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quarta-feira, janeiro 31, 2007

Wow, The Dirty Darling! - Crônica de uma Banda de Garagem V


O Amor nos tempos do DD
Epígrafe de Batatinha
..
Amor
Não é questão de rima
É questão de sina
Acabar em dor
..
Bigatto
(hoje casado e feliz
com suas 7 filhas, aos 43 anos )


Naqueles tempos de colégio, não me lembro de ouvir a palavra amor nenhuma vez entre os integrantes do DD.
...
Parecia pra nós coisa do Phil Collins ou dos trocadilhos dos Engenheiros do Havaí.
Fizemos a canção-homenagem "A Metáfora Mortífera" a eles cujo refrão era "Nem tudo que reluz é ouro/ mas tudo que seduz é louro".
...
Depois de um cover dos Beatles que dizia "I´m so glad that she´s my little girl", Mamel disse, com seu forte sotaque de Mamel, que não tinha vontade de tocar aquilo novamente:
- Eu não estou tão feliz e muito menos tenho nenhuma little girl.
...
Amor era nosso tema fantasma ou fantasmagórico.
Tínhamos tanto pavor do amor que só falávamos de sexo.
Infantes selvagens pensando que pérolas eram pra jogar bolinha de gude.
...
Fazíamos canções em inglês sobre a dor de corno.
The fool era uma canção sobre o homem traído.
Girl era a canção de um homem com raiva de ter sido traído.
If you were mine era sobre um homem traído por uma mulher morta.
Pensávamos que ser um chifrudo rock'n'roll era mais bacana. Sofre, mas parece rir com o diabo.
...
Fazíamos canções em inglês sobre a dor de corno.
Tudo a ver, ninguém entendia mesmo o que era isso naquela época.
...
A frase do Bigatto é verídica.
- Meu epitáfio: Aqui jaz um homem que mais fez rir do que fez amor.
...
Ok, antes de sairmos do colégio, o Bigatto arranjou uma namorada.
Eu, por minha vez, fui a Tropical city. Mamel também foi.
Dissemos a todos que visitaríamos um museu.
...
No colégio, não me lembro de ouvir a palavra amor nenhuma vez entre os integrantes do DD. Ainda me pergunto onde o amor andaria nesta época.
Talvez estivesse escondido dentro de nossas acnes, pronto pra explodir e ser um rabisco no espelho.
...

domingo, janeiro 28, 2007

Genealogia de um Sorriso


Existe um gesto raro em mim: o sorriso.
Meu sorriso é realmente difícil. Não aprendi a sorrir como "oi", nem mesmo como um simples "boa tarde". Sinto meus músculos faciais desacostumados ou mesmo atrofiados ante a tal esforço. Nada pessoal ou blasé, sorrio pouco até para minha família, meus amigos próximos, meus colegas. E não é uma carranca ou problema algum com o riso. Muito pelo contrário, no exagero sou bom, rio das piadas mais infâmes, leio as cenas à minha volta buscando o lúdico, dou risadinhas, desperdiço gargalhadas.
Mas o sorriso, o que nos traz simpatia e graça, este eu não desenvolvi.
Talvez seja reflexo de um histórico de timidez. Possivelmente, influência de minha ascendência oriental. Contudo, retrocedendo na genealogia da minha moral, creio que, inconscientemente, acabei me condicionando desde a adolescência a pensar que sorrir é coisa de gente falsa, manipuladora ou superficial. Quiçá tenha aprendido com os filmes dos"tough guys" interpretados por Clint Eastwood e Marlon Brando que o sorriso deve ser apenas um instrumento da ironia.
Certo dia, assistindo a um outro gênero, vi um comerciante árabe interpretado por Omar Shariff dizendo a um garoto judeu que este deveria aprender a sorrir, com o que o guri respondeu "eu não sorrio porque não sou feliz, você sempre tem dinheiro na caixa, por isto sorri". O árabe citou o Torá e retrucou que seu lucro ali era pífio, e que as pessoas não sorriam por estarem felizes, mas era o sorriso em si que produzia a felicidade. Pensei que gostaria de ter visto esse filme há quinze anos, quando ainda havia salvação para minhas bochechas.
Hoje em dia eu me esforço (dentro do possível) nesta ação e admiro as pessoas sorridentes, invejo-as, sou um grande fã de sorrisos. Acompanho-os nos filmes, passo em slow motion no DVD. Percebo suas nuances, suas modalidades, estilos, níveis e as próprias variações pessoais de cada sorriso (umas cinco ou seis em cada pessoa, aproximadamente), bebo dos detalhes (infinitos), fixo meu olhar nas covinhas, nas rugas, nas dobras mais intimamente sutis de cada rosto alegre que se me apresenta.
Percebo o sorriso da boca quieta, degusto especialmente daquele que vem sob a forma de um brilho no olhar. Desta forma, aprendi com os tempos a identificar o meu próprio sorriso malocado no canto da boca e nos olhos; o pior é que eu descobri, tolo, que ele chega a ser evidente pra quem me vê.
Sou fácil de conquistar, basta sorrir para mim - talvez eu não saiba retribuir, mas certamente já estou ganho. Continuo repudiando o cinismo, a superficialidade e a falsidade da faces dos imbecis, mas agora virei um expert em matéria de sorrisos. Separo o joio do trigo.
E sigo, macambúzio.


(desenho: estudo para Graphic Novel de Chuí)

quarta-feira, janeiro 24, 2007

O que existe


Não existe a justiça. O que existe é a flor.
Não existe a justiça. O que existe é a raiva.
Não existe a justiça. O que existe é o sorriso da criança.
Não existe a justiça. O que existe é o corpo no chão.
Não existe a justiça. O que existe é o planeta em rotação.
Não existe a justiça. O que existe é o rastro de sangue.
Não existe a justiça. O que existe é a dor.
Não existe a justiça. O que existe é a literatura.
Não existe a justiça. O que existe é o sexo.
Não existe a justiça. O que existe é a solidão.
Não existe a justiça. O que existe é a morte.
Não existe a justiça. O que existe é o compromisso.
Não existe a justiça. O que existe é a fome.
Não existe a justiça. O que existe é o mato crescendo.
Não existe a justiça. O que existe é o mato queimando.
Não existe a justiça. O que existe é a bolsa de valores.
Não existe a justiça. O que existe é a depressão.
Não existe a justiça. O que existe é a casa grande.
Não existe a justiça. O que existe é a senzala.
Não existe a justiça. O que existe é o céu.
Não existe a justiça. O que existe é o fosso.
Não existe a justiça. O que existe é o rio.
Não existe a justiça. O que existe é o afogado.
Não existe a justiça. O que existe é o coma profundo.
Não existe a justiça. O que existe é o parto sem fim.
Não existe a justiça. O que existe é o desejo.
Não existe a justiça. O que existe é a revolução.
Não existe a justiça. O que existe é a história engavetada.
Não existe a justiça. O que existe é o conceito inacabado.
Não existe a justiça.
O que existe, dentro e fora da ficção,
é a luta pela justiça.

