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quarta-feira, novembro 15, 2006

Diálogo sobre o Desenho II


Mar,

Desenho. Em português a palavra remete ao verbo na primeira pessoa do singular, em tempo presente. Eu desenho um desenho. A nova configuração cósmica ao alcance da mão. O nascimento da alma a partir do gesto. É como se a maneira que cada pessoa possui para se expressar pela ação de seu corpo pudesse ser concretizada no espaço-tempo de uma folha de papel. Ou na areia, a delineação preguiçosa realizada com um graveto, um dedo ou a mera e efêmera forma registrada pela passagem das ondas do mar. Todo desenho é o legado de um sopro.
O ato de se fazer importante o suficiente para se responsabilizar pela interferência abrupta no território neutro de uma folha de papel sulfite deve ser o primeiro passo para a grande transformação na forma de um ser humano notar o universo ao seu redor.
O desenho é o gen do pensamento; é o que vem antes, a vontade se antecipando ao desejo.
O desenho é para o pensamento estético o que a voz é para a música. O início que, se recalcado, apenas aguarda o eterno retorno.
Deve ser por isso que Leonardo da Vinci, desenhista, músico e cientista, dizia que o desenho era a grande filosofia. A redescoberta desta voz deve vir pelo risco, ou seja, pelo traço. Um desenho só ocorre quando o olho o revela. Desenho(olho), logo existo. É, como disse Oscar Wilde sobre a simplicidade, "o último refúgio do complexo". E o refúgio é o lugar seguro para onde vamos para nos protegermos, para descansarmos e traçarmos os novos planos-mestres. Será o desenho a toca do nosso bom lobo?
Sinto, nesta manifestação tão primordial, o germe da revolução. Penso no que pode haver de político neste ato quase pueril de se registrar em linhas e sombras um desejo.
Pois o desenho, ao contrário do que pensam muitos, não é uma ação das mãos, é uma ação do olho humano. Não é questão de coordenação motora, mas de aprimoramento do olhar. Por isso podemos ver o desenho das colinas, dos prédios, da tempestade, do fogo.
Um bom exemplo é olhar as nuvens. Os bons desenhistas enxergam mais formas do que os maus desenhistas. E não existem os não-desenhistas, apenas os que já se recusam a trabalhar.
Talvez seja esta a tarefa do desenho/desenhista dentro da nova ordem: redescobrir os desenhos inscritos nas entrelinhas da percepção e ajudar o mundo a enxergá-los. Como quando você vê no céu uma grande boca engolindo um dragão branco e mostra ao outro ao seu lado que, após alguns instantes, lhe diz "puxa, não tinha percebido, está ali e é incrível".
Desenhar é gerar metamorfose a partir da visão; a física explica que o olho, no momento em que enxerga o objeto, modifica-o. Observe-se que o desenho não serve ao belo exatamente, mas sobretudo ao corte; todo traço de giz no papel é um corte de gilete na estrutura, um grito silencioso de horror. Como o gesto das palavras ilegais pichadas nos muros urbanos em letras novas. Pois o silêncio não é ausência, mas estratégia.
O olho, ao criar o desenho, se revolta. Toda revolução é a reinvenção do olho humano.
As pessoas desenham cada vez menos, porque a vida vai esfacelando aos poucos todos os instrumentos de reflexão. Como em sua experiência com a faculdade, assim como a minha, a prática institucionalizada pode vir a comprometer o desejo e a sensibilidade. Sou, claro, favorável a novas políticas do desenho e da educação do olho.
Mas agora eu lhe pergunto cruelmente: de que formas o desenho, no mundo das altas e velozes tecnologias, rituais eletrônicos e vistas calejadas, poderia vir a ser estopim para mudança ética e política? Digo, como isto pode hoje tocar efetivamente a sociedade. Ou a sua idéia de revolução não atravessa a estética? Ou a estética, que se pretende política, não atinge sequer a ética?
(Ação política, individual; coletiva, inconsciente.
Desenho, Eu)
Beijos de carvão,

Fer


(imagem: desenho de Fernando Chuí & Marcia Tiburi)

11 comentários:

Beto Tembo disse...

