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domingo, junho 10, 2007

A Ciranda


Qual é o seu nome?
Lá-lá-la-lá...
O meu? Escolha um você, tenho vários.
Recebo novos nomes a cada vez que eu mostro uma face.
Eu sei que dizem que eu sou tudo que se opõe ao bem,
que eu sou o vício e a moléstia,
o agente de todo infortúnio que acomete à dita civilização.
Ah, não dê bola pra gentinha. Lá-lá-la-lá...
Nada há de nos importar agora,
o destinou fez com que nos encontrássemos.
Você me pergunta se foi o azar? Qual a diferença, não é?
Não terá sido esta estranha forma de fome
que você agora experimenta?
Certamente a dúvida, sempre a dúvida,
trouxe você para perto de mim.
Foi ela, afinal, aquela que fundou a minha mitologia.
Sabe, você tem uma beleza que jamais ousaria descrever.
E eu, você não sabe bem o porquê,
mas desperto o seu apetite ou coisa que o valha.
Lá-lá-la-lá...
Ah, qual é o seu nome mesmo?
Confesso que não me importo, a bem da verdade,
com esse tipo de formalidade.
Quem deseja a alma não se liga a nomes.
Um rosto sugere nomes,
mas um nome não revela um rosto.
O seu, contudo, eu pretendo guardar.
Talvez não o seu nome atual,
mas o nome, este, que eu lhe dou agora
no momento em que você fecha os olhos
e me deixa entrar. Lá-lá-la-lá...
É preciso cuidado com o lugar de onde você me vê.
Eu sou exatamente aquele que nega sua visão.
Aquele que tenta seu coração.
Por mais que você tente negar. Lá-lá-la-lá...
Pensar que eu sou uma forma fora do seu ideal,
fora de você, é brincar com fogo.
Pois, apesar dos meus cabelos louros
e das minhas bochechas coradas,
meu único desejo é alisar seus cornos.
Lá-lá-la-lá...
Pois, enquanto você me vê como uma menininha,
eu é que vou brincar com a sua forma de bode,
doce, lépida e pueril,
como quem cantarola uma ciranda.
..
..
..
(texto e desenho: Chuí)

sexta-feira, junho 01, 2007

Tem Cará, Tem Cascudo e Tem Traíra (Cordel Urbano III)


Ontem foi a estréia do Samblues, minha parceria com Guappo.
Que maravilha que foi.
Não vou me alongar, mas devo dizer que não me lembro de ter tocado numa sintonia tão boa como na noite de ontem no Syndikat Jazz Club. O Guima, amado camarada e guitarrista, chegou para o segundo bloco - mais maravilhas.
No meio do processo de releituras de sambas, uma música nova surgiu, quiçá a primeira faixa de Samblues - o disco.
Falei um dia pro Guappo:
-E aí, fez alguma música?
-Não. Mas ontem eu entrei num boteco e um caboclo me disse: Tem cará, tem cascudo e tem traíra...
Depois de um tempo, a música se fez. Ontem, nosso caríssimo amigo Hamer subiu ao palco e a platéia se juntou ao refrão:
-Tem cará, tem cascudo e tem traíra!
Abaixo vai a letra de mais este cordel urbano.
Aos amigos que ontem engrossaram esse coro: Obrigado!
Beijos a todos!
..
Tem Cará, Tem Cascudo e Tem Traíra
(Cordel Urbano III)

Domingão, eu passei no boteco
pra beber e assistir o futebol.
Já pedi uma branquinha ao Maneco.
E pro jogo, uma Schincariol.

Um caboclo de lá do balcão
já me encara bem feio e me pisca.
Eu senti como se eu fosse a caça
que acabasse de morder a isca.

Timão tinha que ganhar do peixe
ou então já tava eliminado.
Já no início, perigo de gol,
mas o chute saiu pelo lado.

E eis que quando esquentava a partida,
o caboclo levanta e se vira.
Olha bem nos meus olhos e diz:
“Tem cará, tem cascudo e tem traíra.”

Tem cará, tem cascudo e tem traíra
Eu pensei, que diabos se passa?
Será que ele era um tipo de bruxo
ou efeito surreal da cachaça?