(texto e desenho de Chuí)

segunda-feira, janeiro 22, 2007

O Homem e a Luz


Você está vendo aquela cidade tão bela?
Sua vista iluminada e deslumbrante
esconde uma história cruel.
Será que você já foi até a ponte e viu a lua inacreditável
que submerge pintura impressionista
sobre o rio poluído?
Sobrevoa nesse instante um crime hediondo.
Quem sabe você foi a um monumento ou mirante
e pôde constatar a perfeição da sua arquitetura
em cores brilhantes
do ocre ao verde azulado?
O que se vê é uma mulher sem alma.
Note que, bem à sua frente,
a feiúra desmente os olhos e,
no esgoto que vaza
pelos poros abertos da avenida,
a fome, a solidão, o descaso, a sujeira
e toda a sorte de dores urbanas
diluem em poucos segundos
uma fragrância de lírios orientais.
Ninguém saberá dela.
Todavia, ela é a mágica contra bruxaria.
O mundo se move
e os vinte e cinco milhões de células olfativas que você possui
só percebem esse único odor,
movendo-se no espaço ao redor de si
como uma nave espacial.

(Fiz este desenho hoje. Goya, Miró, Frank Miller, Picasso, Escher, Gaudi e Will Eisner me convenceram que neste ano preciso fazer uma "graphic novel". Desejo um ano pleno de alegria, saúde, serenidade e coragem a todos que embarcaram nesta nave ou nau chamada 2007...)

quarta-feira, dezembro 27, 2006

Meus votos para 2007


Na fome
Degustação
No desejo
Carícia

Que seja devorar
o exercício da língua

É preciso saber beber
daquilo que mais nos revele
O maior órgão do corpo
é a pele

(Este é o último post do ano.
Viajo e retomarei aqui no final de janeiro.
Desejo a todos que vierem a visitar este espaço neste intervalo
muitas flores e frutos no ano de 2007 )

(imagem: Bitcho desenhado por Fernando Chuí e Marcia Tiburi)

quinta-feira, dezembro 21, 2006

Herói é humano


Quando eu era criança eu passava todo o tempo desenhando super-heróis.
Eu fazia assinatura das revistinhas da Marvel e aguardava ansioso pelos gibis SuperaventurasMarvel, Homem-Aranha, Heróis da TV e Hulk, além de comprar na banca de jornal as séries do Batman e do Super-homem.
Para quem não é formado por esta literatura, é preciso explicar de que se trata. É a arte seqüencial, definição do gênio Will Eisner, que flerta com o infantil e com o adulto ao mesmo tempo.
Esteticamente, as HQs de super-heróis também têm algo de paradoxal. Por um lado, elas se propõem a uma seriedade digna de uma Odisséia, e, por outro, apresentam-se com desenhos cheios de balõezinhos que tornam quase impossível a tarefa de se escapar do kitch. Seus desenhistas trabalham as figuras todas em proporções realistas e, não obstante, não conseguem escapar da sua caricatura de nanquim. Com o advento das graphic novels dos anos 80, criou-se uma legenda de que então as HQs finalmente assumiriam seu posto de arte de boa qualidade. Todavia, não acho que a tal qualidade estética da ditas HQs adultas fossem o maior legado das histórias de super-heróis. O cinema, sim, resgatou delas a sua essência, algo como o kitch-cult.
Toda HQ de super-heróis retrabalha, como evidencia o próprio nome, o mito do herói.
Recorro - mais uma vez - a Joseph Campbell que diferenciava as duas figuras públicas: o herói (figura pública antiga); e a celebridade (a figura pública moderna). Enquanto a celebridade se populariza por viver para si mesma, o herói assim se tornava por viver servindo sua comunidade. Todo super-herói deve atravessar alguma via crucis. Gandhi disse que, quanto maior nosso sacrifício, maior será nossa conquista. Como Hércules, como Batman.
Por trabalharem sob uma narrativa progressiva e cíclica, e serem tecnicamente mais ambiciosas do que as outras modalidades de HQs, as histórias de super-heróis se deslocaram de seu meio de revistas e jornais, aproximando-se muito mais das séries de TV e do cinema, mas sem perder seu mito pop. Talvez por isto as melhores coisas que o cinema comercial produz ultimamente sejam as adaptações das HQs de super-heróis.
O cinema nasceu comercial e, a despeito de uma série de diretores que conseguiram desenvolver o chamado cinema de arte, de Bergman e Fellini a Peter Greenaway e Almodóvar, é disto que se trata, uma imensa indústria de entretenimento. Não acho esta definição algo absolutamente depreciativo. Recordo-me de um gibi em que o Surfista Prateado dizia aos seres humanos: "A vida é imensa e complexa - acontece dentro e à margem dela mesma."
Toda HQ traz em si alguma coisa de industrial e marginal, ao mesmo tempo e sob o mesmo aspecto. Os filmes de super-herói, ainda que transpondo essa cultura para a grande e famigerada indústria, realizam uma outra façanha, que provavelmente sem eles não ocorreria: a formação de novas mitologias reafirmando os mesmos ideais heróicos da antigüidade ao homem moderno. Fellini afirmou uma vez que Stan Lee, o criador da Marvel e de diversos heróis populares, era o Homero do quadrinhos.
Toda boa história de super-herói é uma história de exclusão social. Homem-Aranha é um Nerd, Hulk é um monstro amaldiçoado, Demolidor é um deficiente, os X-Men são indivíduos excepcionais, Batman é um órfão, Super-Homem é um alenígena expatriados. São todos símbolos da solidão, da sobrevivência e da abnegação humana.
Não se ama um herói pelos seus poderes, mas pela sua dor. Nossos olhos podem até se voltar a eles por suas habilidades fantásticas, mas é na humanidade que eles crescem dentro do gosto popular.
(Os super-heróis que não sofrem ou simplesmente trabalham para o sistema vigente tendem a se tornar meio babacas, como o Tocha-Humana ou o Capitão América)
O cinema de Hollywood tem a função de nos mostrar até onde alcança o inconsciente coletivo, o topo do lugar-comum, aquilo que a sociedade espera dela mesma (o que, às vezes, nos traz boas surpresas); e os super-heróis, hoje superstars, são mitos oriundos de experiências feitas em laboratórios do submundo, a velha sub-arte das HQs, a santidade surgida do lixo. Hulk e Homem-Aranha são seres que criticam a inconseqüência da ciência, com sua energia atômica e suas experiências genéticas. Os X-Men nos advertem para a educação inclusiva. Super-homem é aquele que mais se aproxima de Jesus Cristo - e por isto talvez seja o mais popular de todos, mais popular do que os Beatles, que um dia disseram serem mais populares que Ele - em seu sacrifício solitário em defesa dos seres humanos, mas também tem algo de Aquiles, com seu calcanhar que é a kriptonita. Humano e super-herói, como Gandhi.
Não houve nenhuma literatura que tenha me marcado mais do que essas histórias em quadrinhos. Eu raramente as leio hoje em dia, mas quando assisto a bons filmes de super-heróis eu me lembro que todos temos um lado ingênuo e bom, que pode ser capaz de suportar a dor da solidão por um princípio.
Eu sempre me enterneço ao ver os X-Men, o Homem-Aranha ou o Super-Homem. Vejo diversas vezes, sei os diálogos. É verdade que há, entre esses filmes, alguns absolutamente lastimáveis; contudo, os filmes de super-heróis são a prova da sobrevivência deste mito em meio ao glamour e a indústria de "celebridades-miojo". Parafraseando o Surfista Prateado (e Deus queira que seja bem retratado nas telas...), é a negação do sistema, trazido dentro e à margem de sua grande indústria.
Tenho a raiva do Hulk, o mau-humor do Wolverine, a solidão do Super-Homem. Temos a tendência a atribuir nossos erros e defeitos à humanidade que nos comporta.
No entanto, vejo esses filmes e lembro-me que, ainda hoje, herói é humano.