Trabalhando como arte-educador, percebo o momento em que o desenho se distancia da vida das pessoas coincidindo com o processo de alfabetização. De certa forma, o início da escrita nas crianças surge em processo análogo ao do desenho; na realidade, elas chegam a desenhar a letra, antes de escrever - ou ao menos, escrever como os adultos.
As preocupações formais são enormes: o grande esforço de fazer os traços desenhados ficarem o mais parecido possível com os da professora, que são os certos, afinal de contas! Destas linhas concatenadas deve surgir a chamada letra A. Porque se não surgir, houve falha, erro, não-comunicação. Assim pensa a criança, e infelizmente, também a "tia".
Então, vamos aprender a fazer de um mesmo jeito, para que nos comuniquemos de uma forma padronizada, compreensível a todos. É a escrita. Não em seu teor, mas fundamentalmente em sua forma, ela é puro padrão.

Agora há uma contradição gigantesca: se antes a criança desenhava para contar histórias, para representar simbolicamente, de modo bastante pessoal suas vivências, ela agora aprendeu que há outras formas que, quando desenhadas, fazem isto de modo menos implícito, mais direto e objetivo- as letras. Ainda que o que se escreva possa continuar a ser pessoal, individual e intransferível, isto se materializa por meio de formas calcadas em construções coletivas.

Infelizmente, a escrita é trabalhada muito menos poeticamente do que se deveria, e é impossível negar este impacto. Há pouco estímulo para uma escrita mais artística, criativa, inventiva. O modo de contar histórias dos princípios do desenvolvimento do desenho é substituído por uma lógica linear associada ao ato de escrever. O desenho não empresta sua lógica à escrita; ele é praticamente substituído por ela. Parece defasado, torna-se coisa de criança, como se diz.
O que fazer? Que não se condene a escrita por isso. Importa mudar a filosofia - no sentido popular - que vem acoplada a todo este processo de aprendizado. Estimular a criação na escrita. Valorizar o ato de desenhar. Dar ferramentas a quem quiser representar o mundo pelo desenho. Isso seria um enorme passo.
( Neste momento penso na subversão do grafite, que desfaz este processo todo, invertendo toda ordem ao se apropriar da escrita por meio do desenho. Re-torna único o ato de escrever/desenhar )
Desenhar e escrever são atos diferentes de representação. Representar é uma abstração que talvez seja o cerne da humanidade. Penso que não deva haver diferenças hierárquicas entre nossas abstrações, entre desenhar, escrever, filosofar, conversar. Penso que deva haver respeito por suas lógicas específicas de materialização.

Um mundo onde mais pessoas desenham, cantam, dançam, é ao menos um lugar onde há diversidade e escolha a quem faz.

abs

Beto

marcia disse...

O comentário do Beto é perfeito. Eu sou a prova da tese sobre a escola ser destrutiva da expressão: aprendi a escrever com meu irmão, antes de ir para a escola. Tinha, eu, uns cinto anos. Acho que faz toda a diferença ser alfabetizada fora do esquema, fora dos ësquemas". No meu caso, por uma criança um ano e meio mais velha do que eu. Não vejo diferença entre escrever e desenhar. Kafka era desenhista, Ana Miranda, Sábato, e há outros. A minha professora me mandava desenhar as letras que eu já sabia escrever. Foi uma confusão danada para mim ver aquela mulher dizendo que eu estava errada por saber ler e escrever.
Sorte que continuei desenhando. Acho mesmo uma sorte.

Ana disse...

Fer e Marcia
Eu também aprendi a escrever com minha irmã mais velha, e penei a ultrapassar a linha da letra de fôrma à emendada, mas desenhar? Não há um traço, faço uma reta com a ajuda da régua e, mesmo assim, sai torta. Prova disso é minha própria caligrafia. Abençoados sejam os teclados e mais abençoados ainda os que têm o dom do carvão. Serei sempre brasa.
Beijos aos dois,
Ana

ROBERTA MARTINS disse...

o papel, lugar de várias possibilidades, dá até para escrever palavras nele! um beijo do ceara para o casal!

Menezes disse...

Gostei muito de ambos os textos do Diálogo.
Penso que o desenho tem algo de tudo o que é humano, ou seja, de eros e leros, de dionísio e dio mio, de apolo de apelo, de tanatos e de tá danado!

Rafaela disse...