Nem tentei responder, resolvi
ficar quieto e já deixar pra lá
Desviei meu olhar do sujeito
e no jogo fui me concentrar.

A partida seguiu zero a zero.
No intervalo eu virei outra pinga
O caboclo assistia de costas.
Devia ser um tipo de mandinga.

Meia hora do segundo tempo
e só dava o Timão no ataque
O coração na boca era um barco
Afundando ao som de um tique-taque.

No finzinho do segundo tempo
Falta fora da área e o juiz pira.
Dá um pênalti pra nós e ouço outra vez:
“Tem cará, tem cascudo e tem traíra.”

Tem cará, tem cascudo e tem traíra
Eu pensei, que diabos se passa?
Será que ele era um tipo de bruxo
ou efeito surreal da cachaça?

O atacante se posicionou
E a torcida gritou sem cessar
O seu coro de mil pescadores
"Caiu na rede é peixe ê-ê-á!"

Lá foi ele no meio de tudo
E no canto direito ele mira.
Bola fora e agora eu que grito:
“Tem cará, tem cascudo e tem traíra!”

E a pancada rolou na geral
E a torcida invadiu o campo inteiro
Gritando “traidor” pro atacante
que fugiu escoltado pro chuveiro.

Tem cará, tem cascudo e tem traíra!
E o caboclo sumiu na trapaça!
Será que ele era um tipo de bruxo
ou efeito surreal da cachaça?
..
..
(texto e desenho: Chuí)

sexta-feira, maio 25, 2007

Samblues!

Amigos, Samblues na área.
Nesta quinta, dia 31 de Maio, apresentarei minha parceria com o gaitista Guappo: o show Samblues! – Música Urbana sem Fronteiras. Faremos um encontro do samba de raiz com o sentimento (ou feeling) do estilo blues, como já realizado em prévias realizadas nos últimos shows do Mandacaru de Pedra. Canções de autores como Adoniran Barbosa, Ismael Silva, Cartola e João Bosco com o acento e a interpretação inspirados no ritmo norte-americano, da sua forma mais tradicional até o seu encontro com as raízes do jazz.
Meu violão paulistano-brasileiro buscará resgatar minhas origens no Backyard´s - minha antiga banda de blues que eu tinha com meu irmão, há uns doze anos - e criar novas texturas, ao fundir-se em uma só estética urbana e sem fronteiras com a gaita inspirada, virtuosa e, ao mesmo tempo coesa de meu caríssimo Guappo, músico habituado às casas voltadas ao blues e ao jazz.
Dentro do repertório, também estão presentes canções dos meus dois discos “Feito a Mão” e “Nunca Vi Mandacaru”, como o samba-blues homônimo ao primeiro cd, o baião blues homônimo ao segundo e o blues brasileiro “Tubaína”, finalista do festival de Música da Rede Globo de 2000. O Syndikat Jazz Club fica na rua Moacir Piza, 64 - Cerq. Cesar/Jardins.
Adorarei tê-los outra vez (ou pela primeira) por perto!
Beijos a todos,
Chuí

domingo, maio 20, 2007

Eles


Na vida, o nosso diálogo mais importante
para uma compreensão mais fina da vida
é travado com os que não existem.
Grande falha, grande equívoco
cometem aqueles que segregam esses seres.
Pois são Eles, os que não existem,
os que nos salvam da psicose.
Eles nos revelam objetos e bichos
sem peles, pêlos ou cascas.
Eles escrevem livros que não existem em palavras e papéis.
Desenham formas sem suporte.
Cantam melodias matematicamente irrealizáveis.
Constróem máquinas que não têm função
sob o ponto de vista dos que existem.
Dizem tudo sem voz.
Deve ser esta a lição mais importante do mundo.
Ouvir muito bem aquilo que não está dito.
Ler aquilo que não está escrito.
Tocar a não-matéria.
Bebericar lentamente o vinho do impossível.
É de máxima importância que aprendamos mais e mais
a conversar com os que não existem.
Com o que não existe.
Conversar com os que não existem não é uma tarefa de loucos.
São chamados de loucos
aqueles que apenas preferiram não voltar,
maravilhados com o diálogo mágico com os que não existem.
Mas para os que, entre nós, realizam o contato com Eles,
o retorno é fundamental
para que se faça a sua transcrição.
Nessa hora o mundo se retraduz e se transforma,
ou então as artes seguem ampliando o seu universo paralelo.
E cada vez que uma das coisas que não existem
passa a se pronunciar na pintura da existência,
sete mil outras nascem imediatamente
do outro lado da tela.
E o mundo segue na ilusão de que o mundo de agora
não existia antes, negando a verdade,
intocável sob o prisma da ciência e da filosofia,
que nos diz que coisas que não existem
nunca deixarão de existir.
..
..
(texto e desenho de Chuí)

