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quarta-feira, setembro 27, 2006

A Vida Secreta dos Robôs


Naquela noite a jovem robôzinha acordou histérica. Seus microcircuitos destilavam pelas frestas de seu corpo metálico uma substância gelatinosa e corrosiva.
Seu estado emocional se explicava pelo sonho que tivera de madrugada: seu namorado retirava a chapa metálica que cobria seu peito e lhe confessava não acreditar mais no amor; seu coração de cobre, que antes pulsava por ela e fazia piscar uma luz vermelha, agora era somente a certeza de uma sombra.
Não havia nada que ela odiasse mais do que a fé negativa.
O sonho vinha em sua mente como vêm todos os sonhos para aqueles que acordam suados no meio da noite, os velhos fragmentos de nuvens enredados por imagens atemporais dissipando-se na brancura do esquecimento.
Contra fé negativa, vírus incrivelmente disseminado na rede onde circulava, ela possuía mecanismos de alerta e defesa bastante sofisticados; em suas placas internas, tinha sistemas que, ao serem ativados, simplesmente transformavam qualquer forma de incredulidade em vaga lembrança de um sonho ruim.
Limpou o ventre, coçou os olhos, olhou a foto dele na cabeceira e, escondendo-se por debaixo das cobertas, desenhou um riso mínimo no canto da boca.
Antes de pegar novamente no sono, já não sabia se já havia efetivamente acionado seu circuito de segurança ou se realmente tinha sonhado com aquilo.
Mas quem se importava?
Ela sabia que toda descrença era, na verdade, crença.
Mas nenhuma crença era descrença.

Texto e desenho: Fernando Chuí

7 comentários:

Hamer disse...

Socorro, já num tô sentindo nada!
Somos da mesma matéria dos sonhos?
No que acreditamos quando não acreditamos em nada, (ou em nda).
Valeu a luz da crença que não se dissolve em descrença!
[]s

Fernando Chuí disse...

Boa, Hamertz. Aliás esse som é legal, poesia da Alice Ruiz, né?

Regina disse...

Olá Nando, tudo bem?
Gostei muito do conto.
Uma máquina tão humana que se torna praticamente irreconhecível pelos humanos máquinas.
Bela percepção!
Beijos
Regina

Maria disse...

O teu blog é muito bom. Me senti aquela robô.Um beijo.

Rafaela disse...

Chuí,
vc me inspirou!!! Reativei meu blog! Marcinha já o conheceu...
Passa lá!

beijo!

Fabio Chui disse...

Belo conto. Lê-lo durante o trabalho foi um grande contraponto ao cotidiano aqui na Alemanha. Foi provavelmente um engenheiro-robô daqui que criou a robozinha tão humana de sua estória.
Abração.

Fernando Chuí disse...

Fabio, sua fala de dentro da área é o desfecho do conto!