(foto: desenho feito sobre quadro negro na sala do Menezes, meu pai; à frente, nós- 1987)

sexta-feira, dezembro 15, 2006

Auto-retrato

Quem quiser me conhecer
Que venha como um turbilhão
Metralhadora, bala de canhão
Sonho, tempestade, vulcão
Epidemia, lambida de cão

Só não estranhe
os meus olhos de assombro
Só não recue
quando eu me esconder num manto

Eu terei a vida inteira
para lhe retribuir o espanto


(imagem: auto-retrato de Chuí, 1997)

quarta-feira, dezembro 13, 2006

Assassinato e Proteção: Um conto

Esta noite eu matei alguém.
Não era alguém que deliberadamente me fazia mal. Nem era sequer uma pessoa má. Tampouco era alguém concretamente, mas uma forma mal sintonizada no universo que se refletia em minha mente sob a imagem de uma pessoa. Esta forma agora se foi como fumaça se dissipando no ar, desenhando imagens que valem menos pelo que se revela e mais pelo que dela desaparece.
É preciso aprender a matar as pessoas. No terreno simbólico, é claro, não quero evidentemente incitar ninguém a qualquer ato de insanidade criminosa.
Mas sei que matar alguém sempre soa como algo terrível; e realmente o é.
Todavia, é como eu vi noutro dia em um filme em que o protagonista explicava sua serenidade ao outro personagem após um assassinato: “a coisa mais interessante de se fazer algo realmente terrível é que, depois de pouco tempo, você não se lembra de absolutamente nada”. Muitas vezes, é preciso fazê-lo - ser o agente de nossa própria leveza.
Praticamente todas as mágoas que guardamos de nossa história assumem alguma personificação, e o problema de não matar estas pessoas é que assim não conseguimos evitar o passado correndo nas veias a sua substância venenosa. Esta, sim, é uma condição horrível. Amigos de infância, professores, colegas de trabalho, namoradas, maridos, pais. Até mesmo com pessoas já mortas é recomendável o assassinato; nesses casos o cuidado com a precisão deve ser redobrado. Muitas destas figuras tornam-se, por vezes sem que a gente sequer desconfie, os nossos fantasmas pessoais; nos perseguem em todas as camadas do inconsciente, nos afetam em todos os setores da vida cotidiana.
(Há que se constatar que com certas pessoas torna-se inviável esta medida. Casos extremos como estupradores, pais suicidas e outras maldições; pessoas que, por terem outrora nos ferido tão gravemente, tornam-se proprietárias de certas regiões de nosso afeto, impossíveis de serem mortas por já nos terem matado. Já são nossos sócios constituintes, é fato, vêm pra todas as reuniões, têm influência em todas as decisões)
Falo de causar a morte de malditos menores, mas não menos letais. Eu poderia evitar palavras associadas à morte, usar de eufemismos como esquecimento, perdão, passagem a outro nível, mas qualquer uma delas soaria somente como paliativos diante do grande mal que seria deixá-los viver em nosso mundo. O ato consciente de agir e decretar a morte de alguém é indispensável em muitos momentos da vida.
O tempo é uma entidade que não abriga dois níveis desarmonizados, ou seja, uma pessoa do passado que teima em ocupar o mesmo espaço do presente. Gera uma espécie de curto-circuito afetivo, nos confunde os sentimentos. Para elas, só o cadafalso.
Quando eu digo que é preciso aprender a matar alguém é porque matar alguém é realmente um ato que deve ser realizado com toda a perícia e propriedade. Senão, acontece como nos filmes onde os vilões deixam os heróis para morrerem em situações hipoteticamente impossíveis de se sobreviver, mas eis que hipoteticamente não é efetivamente, e eles escapam sãos a salvos. Não se pode esquecer que nesse filme nós precisamos exercer o papel de um competente carrasco. A pior coisa de não se saber matar alguém é que esta pessoa permanece viva da pior maneira possível: como um morto-vivo.
Assombrando nossas casas, arrastando correntes em nosso inconsciente. Como quando se ataca diretamente aquele em quem se acredita estar nosso inimigo real. Ledo engano atacar a carne, eles são espíritos; nos castigam dentro da alma, cenário desta operação. Os fantasmas nos habitam sob muitos disfarces; a culpa é um deles, muito comum. A culpa não é comum nas pessoas que sabem assassinar seus carrascos, mas é muito presente naqueles que não souberam dar fim a seus corpos. Esses fantasmas também costumam surgir sob o capuz da vergonha, outro instrumento da fantasmagoria. O bom matador não tem vergonha, pois acredita na sina; a vergonha é sinal de crime imperfeito.
Dirão alguns que todo morto merece ser enterrado, uma pedra em cima e uma epígrafe para que não mais se levantem de lá após o ritual. Discordo, acho que não se deve enterrar um morto, pois isto seria uma boa maneira de se criar um cenário de terror; eles se levantam das tumbas cheios de terra no meio da noite. Enterrar significa deixar espaço para mágoas, rituais funebres, ossos, vermes, raiva, ódio reincidido, além da sensação de incompetência, de não ter feito a coisa direito. Fogo neles: queima-se o espírito, se possível com um fósforo de hotel barato, para nunca mais se lembrar de seu nome nem de nada. Com o espírito devem ser consumidas as cartas, destruídas as mensagens de e-mail, reduzido a cinzas o número no telefone celular. O bom assassino não deixa vestígios, muito menos para si próprio. O melhor da morte da pessoa é fazê-la não ter existido jamais.
Esta noite eu matei alguém. Fiz isto por uma única razão: eu decidi fazê-lo. Por vezes, a única etapa que nos separa desta alforria é a simples decisão. Mas para isso é preciso estar atento ao timing, o momento de maturação dos elementos que se manifestam à nossa volta. Há a hora certa. Pois quando se mata alguém, não há retorno.
Este você não volta jamais a maldizer, a repelir, a desejar o mal - mesmo frágil, à sua frente, você sequer o verá. Matá-lo é uma forma de altruísmo.
Extirpar a vida daquele que nos assombra é protegê-lo de nós mesmos.

(imagem: desenho-texto de Chuí)