quarta-feira, maio 09, 2007

A Visita do Diabo à Cidade (Cordel Urbano II)


Quando o diabo visitou a cidade,
teve parada na Paulista e confete,
rádio e TV, torpedo pros celulares,
multidão e tempo real na Internet.

E os jornais narravam todo o evento.
Falavam disso de domingo a domingo.
Nos descreviam seu café da manhã.
Vendiam pôsters com a cara do gringo.

E a quarta-feira interrompeu a metrópole.
O presidente fez comício primeiro.
E de um Mercedes o demônio saiu,
num manto branco, distribuindo dinheiro.

E no palanque ele subiu imponente
e a voz rugiu no megafone vermelho.
Firmou o cenho mirando o mar de gente.
Falou pra nós como quem fala pro espelho:

“Desde o dia em que vocês me pariram,
eu digo isto e já repito de novo.
Entendam que falo pro seu próprio bem
que a razão é sempre o ópio do povo.

Vim pra dizer, vocês não têm o direito
de matar seus filhinhos, sem condolências.
A minha empresa está perdendo mercado.
Saibam que não vou tolerar concorrências.

Mas olhem dentro dos meus olhos agora.
Meu grito ecoa pela praça da Sé.
Dos seus olhinhos eu jamais olho dentro.
Olho é de dentro dos seus olhos de fé.

Eu vou-me embora, tenho muito a fazer.
Rezem o terço e façam mil orações
pra não saberem que eu nunca existi
a não ser dentro dos seus vis corações”.

Depois daquilo, o diabo voou
com seu jatinho e sua mensagem de paz
e o povo nunca se esqueceu desse dia,
porém não houve um comentário jamais.

Nunca se deu notícia daquela história
sobre a visita do diabo à cidade,
sobre o seu manto pálido qual memória,
branco de sangue lavado com piedade.
..
..
(texto e desenho de Chuí)

terça-feira, maio 08, 2007

Relâmpago (Cordel Urbano I)

.
"Uma sociedade que não se prepara para proteger suas crianças
no futuro deverá se preparar para se proteger delas".
.
Luis Carlos de Menezes - Revista Nova Escola
.

(Cerca de um mês atrás, eu tive um sonho onde eu tocava raivosamente um rock em Mi maior no violão. Hoje, ao ensaiar algumas velhas canções, lembrei-me de um texto de meu pai sobre a educação e a criminalidade infanto-juvenil. Em instantes, a noite regurgitou uma letra inteira para mim, esta que se encaixou perfeitamente ao rock onírico. Como um sapato velho a um pé torto.
Se eu tiver coragem, vou incluí-la no próximo disco.)
.
Relâmpago
(Cordel Urbano I)
.
Mermão, nem um pio e já pega à esquerda no farol.
Nesses próximos minuto você vai roer o osso
que eu roí pra me formar perito em desumanidades.
Sem gracinha que o meu berro tá apontado ao seu pescoço.


E aí como é que foi o seu lindo carnaval?
Pagou quanto o abadá? Fotografou o pelourinho?
Mas não tem mais festa agora, não tem cordão entre nós.
Que ironia, eu vim de lá, eu vim de lá pequenininho.


Pára o carro devagar e finge que eu sou teu amigo
e já saca esse cartão e digita a senha certa.
Não se esqueça, meu irmão, melhor ter muito cuidado,
cada um cuida do seu, e o teu tá na minha reta.


