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quarta-feira, novembro 01, 2006

Wow, The Dirty Darling! - Crônica de uma Banda de Garagem III


DD e o Paganismo Sociocultural


O nome Pagão, em nossa sociedade, assume uma certa conotação ruim, algo como bastardo ou traidor. Refere-se àquela pessoa que não segue a doutrina judaico-cristã, àquele que não pratica os deveres religiosos ou não chegou a ser sequer batizado. Como eu, por exemplo. Também é assim chamado aquele que segue uma religião politeísta, que adora vários deuses. É um herege.
Aliás, o sentido da palavra herege também é interessante. É assim proclamado aquele que professa heresias, ou seja, diz coisas contrárias à ordem religiosa vigente. É o subversivo.
A rigor, é apenas alguém que tem suas próprias idéias.
Esta é a grande e saudável ilusão do rock. Ao organizar sons em pequenos ambientes como os quartos dos fundos ou as eternas garagens, a partir de muito poucos elementos musicais como instrumentos precários, uns poucos acordes básicos e uma vontade ímpar de fazer acontecer algo em suas vidas, os integrantes adolescentes de uma banda têm a nítida impressão de desvirtuarem a lógica dada pelas instituições para parir uma voz própria: fresca, nova, revolucionária.
Há muito tempo que não há revolução estética no rock, mas isto não é realmente importante. A simples idéia de imaginar-se o personagem da subversão do sistema é um movimento absolutamente modificador da alma do indivíduo.
Nós, do Dirty Darling, estudávamos todos em um dos colégios mais tradicionais e ferrenhos de São Paulo. A escola possuía uma espécie de neo-liberalismo enrustido, semente de um neo-fascismo. Para se ter idéia, recebíamos um boletim em papel verde de computador com nossas classificações no bimestre ou semestre com relação à turma e a todas as áreas. Só faltava estar escrito LOSER no verso daquelas folhas pertencentes àqueles que, como eu, não constavam entre os dez mais dedicados do grupo. O colégio era o carrasco, o vestibular era a sentença.
Para além desta questão, havia também o velho esquema xerox kitch das escolas norte-americanas das turminhas populares, dos nerds - ali bastante representados pela grande quantidade de orientais obstinados com a aprovação no vestibular - e daqueles que passavam à margem de tudo. Ali tínhamos nossa exclusão e desgostos garantidos o suficiente para brotar em nossas vidas o espírito de subversão.
Somente deste segmento marginal poderia surgir uma banda como o DD.
Bom, falando assim, parece até que éramos todos uns alunos lamentáveis. À exceção da minha singular pessoa, todos os outros integrantes do grupo eram bons alunos. O Bigatto, a voz atonal do DD, criticava a tudo do alto de seu posto de primeiro aluno da área de humanas. É de um prisioneiro da estrutura que pode surgir o mais genuíno desejo de ruptura. Era Adorno invejando James Dean. Sentando na primeira fileira da classe, com os pés batucando Little Richards embaixo da mesa.
Eu e Bigatto flertávamos com o germe dos DD ao cantarmos, entre uma aula e outra no corredor do colégio, um discretíssimo Be-Bop-A-Lula, o velho clássico de Gene Vincent. Mais tarde, descobrimos outros hits de corredor, como Turn, Turn, Turn dos Byrds ou Deixa Eu Te Amar de Agepê. Cantávamos em voz baixa, ecléticos, heréticos, politeístas.
Em meados de 1990, quando eu já começava a estudar violão clássico e passava pelo processo de troca de suporte, do espaço do papel ao tempo musical, um fato fez o primeiro passo para o surgimento da futura, revolucionária e inotória banda, The Dirty Darling.
Ao adentrar nossa sessão de hits de corredor a música Take a Walk on The Wild Side de Lou Reed, pedi a Biggets que me gravasse uma fita cassete com uma coletânea de seus anti-Hits. Estas canções transitaram intensamente por mim e Bigatto, por Mamel, por Danilo Monteiro, por Cristiano Ricardo.
Naquele período, um certo grupo de burgueses virgens tomou conhecimento sobre as putas, travestis e viciados de New York. Descobrimos que poesia também vinha do esgoto, pra além das aulas de redação. E o pior, descobrimos que Lou Reed tinha sofrido terapia de choques elétricos antes de deixar o piano clássico para se dedicar à sua tosca guitarra elétrica.
Kill your Sons, ele dizia, pagão.
Parindo ali mais alguns dos seus pobres bastardos.

(continua...)

10 comentários:

palena disse...

Chuí querido,
Que bacana essa crônica, estou adorando, parece até que vos (re)vejo a lembrarem dessas histórias na mesa do Hugue's. Entre outras revoluções possíveis, claro.
Também tenho tido lembranças da adolescência, o que foi e o que ficou, talvez seja um momento de maior distância desse período... E bate uma saudade, uma vontade de não se separar emocionalmente do que tanto nos fez Ser, às vezes Estar...
Sei lá. A crônica está pulsante.
beijo da amiga Palena

Palena disse...

Eita, tem a charge e o personagem e tudo mais!... Está mais que bom, cara.
abração,
eu.

Palena disse...

Eita, tem a charge e o personagem e tudo mais!... Está mais que bom, cara.
abração,
eu.

Adriano disse...

Chuí,

Vou comentar...vou confessar...Estou curtindo...E lembrar do Agepê, me comparar a Adorno, muita heresia junta. E quanto à tira: a melhor.

Biggetts

Fernando Chuí disse...

Puxa, enfim uma manifestação do meu personagem-mor!

André disse...

Finalmente a biografia da banda mais herética que surgiu está sendo lançada em folhetins! Adorei a tira do Bigato!!

CRS disse...

Ouvi dizer que em algumas músicas dos DD, quando tocadas de trás para frente, dá para escutar "Lou is the best", "Viva o Velvet" e outras coisas mais. Além do que sempre houve rumores de mensagens subliminares escondidas nas gravações feitas em estúdios de última geração ...

CRS disse...

Ouvi dizer que em algumas músicas dos DD, quando tocadas de trás para frente, dá para escutar "Lou is the best", "Viva o Velvet" e outras coisas mais. Além do que sempre houve rumores de mensagens subliminares escondidas nas gravações feitas em estúdios de última geração ...

clarita disse...

Genial!!
continua, continua, continua!!!

beijoca

Fernando Chuí disse...

Não conheço todos os boatos sobre o Dirty darling, CRS. Mas com certeza são todos verdadeiros.