quinta-feira, dezembro 07, 2006

Sobre a minha timidez e o equilíbrio cósmico

Guardo no fundo do meu planeta uma raiz de sombras, uma voz, chamada timidez.
Há dias em que ela está mais à mostra, grave e acomodada feito as pernas do carvalho; noutros, é quase um sussurro imperceptível, um conjunto de finas veias a se misturarem na terra úmida. Ela muda o tom, a cor e a forma de acordo com as condições, afinal as sombras não sobrevivem sós, elas dependem da qualidade da luz alheia. Por vezes, ela se parece com um pudor vermelho; por outras, com uma antipatia cinza. Mas é tudo ilusão, pois é sempre a mesma criança azulada com medo de sair do útero, o mesmo velho marrom com vontade de retornar para lá. A mesma voz, sempre ali, a raiz inexata na base da minha fundação.
Em contrapartida, eu tenho uma outra voz, esta que canta. Pra piorar, exibo-me assim para platéias, tantas quantas quiserem me ver. Pessoas constantemente costumam se dizer espantadas com a minha face dramática no palco, bradando despudorada, em contradição com a minha presença cotidiana, quase sempre bastante sóbria e econômica, quase avarenta.
Em um mundo que padece da ditadura da histeria, sinto a timidez como um mecanismo psíquico que funciona sob uma lógica de equilíbrio cósmico. É como quando, em grupo de pessoas muito sintonizadas, uma delas precisa se retirar e todos sentem o desconforto, passam por momentos de re-harmonização. Eu sempre percebi que há um momento claro de desequilíbrio da ordem universal antes estabelecida. Regida por esta ordem, minha freqüência é constantemente alterada. Em ambientes onde há pessoas falando muito, tendo a calar-me. Faço isto como que para suprir a função de equilibrador da ordem social, para preencher o espaço dado com o vazio de palavras. Viro de costas pra acompanhar o movimento da sombra.
Como em uma orquestra ou em uma Big Band, onde os instrumentos por vezes devem desaparecer para dar lugar às outras vozes que virão fazer seu solo. Nos ambientes agitados, falo pouco, alguns poucos contracantos de oboé em resposta aos temas das melodias principais. Com pessoas quietas, torno-me expansivo, faço os violinos, os improvisos do saxofone. Com os velhos amigos, Free Jazz.
Minha timidez é dialética e musical.
Ao olhar para o mundo repleto de informações, tenho a sensação imediata de ser um instrumento invisível. Logo percebo que não é verdade, que há pessoas que sempre acabam notando minhas tonalidades. A consciência de um mundo interior tão cheio de eventos me traz para esta impressão de que, mesmo quando me olham, não me vêem. As pessoas mais sensíveis podem constatar que há algo por trás, mas não conseguem definir em palavras. É uma estranha autocrítica.
Quando estou assim, somente a luz me atravessa a consciência. É como eu gosto de ser visto. De tão lúcido, translúcido.
Na verdade, tento sempre cegar a verdade da inveja que possuo, assim como todo tímido, dos extrovertidos, dos evidentes, dos histéricos com seus holofotes de arco-íris. Invejo tudo o que não faz parte da minha transparência cósmica.
Deve ser por isso que eu canto. Para romper o silêncio do peito, a outra voz. Para arrancar do solo esta raiz, tal qual grito de mandrágora. Para confundir o tecido das sombras com a matéria dos astros.
De tão espacialmente tímido, acho que aprendi a me esconder na luz.

(imagem: desenho de Chuí)

quarta-feira, dezembro 06, 2006

fato quase


(Há cerca de dois anos, eu escrevi oito histórias que, juntas, formavam Contos do Mal, meu livro não publicado de contos . O mal não habita nenhum outro espaço que não o de nossas almas; é a entidade que nos proporciona a visão do bem. O conto que segue é o mais curto e o último desta série - uma visão sobre a fragilidade da vida apolítica.)
.
Fato quase

Ela não sabia nadar, mas tentava, chacoalhava seus braços e se debatia em vão; vinha de muito longe, passeara por belos campos, presenciara a beleza dos céus e suas cores misturadas e do esplendor das matas impronunciáveis.
Era uma ironia que agora se encontrasse sob tamanha dificuldade; já havia passado por momentos muito mais complicados e perigosos e, por fim, escapado de tudo ilesa; todavia ali estava ela, encarcerada pelas águas, condenada pela sua própria estupidez. Como aconteceu, não vem ao caso, para que se buscar um responsável por um erro quando este mesmo se agarra às suas últimas forças em uma luta patética pela sobrevivência? O fato era que ela não resistira, como sempre, às tentações do desconhecido; para ela quase sempre fora impossível olhar o abismo sem se atirar nele.
Talvez fosse desprovida de medo - ou teria pavor? – e naquele instante fosse provavelmente o mero instinto de sobrevivência; não tinha, que se diga, algo que pudesse substancialmente ser chamada de um medo, contudo era incrível como o medo por vezes pode ser tão incrivelmente próximo a se confundir com o puro reflexo de defesa.
A sua vista estava cada vez mais turva, seu corpo boiava na imensidão aquática enquanto mantinha-se lutando pela vida ou quase isso. Embora o drama de sua luta pela sobrevivência seja o enfoque do que se escreve aqui, tudo ali não passava, na realidade, de um pequeno ou quase incômodo. Muitas vezes, a morte ou a guerra de outrem resulta, na melhor das hipóteses, em uma pequena coceira no canto da nuca alheia. Assim era, a rigor, a história de sua vida – não somente a dela, mas de muitos outros como ela – tratava-se de um afogamento, bem podia ser um atropelamento, um pisoteamento, um bombardeio, uma explosão, um enforcamento, um espancamento, um envenenamento.
Desprovida dos instrumentos necessários para a reflexividade, ela se fazia sempre banal e sua morte poderia ser até mesmo desejada ou meramente desprezível. Não porque era pouco visível - pois o era afinal - mas porque não havia em sua classe alguém que tivesse condições de erguer a voz contra tamanha brutalidade, o ser que se vê sem um grupo que o represente possui a maior de todas as solidões.
As águas tornavam-se cada vez mais agitadas, ondas ferozes lhe arrastavam e brincavam com seu corpo frágil como cachorrinhos brincam com brinquedos de borracha abandonados pelas crianças. Nada novo, aliás, em sua classe. Não há argumentos diante de um corpo a se encher de água, a braços que se desmantelam, à imagem de uma vida desesperada que grita os últimos movimentos para se manter, não há nada mais vivo do que um corpo lutando pra não ir embora, pois a vida nesta hora se revela no corpo e ainda mais no olhar daqueles que produzem seu cinema psicológico. Mas não havia olhar.
As ondas se formavam a partir da peça metálica que se movimentava naquela lagoa, entrava e saía levando e derramando pequenas partes da água daquele reservatório. Ela ia sendo carregada por aquelas marés a cada gesto brusco do instrumento, perdia suas forças; havia pouco a fazer, mas não desistia, pois que nem sabia o que era isso. A água estava quente, amarela e translúcida e boiavam ao longo daquela superfície líquida várias folhas verdes, vermelhas e marrons, além de estranhos objetos amolecidos a se esfacelar naquele meio. A sofreguidão com que começava a se movimentar o instrumento metálico fez com que as águas começassem a empurrar o corpo já quase inválido dela para as margens do lago poluído.
Uma pequena esfera verde acertou sua cabeça e após alguns segundos o empuxo das águas tragou-a para o fundo para depois arrastá-la para uma das bordas da estranha lagoa ou quase isso.
Seu equívoco havia sido evidente, separar-se de seu grupo. Deveria haver uma lei que protegesse os irreflexivos, que os proibisse de andar sozinhos – andar em coletivo é a única forma de sobrevivência dos seres desprovidos da qualidade reflexiva; ou ainda, a melhor forma de sobrevivência é a reflexividade, é a marca dos tempos modernos, afinal, pois a reflexão deixa sempre vestígios que servem para a real conexão com o grupo, livrar-se de ser incômodo é infinitamente mais complexo do que livrar-se de um incômodo, pensaria ela, se pensasse.
Por um instante pareceu que poderia escapar, mexeu, contumaz, as pernas e buscou se retirar das águas escorregando pela superfície lisa da margem onde fora levada, todavia a peça de metal voltou a remexer as águas e, quase que no mesmo momento, uma violenta onda caiu-lhe por sobre o corpo envolvendo-a e engolindo-a novamente para junto das coisas flutuantes.
De súbito, o instrumento cessou seu entra-e-sai e algo fatal aconteceu: ela agora era observada. Como se pudesse ter percebido, ela reunia todas as últimas forças e chacoalhava seus membros rapidamente; era desespero ou puro reflexo, mas era quase fuga. A enorme peça de metal agora vinha ao seu encontro, buscava seu corpo por entre as tantas substâncias que ali se misturavam. A primeira investida fez com que partes de água transbordassem dali, salvou-se por trás das esferas verdes. A segunda vez foi contundente, arrancou-lhe das águas num só gesto derradeiro; na verdade, partiu-lhe o corpo, deixando esfaceladas as partes que permaneceram na água.
O mundo poupa tolos, desvalidos, inocentes, idiotas. Mas não há perdão jamais para os seres que andam a sós e sem pensamento – e, sobretudo, aqueles sem representação de classes.
E por vezes o que restará do fato, ou do quase fato, e como as únicas provas de vôo, serão asas molhadas de um quase protagonista se desfazendo sobre a sopa.