É, eu sei, tu tá estranhando eu te chamar de meu irmão.
Eu sinto que te desaponto, isso tu não vai negar.
Eu sou o outro lado teu, aquele que tu não quis ver.
Tu é o outro lado meu, o que ocupou o meu lugar.


Mermão, nem um passo em falso ou um abraço, tu já era.
Já tá quase no final, mais um caixa, mais uns $1000.
Só não sei se eu te liberto, levo o carro e vou embora
ou te queimo e deixo o corpo em algum terreno baldio.


De menino eu aprendi, a cada surra que eu levei.
Hoje o destino te sussurra no ouvido, canta assim:
Se ontem tu não fez de nada pra me proteger da vida
amanhã tu te prepara pra te proteger de mim.


Mermão, agradece a Deus, hoje é teu dia de sorte.
Já reduz bem devagar e pára no acostamento
que hoje eu tô de bom humor e até que fui com a tua cara.
Eu levo os cheque e o celular, mas te deixo os documento.


Agora eu vou abrir a porta e atravessar aquela ilha
e tu não vai querer deixar tua mulherzinha de luto.
Eu volto aqui pra te pegar e todo o resto da família
se tu ousar olhar pra trás nos próximos dez minuto.
.
.

quinta-feira, maio 03, 2007

Toda mentira

..
Um anjo é assassinado
cada vez que você chora.
(Não posso saber quem você é
pela medida do seu sofrimento)
Um santo é acorrentado
cada vez que você mente.
(Mas redescubro meu nome
ao acalentar sua dor)
Um mártir é enforcado
cada vez que você foge.
(Queria transfundir todo seu pavor
pra dentro de minhas veias)
..
(Uma, não.
Mil, um milhão;
Sejamos honestos, todas)
..
Toda mentira é esquecida
cada vez que você ri.
..
..
(texto e desenho de Chuí)

Mandacaru & SAMBLUES! no Villagio Café

Amigos, terça-feira (8 de Maio, às 21:00hs) apresentarei-me novamente, ao lado de Guima e Guappo, tocando canções dos dois discos meus e também mais um tanto da prévia do show SAMBLUES! que idealizei com Guappo. O trio estará aquecido do show que nós faremos no final de semana no SESC Rio Preto, acho que vai ser bacana.
Será no Villagio Café, uma das mais tradicionais casas de shows de São Paulo.
Adorarei vê-los por lá para um bate-papo após o show! Beijos a todos!

Villaggio Café

Endereço: Praça D. Orione 298, Bela Vista (travessa 13 de maio)Informações: 11 3251.3730

domingo, abril 29, 2007

Tubaína no Youtube


Amigos, esta semana foi postado no Youtube um video com minha apresentação na final do Festival da Música Brasileira da Rede Globo de 2000.
Deixo o link abaixo àqueles que ficarem curiosos e aos amigos antigos que quiserem rever este episódio da minha vida musical. Logo em seguida, eu lancei o meu primeiro cd Feito a Mão, que continha a canção em versão acústica.
A versão do festival saiu em um disco pela Somlivre. Como dá pra ver no video, é uma versão mais roqueira e tropicalista, um momento bastante importante estética e afetivamente para minha compreensão sobre os caminhos que eu deveria seguir nesta trilha tão incerta da música popular independente.
Divertido e bom olhar-se repentinamente sete anos mais novo e mais ingênuo.
Pois, invariavelmente, tudo na vida que é sete anos mais novo é sete anos mais ingênuo.