Acho q eu tenho um problema: não vejo desenhos nas nuvens! Será q minha visão não é tão boa?! Ou má desenhista?
Já gostei muito mais de desenhar. Hj, aliás, as ocupações roubam-me (nos) o tempo desse ato, mas de vez em qdo, é bom escrever/ desenhar... para aliviar as tensões, filosofar...

Amarilis disse...

Essa discussão aberta Diálogo sobre o Desenho está bem com cara de um seminário, workshop, qualquer coisa assim.Os textos de F. e M. aliados ao comentários interessantes como o de Beto, por exemplo, propiciam aos leigos, como eu, o exercício de PENSAR um pouquinho nessa linha de raciocínio.
Vai-se aprendendo novos conceitos e uma dedicação a entender mais sobre o que escrevem. Então cria-se a rede - repassar para amigos dessa área (música e artes plásticas)essa maravilhosa possibilidade de ver/olhar o mundo atual.

Compartilho também do comentário da Ana.
"Abençoados sejam os teclados e mais abençoados ainda os que têm o dom do carvão. Serei sempre brasa."

Um abraço, Amarilis.

Fernando Chuí disse...

Puxa, Ana, Rafa e Amarilis, minha intenção não era ser antipático e fazer ninguém se considerar um mau desenhista. Quis dizer que o desenho é uma potencialidade natural ao gesto e ao olhar de cada pessoa, assim como a escrita, mas acaba sendo bloqueada pelo mundo pragmático. A idéia é pensar que o desenho é mais do que o risco de linhas e sobras no papel, mas um desejo de se mudar a realidade a partir do olho. O desenho em si é apenas uma das formas de concretização disso.
O desenho a partir do carvão seco, pronto pra virar brasa.

Harumi disse...

Bom, agora sei que sou uma péssima trabalhadora. Não desenho há pelo menos nove, dez anos. Na verdade, rabisquei alguma coisa nestes últimos tempos, mas não gosto. Mesmo. Talvez, seja pela carência. Sério! Quando eu escrevo, pessoas muito importantes pra mim, dizem-me que eu escrevo bem. Pessoas estas, idealizadas! Claro....

Rafaela disse...

Sim, Chuí! Entendi. Tb não quis dizer isso. Foi só uma brincadeira. Acho q o desenho é isso mesmo "um desejo de se mudar a realidade a partir do olho." Embora possa não ser - sempre - a intenção. Muitas vezes, procuro chegar ao mais próximo da realidade, mas a visão é física, inverte, reflete... enfim, modifica objeto e mostra imagem.

beijo!

.·.·´¯`·.·. T a t i a n a .·.·´¯`·.·. disse...

Adorei os dois textos e estou refletindo até agora. Concordo com que o Beto escreveu, dai fiquei pensando no que ele falou da “subversão do grafite", gostei dessa visão dele, e lembrei que muitas pessoas falam da minha letra ser muito desenhada (eu tb adoro desenhar), e cheguei à conclusão que em cada escrita, se esconde um desenhista, mesmo aqueles que dizem não saber desenhar, mentem inconscientes, pq na escrita deles existem esses resquícios de desenho. A escrita é aliada a nossa geração, que costumo dizer, ser a geração" Fast Food", que significa ser prático, q ñ espera o sinal fechar para atravessar a rua, q escolhe comidas q ficam prontas em 3 minutos... resumindo, se pararmos para pensar, a tecnologia, rouba nossa maneira de nos expressarmos, as letras são certas, bem divididas e estipuladas por um computador, e mesmo que vc ache uma boa fonte para representar uma letra escrita, não é a mesma coisa. Eu gosto de escrever para meus amigos, num papel e passar minha emoção, a tinta que borra a folha, mostrando minha imperfeição, a dobra da folha, a assinatura desenhada que me identifica. A tecnologia vem evoluir a escrita, e extinguir de vez nossos últimos traços de desenho, a pequena herança que ainda tínhamos nas nossas letras na escrita. E o desenho, para muitos virou linguagem de homens das cavernas, pequenos rabiscos no rascunho da folha de trabalho, curvas e traços, que no máximo são salvos de se extinguirem, quando nos deparamos com uma criança, q nos pede para desenhar, e percebemos o problema de termos esquecido de como desenhar pequenas coisas. Por isso, quem não desenha mais, volte a sua essência, ainda há tempo. Um grande abraço Chui e Márcia