(imagem:"Fly"colagem de Chuí)

sexta-feira, dezembro 01, 2006

Show no dia 3


Domingo realizarei a última apresentação de 2006 do meu Mandacaru aqui em sampa.
Farei um show especial com o grande gaitista Guappo e com o velho cumpadre Guima na guitarra.
Aproveitando a formação, farei uma homenagem à minha velha fase de "bluesman" de há dez anos, já pensando em um projeto que ando discutindo com Guappo para 2007, unindo o blues americano ao nosso blues - a solidão dos velhos sambistas, a tristeza dos nossos Jecas, etc...

quarta-feira, novembro 29, 2006

Diálogo sobre o Desenho IV


Mar,

Para discutirmos a respeito do Eu que se pronuncia no desenho não poderemos evitar a discussão específica sobre o Eu. Aqui a pergunta não é Quem sou eu?, mas O que é Eu?
O pronome da primeira pessoa do singular, a entidade metafísica de uma pessoa, aquilo que nos é próximo na mesma medida em que nos é impossivel tocar. Sem a pretensão de responder a esta indagação descabida, reflito sobre o Eu-desenho notando que Eu é a palavra que serve ao discurso de todos e não caracteriza ninguém. Por isto, cada desenho deve registrar no Eu o seu próprio enigma.
Curioso que Eu também sirva de prefixo para designar a idéia de bem ou do belo, como nas palavras eufonia(som agradável) ou eucrômico(que tem cor bela), ou tornando-se Ev, quando sucedida de palavra começada por vogal, como Evangelho - os testemunhos sagrados. O desenho deve revelar o Eu como idéia do que há de bom e belo em cada um que é capaz de vê-lo. Desenhar não é exclusividade dos que fazem, mas também dos que são capazes de enxergar. Um desenho não revela apenas o autor em si, mas sobretudo mostra alguma outra coisa essencial e intrínseca ao próprio ser humano. Seria todo desenho uma forma de Evangelho? O testemunho de seu lado bom e verdadeiro?
Isto me leva a pensar sobre uma das formas mais antigas do desenho e da pintura: o auto-retrato. No momento em que o artista se predispõe a representar a si próprio ele passa diretamente a uma espécie de pesquisa estética que pretende revelar não o que se expressa na superfície, mas o que há por trás da imagem. O retrato, até o advento da fotografia em si, teve um sentido de mero registro da imagem das pessoas que as encomendavam, da corte ao clero, das famílias aos governantes, e seu uso pragmático ocultava um outro sentido, o de instrumento do poder. Os governantes e suas famílias recebiam uma maquiagem pictórica para sempre parecerem dignos, poderosos e bonitos, e que hoje em dia só se alcança com a "magia" do Photoshop. Por outro lado, ao se retratarem, ficava clara a intenção de uma outra busca. Em frente ao espelho, vemos o avesso de nós mesmos, ou seja a idéia invertida que temos do Eu. Desta dobra surge algo mais importante do que a representação, a interpretação. Ou seja, segundo Nietsche, a única verdade possível.
O desenho revela, antes da beleza, esta verdade. Não a verdade do autor, mas do seu espectador. É como a figura do herói, que só é amado pelo povo por revelar o lado bom de cada pessoa. O resgate do olhar ao desenho é a salvação do próprio gesto para com a vida.
Joseph Campbell falou a respeito das duas figuras públicas; o herói, a figura pública antiga, amada por servir à sua comunidade; e a celebridade, produzida pela modernidade, desejada por servir somente a si própria. A propaganda, esta arma criada pela era Hitler, é a máquina onde se reproduzem as celebridades. Deve ser este o avesso do desenho, a propaganda, a imagem criada para esconder o que não se vê fora dos holofotes. A celebridade é a figura pública na era de sua reprodutibilidade técnica, diria Walter Benjamim, o filósofo que questionava a quintessência das obras de arte singulares como o desenho. A propaganda é o trabalho da celebridade, que tem sua vida nas vitrines da mídia para despertar a curiosidade da sociedade das imagens vazias.
Você não acha que o desenho, ao menos enquanto princípio, poderia vir a ser cada vez mais o trabalho do herói, ou seja, aquele que não pensa em fama e só vem a ganhar notoriedade quando reflete muito a sua comunidade? Ou a comparação é alucinada?
Entendo a posição de Vilém Flusser em ver no desenho um engôdo. Ao perseguirmos a forma, pela linha, pela sombra, pelas cores, buscamos sistematicamente o retorno à natureza. Nunca me esqueço de quando visitei o Museu de Mineralogia de Ouro Preto e da minha sensação, ao ir embora de lá, de inutilidade da arte. As formas atingidas pelo tempo sobre aquelas matérias primas eram a prova da declaração de Flusser. E todo documento de cultura parece ser o legado da inveja do homem diante da natureza.
A natureza que não erra jamais. No máximo ela segue um curso que nos ameaça. A falha é exclusiva àqueles que tem a intenção de chegar a algum lugar e se perdem no meio do caminho. A própria palavra falha, quando usada para a natureza, não expressa equívoco, apenas denomina um desenho que são os nossos olhos que projetam sobre a Terra.
Será que aquilo que nos salva desta condição é o momento em que não seguimos a correnteza, o ponto onde os seres humanos são invejados pelo céu - a possibilidade do erro?
Talvez para nós, a verdade de um caminho se revele no desvio de nossa intenção e a ignorância nos leve a novas fronteiras, e o tremor das mãos nos leve às linhas dos caminhos desconhecidos, nos desdobrando possivelmente naquilo que o físico Mário Schenberg chamou de realidade paralela.
Será o retorno ao desenho o retorno ao herói? O traço inicial da formação de uma sociedade mais conectada com seu desejo?
As pessoas desenham pouco, não por não serem capazes de fazê-lo, mas por terem perdido o desejo. E por temerem a dor desta descoberta, a dor o início, a dor da infância, a dor do herói. O desenho revela a fragilidade do conhecimento, da técnica, o medo do aprisionamento levado ao nível zero do conhecimento.
Por isto, é compreensível a fuga do desenho.
Antes da palavra delineou-se o impulso de um gesto primário.
Imagino os olhos de Deus e dos homens se abrindo, não necessariamente nesta ordem, antes de se encontrarem com o verbo; eles teriam visto as formas delineadas pelas folhas ao vento, pela água na encosta, pelo risco na parede, e teriam quiçá descoberto em si mesmos uma outra intenção, tão oculta quanto perigosa.
Em princípio era o desenho?

Beijos esfumados,

Fer

(imagem: desenho de Fernando Chuí e Marcia Tiburi)

segunda-feira, novembro 27, 2006

Milagres

..
Jantei o núcleo da Terra
...
Por entre as paredes maleáveis
de minha fortaleza
tive visões indescritíveis
prévias do inverno dos espíritos
onde desemboquei
escorrendo como a lava
que vinha junto
...
Menos diáfano
Latejei
E pari meu grito
.
(Chuí, 1997 - Fresta I)


O desenho e o poema acima voltaram-me à memória pois o fim-de-semana deu à luz a duas notícias celestiais.
Nasceu João, o filho do Guima, meu grande amigo e parceiro musical. Ele e Kika, a mãe, estavam reluzentes. João é lindo.
E o Bigatto, meu amigo há dezessete anos e também personagem muito presente nas minhas crônicas e HQs deste blog, acaba de engravidar, juntamente com Marianita, é claro, sua esposa.
Isto sem falar no Danilo Monteiro, outro ex-Dirty Darling, parceiro de sons e diálogos cancionistas, que também espera seu pimpolho para muito em breve.
Quando nasceu Vitório, filho de Davi, um outro amigo antigo, eu compus a canção cuja letra vai logo abaixo. É a minha saudação a estes seres inacreditáveis que nos lembram que a boa vida é feita para amar, se ligar e seguir bravamente.
Confesso que fiquei tocado por estas duas notícias tão divinas e nasceu em mim um desejo doce de beber do mesmo milagre.
Marcia só assobia.