quarta-feira, abril 25, 2007

Romantismo


Olá, desculpe-me por abordá-la assim tão abruptamente, mas eu não pude deixar de reparar na sua beleza.
Honestamente, acho que nunca vi uma mulher tão bonita como você.
Seus olhos, são mesmo azuis? Lindos mesmo.
E seu pescoço, eu admiro muito isso, pescoço nobre.
E como você se veste bem, heim?
Acho fundamental isso numa mulher.
Tem umas que ficam só cuidando do corpo e esquecem do bom gosto.
E que pele, que dentes.
Outros caras só ficariam olhando pra outras partes suas, mas eu dou valor a esses detalhes.
Que me chamem de erudito, não me importo.
Ei, não que o seu corpo não seja divino, muito pelo contrário.
Aliás, com todo o respeito, você malha?
Você é de uma formosura realmente inacreditável. Especial, eu diria.
E vou lhe contar uma coisa, eu nunca disse isso pra ninguém.
Você deve estar se perguntando, ele se acha erudito com essa camiseta de futebol?
É que eu treino, também cuido de mim, certo?
Onde você vai? Não seja tímida.
Pare só um pouquinho, juro que sou apenas um romântico.
Pra onde você está indo? Eu posso lhe acompanhar.
É muito provável que eu vá amar você pro resto da vida.
Ou melhor, pra toda a eternidade!
Eu posso declamar Neruda pra você todas as noites, juro.
Que pressa a sua, não?
Sabe, contemplando seu semblante, sinto-me mais forte e mais fraco ao mesmo tempo.
Bem, isto não é Neruda, mas eu vi num filme do homem-aranha.
Você também gosta de cinema?
Você é um filme inteiro. Todos os filmes!
Você é quieta, heim?
Eu não me importo, o seu jeito apressado de caminhar já é pura linguagem.
Você deve estar pensando que eu sou mais um desses homens que só se preocupam com aparências, né?
Está enganada, eu só estou esperando as suas palavras pra que elas me guiem pra uma nova compreensão de existência.
Alguém com essa bunda - por sinal, que bunda você tem! - só pode ser muito inteligente.
Eu acredito no que diz Adorno no livro Minima Moralia, forma é conteúdo sedimentado.
Confesso não ter tido notícia de um conteúdo tão denso assim.
Heh, desculpe a piadinha, também não é muito do meu feitio, não sei o que acontece comigo quando falo com você.
Isto deve ser a tal paixão, modifica nossa percepção e nossa ação.
Você nunca ri?
Você é perfeita. A beleza perfeita.
Ah, já sei o que você vai falar, que a beleza está nos olhos de quem a vê, né?
Não, nada disso, não fique acanhada, você é realmente deslumbrante.
E eu, veja bem, sou somente isso que você vê, um romântico incorrigível.
Um romântico, diga-se de passagem, que acaba de se descobrir assim que a viu passar.
Como eu disse, nunca fiz isso antes.
Parar uma desconhecida na rua? Inédito pra mim. Mágico até.
Ah, não vá embora, gracinha.
Não corra, vá... peraí, me responda só, você tem orkut?
Volte!
Neruda! Drummond! Antonio Machado!
Não tenha medo do amor!!!
Não tenha medo do amor!!!
Não tenha medo do amor!!!

quarta-feira, abril 18, 2007

Violência


Certo dia, o muro em frente à minha antiga casa
amanheceu com a seguinte pergunta
registrada em tinta-spray vermelha
em letras tortas sangradas:
..
QUE VIOLÊNCIA VOCÊ PRATICA?
..
Não pude compreender aquele deboche.
Parecia que o próprio diabo havia se esgueirado por aquela ruela para deixar o recado para minha consciência.

QUE VIOLÊNCIA VOCÊ PRATICA?
..
Senti-me desafiado e desafiador ao mesmo tempo.
Por ser indagado por aquela questão insólita e também estranhamente impelido por aquela pichação. ..

QUE VIOLÊNCIA VOCÊ PRATICA? ..

Durante muitos meses aquela sentença me acompanhou como se eu fosse o rei da alguma droga de lugar e ela, o meu bufão. ..

QUE VIOLÊNCIA VOCÊ PRATICA?
Um dia, peguei-me amassando raivosamente um folheto do China in Box ao olhar para a paisagem.
Ao me dar conta, larguei imediatamente o papel que caiu no chão como uma vítima desmaiada.

QUE VIOLÊNCIA VOCÊ PRATICA? ..

Poucas semanas depois, percebi minha irritação ao falar ao telefone com um amigo.
Tive vontade de desligar o telefone, como se o aparelho fosse um rosto que pudesse ser esmurrado.

