uma vez não consegui te ver cantar, que pena, sei que perdi muito por isso. Mas é como o Projeto 6emeia diz, estamos sendo tragados pelo concreto, pela urbis. Adorei esse grafite, você sabe onde fica? Beijo

Helder Hortta disse...

muita criatividade e muita força tem esse texto

parabens

clarita disse...

fe, que legal esse projeto!
obrigada pelo comentário no blog, também me emocionou.

Beijo grandao
Lu

Leonardo disse...

meu, ligou uma reporter da espanha q citou o teu nome.
fez uma entrevista sobre os bueiros.
legal ne? teu blog repercutiu bem!
parabens!
e valeu!

Anônimo disse...

Olá!

Temos interesse em grafitar uma parede e gostaríamos de saber se vcs fazerm esse trabalho e conversar sobre valores.
Por favor entre em contato.
Tel. 50521569
Patrícia

edna disse...

Olá,
moro na vila madalena e em frente a minha casa existem três bueiros, o que acham de dar uma cara nova à eles.
Se puderem, façam contato: alencar.edna@gmail.com