DENTRO DO ESPELHO

DENTRO DO ESPELHO
TEM OUTRO MUNDO
TEM OUTRO MUNDO NO ESPELHO DO ARMÁRIO
E ESSE MUNDO É IGUAL AO SEU
SÓ QUE DO CONTRÁRIO

DENTRO DO RÁDIO
TEM UMA MÚSICA
TEM UMA MÚSICA NO RÁDIO DA COZINHA
E ESSA MÚSICA É TÃO BONITA
QUE ACHO QUE ELA É MINHA

MENINO LINDO
SEJA BENVINDO
VENHA QUE O MUNDO QUER BRINCAR
JÁ, JÁ O SOL VAI APARECER
PRA VER VOCÊ BRILHAR

DENTRO DO CHÃO
TEM UM PORÃO
TEM UM PORÃO BEM ESCONDIDO LÁ NO CHÃO
E LÁ TEM TUDO QUE DÁ PRA CABER
NA IMAGINAÇÃO

DENTRO DO CÉU
TEM AS ESTRELAS
TEM TANTA ESTRELA
EU POSSO VER DAS JANELAS
E ELAS BRILHAM NUM DESENHO TÃO LINDO
VEJO VOCÊ NELAS
...
MENINO LINDO
SEJA BENVINDO
VENHA QUE O MUNDO QUER BRINCAR
JÁ, JÁ O SOL VAI APARECER
PRA VER VOCÊ BRILHAR

sexta-feira, novembro 24, 2006

Wow, The Dirty Darling! - Crônica de uma Banda de Garagem IV


Se você fosse minha

If you were mine

I would shot you down

If you were mine

I would kiss you

People think I´m crazy

They said you´re gone

but you are here by my side

Dead wearing your leather boots

Oh, baby I thought that you were so cool

Oh, baby I thought that you were so good

But You

You are so Dirty, Darling

You are so Dirty, Darling

(DD, 1990)


If you were mine foi um dos primeiros rocks do Dirty Darling.
Um riff de guitarra e uma progressão de quatro acordes básicos trazidos pelo Danilo, uma letra em inglês - toda banda de rock começa a compor na língua do colonizador, é claro - cantada/falada pelo Bigatto e algumas alterações na forma feitas por este que vos fala.
A letra, se traduzida, diria "Se você fosse minha/Eu a jogaria no chão/Se você fosse minha/ Eu a beijaria."
- Essa música vai ser o carro-chefe do nosso primeiro disco! Nosso hit! - bradei eu, sonhando alto, no final do ensaio.
Curioso, o tempo presente em uma banda de garagem costuma ser conectado ao tempo futuro.
O desejo de constituir obra, tocar bem, gravar discos, fazer shows, fazer sucesso. Não há nada mais intenso do que o momento em que se deseja algo com muita força. Se for um desejo coletivo então, nem se fala. É como quando um casal se apaixona terrivelmente e passa a se projetar no tempo, pensa em construir a vida, pensa em criar filhos, pensa inevitavelmente na eternidade. O presente se torna luminoso como nunca pela sensação de poder se condensar numa coisa só com o futuro. É como numa banda de garagem. Só trocam-se as declarações de amor eterno pelos planos adolescentes de sucesso, trocam-se as noites de amor sem fim pelas tardes divertidas de ensaio. A banda de garagem se norteia pela ponte imaginária que dá passagem para os grandes shows que acontecerão, os discos que serão gravados, a obra que influenciará multidões, o reconhecimento da crítica, o sucesso, o sucesso.
O Dirty Darling também vivia ancorado ao futuro, mas provavelmente a um outro futuro.
A gramática nos explica que existem dois futuros, aquele que ainda virá a acontecer e um outro que acontece em um universo paralelo, o que somente poderia vir a ser - o futuro do pretérito. O DD possuía integrantes pouco alegres, pouco arrojados e mau humorados, assim não haveria de se esperar um grande otimismo daquele círculo de rebeldia discreta. Mesmo quando a matéria viva era o sonho, nos protegíamos nesse outro futuro, que traz a idéia de um lugar protegido pelo ceticismo.
A letra continuava com "As pessoas pensam que estou louco/Eles dizem que você se foi/Mas você está aqui ao meu lado/Morta com suas botas de couro(...)". Na mais pura tradição romântica, amávamos a mulher morta. O sucesso para nós vinha na figura de um amor inatingível. Sonhávamos intensamente, para dentro do limbo onírico.
Tocar nosso som era como se tivéssemos a plena consciência da lógica estrutural do mercado ao dizer à tão sonhada vida de rockstars: "Se você fosse minha/Eu a beijaria/ Mas você/ Você é tão suja, querida".
O nome da banda não veio da música, o refrão é que surgiu do nome da banda. O nome em si veio de um diálogo de um filme pornográfico, onde o sujeito diz - em contexto cênico que prefiro omitir aqui - para a moça "You are so dirty, Darling".
Era disto que se alimentava o DD, da cultura pop marginal, dos filmes sujos às bandas desconhecidas. Pois não houve jamais os grandes shows, os discos, tampouco o reconhecimento público - nada era público. E se não havia nada público, tudo ali era pessoal. Nosso sonho era coletivo e pessoal.
Esta constatação torna evidente para mim hoje uma verdade: o sonho é uma entidade viva em si para cada um e para todos, e não uma mera primeira etapa da realização de um projeto claro. Pois que, mesmo quando ele parece se realizar, nada é como se imagina; e mesmo quando tudo parece dar certo, nada acontece como o premeditado em nossas mentes.
Ou seja, mata-se um sonho no momento em que ele se realiza.
E para nós, que não tínhamos realmente a crença em nosso desejo, ficava nítida sua importância. Este desejo era a nossa melhor qualidade, pois o que há de mais belo em uma pessoa é aquilo que ela mais desejaria ser, se pudesse.
Aquele sonho que não se realizaria fundou nossa identidade.
Na última fase da banda, o Bigatto adquiriu em uma liquidação um calçado, um genérico do All Star, que nos levou a uma música nova, esta já em português, que dizia "Eu comprei um tênis/ Um sapato como eu/ É da marca RockStar".
Rock Star para nós nunca passou da sola de borracha ao rés-do-chão.
Dizíamos Se você fosse minha, nunca Quando você for minha.
O tempo presente do Dirty Darling sempre foi o futuro do pretérito.