QUE VIOLÊNCIA VOCÊ PRATICA?

A pergunta passou a me perseguir dia após dia, noite após noite.
Percebi que agora guiava mais rápido, mais displicente, mais agressivo.
Dirigia com um braço pra fora do carro, maldizia a tudo que se tornasse uma imagem de obstáculo na minha linha reta, a lentidão das senhoras motoristas, a vida curta dos motoboys, os engarrafamentos, os semáforos.
Lançava palavrões ao vento.

QUE VIOLÊNCIA VOCÊ PRATICA?

Lembro-me do dia em que gritei com uma telefonista que queria me vender algum pacote sei-lá-de-que-catzo.
Saí de casa e mostrei a língua para uma criança na rua.
Assoviei para a mocinha que passava com o cachorrinho da casa onde trabalhava.
Cuspi no meio da rua.
Aquele punhado de letras mal grafadas se imprimia em meu cérebro, rabiscava-se em sua extensão como estilete, mantendo meus punhos agora constantemente fechados.
Eu sentia que algo estava para acontecer.
..
QUE VIOLÊNCIA VOCÊ PRATICA?
Certa manhã, aconteceu.
Nem deve ter sido pela manhã, mas foi ao acordar que, procurando com meus olhos vis e grudentos aquele refrão de canção invisível, vi que a frase havia sido apagada, sobrepujada por outra pichação, em letras ainda mais borradas.
Não me perguntem o que foi grafado por cima, eu não faço idéia.
Não obstante, eu podia ver, por trás de tudo, resquícios da palavra VIOLÊNCIA; agora um sussurro rosado por baixo de um outro nome que nunca pude reparar qual era.
Como se o bufão houvesse falecido e deixado como herança para mim o seu eterno riso.
VIOLÊNCIA

Parei de mirar o muro.
Voltei a abrir as mãos, em pouco tempo retomei a calmaria.
Porém, antes de me mudar dali tempos depois, em uma espécie de recaída, dei uma olhada sorrateira naquela parte do muro.
A gente devia aprender com a mitologia; mas não, eu fiz igual a Orfeu.
Olhei para trás.
As palavras que sobrepunham a indagação diabólica tinham sido parcialmente apagadas, provavelmente pela chuva, como uma piada de mau gosto vinda dos céus.
Li, assustado.

VOCÊ PRATICA?

Sinto-me pichado até hoje, parcialmente manchado com um sentimento que não posso definir.
Como se séculos escondessem uma pintura medieval por baixo de minha própria fachada de superfície lisa.
Alguma coisa entre a vergonha, o cinismo e a sabedoria.

PRATICA?
.
(Texto de Chuí / Desenho extraído de "Indecifrável" de Chuí - work in progress)

sexta-feira, abril 13, 2007

Mais um Passeio de Mandacaru


Nesta quarta, houve mais uma apresentação do mandacaru de pedra. Atendendo a pedidos de amigos queridos que me escrevem, aqui estou neste breve relato sobre a apresentação no SESC Pinheiros. Tocamos o seguinte repertório:

1 Passeio de Mandrágora (Fernando Chuí) - Banda
2 João da Silva (Fernando Chuí) - Banda
3 Drops (Fernando Chuí) - Banda
4 Funk Urbano (Fernando Chuí) - Banda
5 Nunca Vi Mandacaru (Fernando Chuí) - Banda
6 Não me Amola (Fernando Chuí) - Banda
7 Quero Amanhecer ao seu Lado (Fernando Chuí) - Banda

SAMBLUES
8 Saudosa Maloca (Adoniran Barbosa) – Chuí & Guappo
9 Juízo Final (Nelson Cavaquinho) – Chuí & Guappo
10 Se você jurar (Ismael Silva) – Chuí, Bruno Sciutto & Guappo
11 Na baixa do Sapateiro (Ari Barroso) – Chuí, Bruno Sciutto & Guima

12 Canção de Amor para Marcia (Fernando Chuí) - Chuí & Guima
13 Tubaína (Fernando Chuí) – Banda
14 Estrela Morta (Fernando Chuí) - Banda
15 Uma Outra Ilha (Fernando Chuí) - Banda
16 Assassinato ao Cair da Tarde (Fernando Chuí) - Banda