(continua...)

quarta-feira, novembro 22, 2006

Diálogo sobre o Desenho III


Fer,

O aspecto primeiro enunciado na sua carta é o que mais me chamou a atenção diante da sua vasta teoria que eu gostaria mesmo de poder discutir. Infelizmente não será no curto espaço desta carta, mas nas seguintes quando teremos retomado muito do que ali ficou implícito, para que se torne explícito.
Talvez seja o efeito de minha leitura de Vilém Flusser que escreveu vários textos sobre desenho, estou interessadíssima na questão semântica e mesmo etimológica que envolve o desenho. Vc menciona um dado essencial: eu-desenho, como se o desenho carregasse o eu de cada um e o definisse numa folha de papel, quando desenho, desenho-um-desenho e isso faz nascer a obra, mas ao mesmo tempo, quando sou eu-que-desenho sou eu que nasço da coisa que criei. Para usar um “lacanês” válido: me torno meu significante, mas mais que isso, vou-junto do significante que crio: sou o significante.
Todo desenho, neste aspecto, é também explicado pela boa teoria de Marx de que afirma que o homem é fruto do seu trabalho, sua obra. Sorte daquele que, num mundo que virou máquina e virtualidade, ainda desenha com carvão.
Tento há tempos especializar-me em grafites (tento aprender as técnicas da gravura pelo mesmo motivo: praticar o “memento” de um “fóssil”, como se eu pudesse contribuir na história natural do traço como elemento da preservação do que está por ser extinto).
Gostaria aqui de mencionar o texto “Acerca da palavra desenho” de Flusser pela abordagem etimológica e semântica que introduz e que, a meu ver, não foi pensada até hoje.
Ele começa dizendo que em inglês design é tanto substantivo como verbo. Sendo substantivo significa intenção, plano, propósito, meta, conspiração malévola, conjura, forma, estrutura fundamental, mas relaciona tais significados com “ardil” e “malícia”. Como verbo, diz-nos, significa tramar algo, fingir, projetar, conformar, proceder estrategicamente. Depois menciona a latina signum e o alemão zeichnen. Desenhar significa ent-zeichnen, ou seja de-signar.
Com tudo isso o que ele quer é entender, semanticamente, como a palavra chegou ao seu significado atual.
Claro que Flusser está pensando mais em design (como desenho estratégico) do que no desenho como expressão da vida (aquilo que precisamos reservar) como buscamos discutir aqui, mas a pulga atrás da orelha que ele nos traz não pode ser esquecida. Comento isso, porque além de minha confiança no pensador Flusser, vejo que é o primeiro texto (dos escassos que existem sobre o tema) que me faz duvidar de algo implícito no desenho.
Ora, o que Flusser faz é usar a etimologia e a semântica para mostrar um aspecto da prática e também da instituição desenho que envolve o que ele denomina um contexto de “ardis e malícias”. E, segundo ele: “o desenhista é um conspirador malicioso que se dedica a fazer “trampas” (como li em espanhol, pois não achei o texto em português não sei se esta é a palavra original) ou “enganos”. A tais palavra ele relaciona as palavras máquina e mecânica próprias do universo de engenheiros e designers, bem como a palavra grega techné (ou técnica) e a palavra latina ars (arte) e a palavra alemã Kunst (arte, mas que carrega a etimologia do verbo Können, poder fazer e conhecer) e outras que, no desenrolar de nossa conversa, posso até trazer à tona. Por enquanto, gostaria apenas de colocar em cena este “engodo” presente no “desenho”.
Para Flusser, a cultura que conheça sua função de “embusteira” em relação à natureza que ela sempre engana, dará um caminho melhor para si mesma. O desenho está no fundamento de toda cultura, assim como você mesmo disse, estar na base de toda subjetividade nascente (desenho logo êxito, na sua apropriação do cogito cartesiano).
Para Flusser, é pelo desenho que deixamos de ser meros mamíferos e nos tornamos artistas livres e, além disso, deuses nascidos do artificial.
Ora, é o artifício que está na base do desenho. Sempre pensei o artifício, a ilusão como num trompe-l’oeil (uma desenho para iludir mesmo, como num escorço), um desenho que “parece fotografia” como algo que não teria problema algum. Em outras palavras, a percepção de Flusser me deixou assustada, serei eu uma “enganadora”. Mas se me torno o que desenho, torno-me embuste, engana-olho, eu também?
Engano quem? Por que quereria enganar? Se o design faz isso, faria isso também o nosso desenho?
Apenas proponho mais uma pergunta neste curtíssimo espaço. Devo ainda, ao analisar seu texto, orientar minhas palavras como perguntas, já que vc colocou diversas questões que me obrigam a pensar.
Um beijo,

Marcia

(imagem: desenho de Marcia Tiburi)

domingo, novembro 19, 2006

Memórias de um Sábio

Vivo dentro de mim
E vive dentro de mim uma guerra
Entre o mundo de dentro de mim
E o outro
[poema do livro Memórias de um Sábio]
.
Dedicado às queridas Rafaela e Harumi
.
Quando eu tinha catorze anos eu comecei a escrever poesia.
Desta imprudência surgiu um pequeno livro amarelo que serviu de abrigo para os meus versos até os dezessete anos.
O mais incrível era o título que abria esta peça: Memórias de um Sábio.
Não faço idéia do que me moveu a batizar de forma tão inapropriada aquele caderno de anotações poéticas, posto que eu era um mancebo imberbe entre acnes e, além de tudo, não havia ali o menor registro memorial da minha vida daquela época. Sem sinais de fatos ou pensamentos ocultos. Sem pistas das paixões ou das revistinhas proibidas. No entanto, talvez eu possa especular o porquê de tal infâmia imodesta.
(Como eu não sei mais realmente quem era aquele garoto que escrevia no caderno amarelo, sinto-me à vontade para citar e pensar seus versos, sem constrangimentos egóicos ou seja lá de que natureza...)
Quando se é criança costuma-se perguntar tudo e, mais ainda, adivinhar tudo. Em contrapartida, na adolescência - esta invenção moderna - temos menos vontade de perguntar e passamos a preferir a descoberta solitária das coisas e, num segundo momento, a expressão de nossas fundamentais idéias ao mundo.
Cerca de 400 anos a.C., Sócrates marcou a história de pensamento ocidental com seu famoso slogan "Só sei que nada sei". O primeiro poema do livro diz:"Às vezes caminho muito/por caminhos já caminhados/ Não chego a lugar nenhum/ onde todos me esperam". Uma espécie de releitura Socrática, algo como "Só sei que ninguém sabe bulhufas".
Quando se escreve um diário ou mesmo um romance a partir de lembranças do passado, os fatos parecem absolutamente relevantes para a compreensão de tudo. A poesia resgata uma outra forma de memória e também uma vertente menos comprometida da sabedoria. Funciona em um outro registro, o de uma parceria com o universo do inconsciente coletivo. Assim, os fatos tornam-se desimportantes, sendo que a memória é afetiva e alegórica - pouco interessa de que vida se está falando.
Para além da parceria com o inconsciente, há no livro minhas primeiras parcerias com Menezes, meu pai. Uma delas diz: "Idiota é quem aponta a estrelas e olha o dedo/ Mas não lhe dêem uma faca: se olhar as estrelas/Aponta o dedo/ Ou fura o único olho/ do Rei". Memórias familiares.
Tem também uma série que se repete ao longo do livro denominada como Frases Polidas. Escritos como "A loucura é a última fase da perfeição" ou "Quero encontrar alguém com quem eu possa ficar em silêncio à vontade". Memórias da ironia. Ou do desejo de amar.

Homens povoam o deserto

Homens que não sei
Em locais que não creio
Em mim
Eu nem me conheço

Homens povoam o deserto
o deserto dos espíritos
e o desejo
de não mais desejar

Homens constróem o futuro
e a paz sangra atrás da porta
E ladra a hipocrisia
E morde a estupidez

Estou cheio de desertos

[poema do livro Memórias de um Sábio]


O memorial é a busca do aconchego na ilusão de uma vida que se imagina ter vivido. Imagino que o insólito título tenha vindo da maneira que acabei encontrando para negar o que eu era. O adolescente possui uma coragem temperada de medos que lhe dá uma grande vontade de desabafo. Este título devia ser o desabafo de quem não tinha medo da verdade, algo como "Só sei que tudo sei!". Quando a única certeza da vida é o seu fim, a sabedoria sempre será uma ilusão. Assim como as memórias meramente factuais.