17 Feito a Mão (Fernando Chuí) – Banda - BIS

O show foi excelente. Algumas pessoas que acompanham meu trabalho me disseram ter sido a melhor apresentação do Mandacaru - abaixo já postarei alguns comentários que recebi de amigos presentes na noite.
A banda, Guima, Igor Pimenta e Humberto Zigler, impecáveis. Guappo esteve, como sempre, inspirado e recebeu muitos elogios das pessoas com quem conversei e o SAMBLUES pareceu ter recebido a aprovação dos presentes. Havia cerca de setenta pessoas, segundo o pessoal do SESC; muita gente não conseguiu vir e não tivemos teatro cheio, mas as pessoas foram bastante calorosas, devo agradecer. De qualquer forma, os produtores me disseram que foi um público muito bom para o projeto que, por conta do horário, não tem tido grandes platéias.
Gostei de tocar a Tubaína novamente com a banda toda, foi das canções mais aplaudidas com a ajuda da platéia no refrão. Bruno Sciutto, novo amigo, percussionista, ator e arte educador, nos deu a honra de suas congas energéticas em Na Baixa do Sapateiro e em Se Você Jurar. Valeu, Bruno!
(Ah, peço desculpas aos que me aguardaram na saída, mas não percebi que havia uma outra porta para mim e perdi de encontrar a gente no lado de fora do auditório.)
É isso, gente, tudo muito bacana mesmo. Espero que não demore a se repetir e em lugares novos em folha...
Pra variar, eu e minha cabeça de vento esquecemos de divulgar as novas datas: faremos os próximos shows no SESC Rio Preto, dia 06 de maio, no café Villagio, dia 08 de maio e no Syndikat Jazz Club, dia 31 de Maio, em formação reduzida, com o Guappones e Guimets na guitarra. Coloquei acima o repertório do show de quarta e pensei agora que as pessoas poderiam me dar sugestões para bolar o repertório dos próximos shows, portanto, aguardo idéias dos amigos.
É isso, beijos a todos! - E os novos posts voltarão em breve.
Chuí

domingo, abril 01, 2007

Gigante


Observemos o arranha-ceús e suas ramificações.

Seus galhos, seus veios, seus olhares.
Seus arbustos, sua seiva, sua imponência.
Seu mastro, seu cristal, seu cansaço.
Observemos o monstro erguido diante dos olhos,
murmurando em letras claras como o vento
que ali está para lembrar-nos
de que toda construção oculta um mito fundador.
Observemos o que existe ali em segredo
percorrendo a membrana que envolve toda a superfície
da estrutura que se vê.
Observemos, por dentro, a partir do fuso,
a epiderme infinita do carvalho
a nos remendar o silêncio.
Observemos com a ponta dos dedos
o topo do prédio
como cegos que tateassem a cútis
para colher a alma.
Observemos o edifício na sua pele mais sutil.

Pois só o olhar profundo
fita o gigante,
capaz de mirar a tez.


(imagem extraída de "Indecifrável" - work in progress)

sexta-feira, março 30, 2007

Mandacaru no SESC Pinheiros


Dia 11 é a estréia do show Nunca Vi Mandacaru no SESC!
Além da banda preciosa, formada por Guima (guitarra), Igor Pimenta(contrabaixo) e Humberto Zigler(Bateria), também haverá uma prévia do SAMBLUES, show de releitura de sambas antigos em versão Blues com a participação especialíssima de Guappo na gaita encantada e Bruno Sciuto na percussão de ouro.
Mais detalhes no convite em anexo ou no site www.fernandochui.com.br/.
Será uma data muito especial para o caminho do Mandacaru de Pedra. Adorarei vê-los por lá!
Mil beijos e abraços,
Fernando Chuí

segunda-feira, março 26, 2007

A Ave


No lugar onde eu entrei
havia uma belíssima ave.
Seus olhos eram duros e brilhantes como cobalto.
Era negra, sem plumas, sem penas,
Sem bico, sem vértebras.
Tinha asas transparentes, mas estava parada.
Era pequena e sua casca fosca
se fundia ao tronco
curvada em meio às suas dobras.
Quem olhasse a paisagem veria as folhas das árvores
prateadas pela luz da lua.
Perderia esta visão, de longe, muito mais majestosa.