Esta é minha saudação àquele rapazinho que escreveu Memórias de um Sábio, por quem eu tenho hoje imenso carinho, e a quem não importava a completa ignorância para declarar sua poesia, sua sabedoria.

E àqueles que, nesta fase da vida, já têm o suficiente dela para viver, amar e morrer.

Amor
que me ensina a ensinar
que me ensina a ensinar a ensinar
E por entre os vãos da desconfiança
Acho minha parte esperança
Acho só
Não entendo
[poema do livro Memórias de um Sábio]

(Imagem: Folha de rosto de Memórias de um Sábio)

quarta-feira, novembro 15, 2006

Diálogo sobre o Desenho II


Mar,

Desenho. Em português a palavra remete ao verbo na primeira pessoa do singular, em tempo presente. Eu desenho um desenho. A nova configuração cósmica ao alcance da mão. O nascimento da alma a partir do gesto. É como se a maneira que cada pessoa possui para se expressar pela ação de seu corpo pudesse ser concretizada no espaço-tempo de uma folha de papel. Ou na areia, a delineação preguiçosa realizada com um graveto, um dedo ou a mera e efêmera forma registrada pela passagem das ondas do mar. Todo desenho é o legado de um sopro.
O ato de se fazer importante o suficiente para se responsabilizar pela interferência abrupta no território neutro de uma folha de papel sulfite deve ser o primeiro passo para a grande transformação na forma de um ser humano notar o universo ao seu redor.
O desenho é o gen do pensamento; é o que vem antes, a vontade se antecipando ao desejo.
O desenho é para o pensamento estético o que a voz é para a música. O início que, se recalcado, apenas aguarda o eterno retorno.
Deve ser por isso que Leonardo da Vinci, desenhista, músico e cientista, dizia que o desenho era a grande filosofia. A redescoberta desta voz deve vir pelo risco, ou seja, pelo traço. Um desenho só ocorre quando o olho o revela. Desenho(olho), logo existo. É, como disse Oscar Wilde sobre a simplicidade, "o último refúgio do complexo". E o refúgio é o lugar seguro para onde vamos para nos protegermos, para descansarmos e traçarmos os novos planos-mestres. Será o desenho a toca do nosso bom lobo?
Sinto, nesta manifestação tão primordial, o germe da revolução. Penso no que pode haver de político neste ato quase pueril de se registrar em linhas e sombras um desejo.
Pois o desenho, ao contrário do que pensam muitos, não é uma ação das mãos, é uma ação do olho humano. Não é questão de coordenação motora, mas de aprimoramento do olhar. Por isso podemos ver o desenho das colinas, dos prédios, da tempestade, do fogo.
Um bom exemplo é olhar as nuvens. Os bons desenhistas enxergam mais formas do que os maus desenhistas. E não existem os não-desenhistas, apenas os que já se recusam a trabalhar.
Talvez seja esta a tarefa do desenho/desenhista dentro da nova ordem: redescobrir os desenhos inscritos nas entrelinhas da percepção e ajudar o mundo a enxergá-los. Como quando você vê no céu uma grande boca engolindo um dragão branco e mostra ao outro ao seu lado que, após alguns instantes, lhe diz "puxa, não tinha percebido, está ali e é incrível".
Desenhar é gerar metamorfose a partir da visão; a física explica que o olho, no momento em que enxerga o objeto, modifica-o. Observe-se que o desenho não serve ao belo exatamente, mas sobretudo ao corte; todo traço de giz no papel é um corte de gilete na estrutura, um grito silencioso de horror. Como o gesto das palavras ilegais pichadas nos muros urbanos em letras novas. Pois o silêncio não é ausência, mas estratégia.
O olho, ao criar o desenho, se revolta. Toda revolução é a reinvenção do olho humano.
As pessoas desenham cada vez menos, porque a vida vai esfacelando aos poucos todos os instrumentos de reflexão. Como em sua experiência com a faculdade, assim como a minha, a prática institucionalizada pode vir a comprometer o desejo e a sensibilidade. Sou, claro, favorável a novas políticas do desenho e da educação do olho.
Mas agora eu lhe pergunto cruelmente: de que formas o desenho, no mundo das altas e velozes tecnologias, rituais eletrônicos e vistas calejadas, poderia vir a ser estopim para mudança ética e política? Digo, como isto pode hoje tocar efetivamente a sociedade. Ou a sua idéia de revolução não atravessa a estética? Ou a estética, que se pretende política, não atinge sequer a ética?
(Ação política, individual; coletiva, inconsciente.
Desenho, Eu)
Beijos de carvão,

Fer


(imagem: desenho de Fernando Chuí & Marcia Tiburi)

terça-feira, novembro 14, 2006

Diálogo sobre o Desenho I - por Marcia Tiburi & Fernando Chuí


Fernando,

Há dias prometi escrever a você sobre o desenho desde que conversamos sobre esta possível troca de idéias. Vou tentar expor meu pressuposto para iniciar esta conversa: meu simples gosto pela coisa e mostrar o quão complexo isto pode ser e como esta afirmativa sobre minha percepção pessoal com o desenho, possui um lado político e ético que pode tocar a todos nós. Trata-se do ético e político que está sob o véu de toda estética. A ação, o modo de ser que a define, que está por trás de toda aparência.
Pois, Eu desenho, Tu desenhas, Nós desenhamos, ora todos desenhavam e muitos perderam o vínculo com esta forma de expressão seja porque foram educados para esquemas, ou alfabetizados com certo recalque das funções expressivas, seja porque nossa cultura não valoriza este trabalho com o traço. Mas além de eu, tu, nós, há “Eles” que “desenham, hoje”. Quem são eles? As crianças, os estudantes, os ilustradores, os chargistas, e alguns apaixonados como nós que não profissionalizaram sua arte. Tomo este tema pensando em todas estas pessoas, além de nós. Suspeito que a relação com o desenho seja a mais ancestral relação que uma pessoa pode ter com a representação e se ela permanece, companheira da vida de alguns e trazendo-lhes tantas alegrias (infinitas e minimalistas ao mesmo tempo), por que outros se separaram desta possibilidade?
Além disso, lembro-me como a faculdade de artes, quando eu fazia meu bacharelado em desenho, foi desestimulante. Fiquei pensando, por mais artistas que fossem os professores – e não quero deixar nenhum tom de queixa ao que vou dizer – faltou-me sempre uma introdução ao desenho que me colocasse junto com o que é próprio ao gesto de desenhar: o gesto de pensar como ato de criar conceito por meio de traços.
Por isso, a filosofia sempre me pareceu mais instigante, porque eu via nela a construção de conceitos que o desenho também fazia, mas de modo explícito.
E, para começar nossa conversa, pergunto: podemos dizer que desenhar é pensar? Digo pensar como um modo qualificado de olhar e ver. Você considera que este vínculo entre filosofia e desenho tem sentido? Não seria a filosofia uma explicitação do que no desenho é apenas implícito?
Um mundo onde as pessoas desenhassem mais, como se dançassem mais, ou cantassem mais, seria um mundo melhor? Você acha que esta preocupação é muito ingênua?
Um beijo,

Marcia

(imagem: desenho de Marcia Tiburi)