Alguns talvez quisessem dar a ela outro nome, gênero ou classificação,
dada a taxionomia patológica que nos assola as idéias e os nervos.
Talvez a chamassem de inseto, quiçá bichinho ou coisa do gênero.

Mas o que eu vi,
sem sombra de dúvidas,
era uma magnífica ave.


(desenho extraído de "Indecifrável" de Chuí - work in progress)

segunda-feira, março 19, 2007

O Sol Negro


Diante dos boatos,
uma sombra avançou pela comunidade.
..
Camadas e camadas de sombra,
penetrando em nossas veias e signos,
entintando o céu e os outdoors
com a força de uma estrela vingativa.
Cartas cheias de tristezas
se aproximavam na velocidade do medo.
Cada cenário era promessa de um crime hediondo.
O fim era uma carta promissória extraviada e inegável.
Sob a peste ou a religião do breu,
cultivávamos o pavor
como se observássemos atentos
aos nossos filhos assassinos
a crescer sob os semáforos.
Eu me lembro de ter corrido o mais rápido que pude.
Lembro-me das minhas lágrimas de nanquim
logo pisadas pelos pés descalços de meus irmãos em fuga,
depois também pisados por outros irmãos em fuga.
Celebridades iam a público revelar suas moléstias graves.
Astrólogos faziam maus presságios na TV.
Escolas de samba mudavam de ramo.
Intelectuais pediam sangue nos jornais.
Cada segundo tornava-se lâmina.
Cada silêncio tornava-se espelho.
Toda mão era punho.
Todo metal era espada.
Todo pensamento, tóxico.
...
E quando todos esperavam a hecatombe negra,
Foi sob a forma da luz
.......................somente a luz
...................................como sempre a luz
..
.........................................................a nos lançar à escuridão.
...
...........
(imagem: desenho de Chuí)

quarta-feira, março 14, 2007

Cinema


Eu....sempre ...quis
....
..........f......a....z...e..r .............c..i...n....e......m.......a
...
....
....M..a..s .........j..á......... s..o..u.........f..e..l..i..z

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(Imagem: ¥ conversa com Dr. Hamgster em Indecifraveu de Chuí - work in progress)

sábado, março 03, 2007

As Caixas


O artista não cabe em uma caixa.

Mas como saber onde ele se encaixa
se é dentro de caixas que ele é vendido?
Reluta, transgride, por fim concorda
(seu coração sempre transborda).
O artista se esforça a caber na caixa,
pois há no planeta uma legenda:
"Quem mora aqui e não está à venda
não tira a venda de si".
E faz do diabo um retrato belo.
E faz-se refúgio ou fugitivo.
E faz, na ferida do mundo,
um mágico lenitivo.

E nesse momento de desilusão,
ele reencontra o seu lugar.

Mas o mundo é o mundo
porque dá voltas.
Se ultrapassa e se reinventa.
Que ironia, o artista
que antes não se encaixotava
por um princípio, um ideal,
agora não entra mais nessa feira
pois lhe comprar já não há quem queira.
O mesmo artista retorna agora
ao posto antigo, marginal,
arquitetando suas novas caixas
pra se vender essencial.
O infeliz não está à venda,
mas se desdobra a ser comprado.

E nesse momento de extravio,
ele reencontra o seu lugar.

Produz agora porque precisa.
Produz da lógica a revelia.
Produz, à noite, um outro dia.
E se expõe novamente a revoluções.
Vive a sonhar-se em muitas caixas
bem bonitas, aos borbotões.
No ar, na madeira, no aço
ou no cyberespaço
Lança as caixas ao vão
feito bumerangue.
Quer distribuir,
autógrafos em cada uma delas,
com seu próprio sangue.

E nesse momento de ilusão,
ele reencontra o seu lugar.


(Ilustração de "Indecifraveu" de Chuí - work in progress)